Quinta-feira à noite, o clima é de festa. O público chega bem animado, procurando um canto para se aconchegar. As luzes azuis e vermelhas que remetem para a sensação de estar dentro de um filme de Gaspar Noé, mais propriamente de Love, enfatizam aquele clima de mistério e sedução. Os músicos entram e se posicionam em seus respectivos instrumentos sem que o público perceba. As luzes piscam e as batidas se iniciam em um tom minimalista. De dentro da escuridão uma voz sai: Que engraçado / Sobrou tão pouco / Que tragédia / Foi tudo tanto

Entra em cena uma moça alta, misteriosa, envolvida em tecidos de lantejoulas de ar carismático e tragicômico cantando entre sorrisos falsos – e até verdadeiros -, o mais puro devaneio em versos sutis, porém marcados em doses de libertação em português, francês, espanhol e inglês sobre desamores desastrosos que poderiam ser de muitos que estavam ali presente. Foi assim que se apresentou a cantora e compositora Letícia Novais – ex-vocalista do duo Letuce -, mergulhada no universo pop com um pé na pista de dança e o outro no completo isolamento de sua personagem Letrux, persona que dá voz e vida às letras das músicas que compõe, no último dia 10 de Agosto de 2017 na Sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo, no lançamento do seu primeiro disco de carreira solo Letrux Em Noite de Climão.

O disco é aquele quadro curioso da curva dramática da indústria fonográfica, uma obra dançante carregada com um forte impulso pop oitentista acompanhado por timbres e ambientações cinematográficas, um aviso para o público sobre o que prepara: um convite para mergulhar de vez nas pistas de dança embalado em histórias do cotidiano de uma paixão, cheio de calor humano, regado a ironia e desespero, beirando no misticismo aos sussurros eróticos e sintetizadores esfumaçados. A soturna introdução de “Vai Render” abre o show com voz suave, deslizando noite adentro, quase num mantra moderno, como diz a própria Letrux: Que engraçado / Sobrou tão pouco / Que tragédia / Foi tudo tanto / Que engraçado / Cê não tá louco / Que tragédia / Eu tô um pouco

Dentre as faixas de Letrux em Noite de Climão destacam-se “Ninguém Perguntou Por Você”, que começa serena, depois vira um hit disco para dançar, “Que Estrago” que, com as vozes de Ana Cláudia Lomelino, Duda Beat e Martha V, traz o universo particular de Novaes com um romance lésbico do seu eu lírico em altas doses de tensão, num refrão forte e pegajoso; “Coisa Banho de Mar”, de refrão pop e versos alucinados, e “Flerte Revival”, que começa com um hit disco que remeteu aos clássicos da era discothèque como Fade To Grey” dos Visage e que levou o público mais velho ao delírio com a belíssima performance  de “Not About Love” de Fiona Apple de surpresa. De certo que poucos cantores conseguem transmitir tamanha empatia com o público como Letrux o faz: um bom exemplo dessa demonstração foi a troca de afeto dos fãs que reagiam a cada canção tocada em uma comunhão perfeita já que muitos que estavam ali presentes acompanham a carreira de Novais desde a extinta Letuce e seu último disco Estilhaça.

Se para algumas pessoas é difícil de aceitar o pop como é, principalmente na atualidade, devido às suas performances de baixa elaboração estética, até mesmo por ser meramente comercial ou por suas repetições de fórmulas e alienação barata como muitos intelectuais da música dizem, Letrux soube bem apropriar-se do gênero, quando mergulha de vez em suas raízes provocando exatamente o contrário do que ouvimos por aí nas rádios. Se ainda existem aqueles que consideram o pop como algo efêmero devido a sua baixa qualidade, ele só o é porque o assim rotulamos e, na contramão disso se pensarmos, a cultura pop sempre foi inventiva, tanto no resgate dos novos formatos sejam eles cancionais e trágicos como Letrux os torna no sentido mais genuíno e no mais alto grau da elaboração estética.

Aqui a fotogaleria completa do show de Letrux pela lente da Roseli Vaz.