Em outubro do ano passado os Orelha Negra predisseram um novo álbum. O dito cujo seria apresentado em Janeiro, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, e no Porto, no Hard Club. A tática já não é novidade, uma vez que em 2013, no início do ano, deram um concerto para apresentar o seu segundo trabalho. E assim, dia 30 de Janeiro, na esgotadíssima Sala 1 do Hard Club, onde a multidão espera com grande inquietação, arrebatamento e grandes expectativas, “o bando dos cinco”, formado por Francisco Rebelo, Sam the Kid, DJ Cruzfader, João Gomes e Fred Ferreira, ressuscita.

As luzes apagam-se e só são visíveis as silhuetas do grupo colocando-se na posição alinhada que já nos é conhecida, o DJ Cruzfader, instintivamente ou por superstição, antes de começar faz benzeduras e é assim que nos são apresentadas as duas primeiras faixas. Mesmo com a presença dos samples, há toda uma vibelive band” e o baixo e a bateria são muito mais claros. As luzes avivam-se para o primeiro grande louvor da noite.

O concerto foi uma enorme jam, combinada ao milímetro, onde os curtos interlúdios falados entre músicas tronaram esta improvisação fluída. A posição é a mesma de sempre, comunicam entre si com uma sacudidela casual de cabeça, numa relação íntima com o seu instrumento, não dão cara e movimentam-se pouco, e, mesmo assim, fazem chegar até nós uma cumplicidade musical simplesmente extraordinária.

Os samples, agora mais curtos, mantêm-se destemidos e os melhores momentos da noite surgiram com eles, por exemplo no mashup de “Bitch Don’t Kill My Vibe” de Kendrick Lamar, onde o refrão foi modificado para “Drake Don’t Kill My Vibe” com uma das músicas do momento do artista: “Hotline Bling”. Influências hip-hop, funk, soul, gospel, disco e jazz são, sem dúvida, as bases do próximo álbum.

Depois de uma hora de novidades, os cinco aliados sentindo-se realizados, deixam o público submisso e ansioso pelo que ai vem. Regressam para um encore vertiginoso com a “961919169”, seguida da “Throwback”. E caso ainda existissem dúvidas do quão fascinante estava a ser o concerto, “M.I.R.I.A.M.”, umas das músicas favoritas, foi a cereja no topo do bolo nesta noite tão importante para os Orelha Negra.

Descem das suas posições, olham uns para os outros, abraçam-se e fazem uma vénia. Isto tudo enquanto são banhados com um uníssono de aplausos. Foi um regresso que cumpriu com as expectativas.

 

Confere a fotogaleria do concerto aqui:

Orelha Negra 3