Tem sido um progressivo mas incrivelmente sólido percurso que Alejandro Ghersi tem feito no mundo da música. Depois de uma bem visível formação musical e uma série de gravações independentes, a sua aventura como produtor rapidamente ascendeu a gloriosas escalas. Dotado de uma sensibilidade exímia para a conjugação orquestral de texturas e tradições musicais seculares com um pensamento progressista e inovador na forma de falar com a música, a aura de Arca corre bem além do seu virtuosismo como compositor. É também a sua intrigante persona, a sua linguagem visual partilhada com o colaborador Jesse Kanda e a sua abordagem mágica e realista ao fundo da intimidade humana que o tornam um dos mais cativantes artistas musicais do momento.

Em todo o lado do seu output vemos a veia do progresso, da busca pelos sons do amanhã puxados com a ajuda da máquina e o esboço de um dialecto novo no que toca a expressar coisas que são ainda assim inerentemente humanas. Ao lado disto, há uma carnalidade desconcertante, uma falsa desumanização que é, na verdade, tão real e orgânica como o próprio mecanismo que nos faz bombear o sangue pelo corpo. Adornado já com dois discos, Xen e Mutant, de 2014 e 2015, as influências na composição clássica e erudita são, contudo, indissociáveis à medida que o experimentalismo e a ecologia sonora surgem por via de um minimalismo quase ambiental que fazem esta carnalidade transcender de uma forma bastante figurativa e abstracta. Agora, a preparar o seu terceiro lançamento pela XL Recordings, baptizado de forma homónima, talvez se possa vir a esperar um portentoso incremento nas ligações mais terrenas de Arca.

O peso da tradição popular é, provavelmente, o elo que conduz as novas quatro canções até agora tiradas de Arca. Desde o toureiro mutilado no novo videoclip de “Reverie” até aos operáticos coros que surgem no fim do recém-anunciado recife aquático de “Saunter”, e passando pela arrepiante cantiga de “Piel” acompanhada por praticamente mais nada do que lanças de feedback, vemos Alejandro Ghersi a viajar profundamente em todos estes símbolos culturais. Nem sequer poderíamos falar de uma distorção à sua imagem, pois o cheiro a ancestralidade e rudeza mística e laborada ainda estão lá. As músicas novas de Arca cheiram a carne e a suor e surgem numa linhagem directa com a oralidade e a entrega que fazem parte de qualquer povo. Há uma noção mais vívida do formato canção, levado a cabo na sua língua materna para catárticos efeitos: “Anoche” é, sem dúvida, o pináculo deste quarteto nesse aspecto. É canção onde surge em voz, o mais intimamente exposto possível num cantar nocturno e soturno que se junta a um piano contaminado.

Em registo coral, Arca exorciza os seus demónios até “Anoche” lhe trazer um ritmo electro funk tirado das latitudes brasileiras, como quem lhe lança uma tentação para evitar o confronto consigo mesmo e cair na deambulação nocturna. É nestas dualidades e na própria premissa sónica que elas implicam que mais recompensante e atraente se torna a música de Arca, altamente contemporânea à natureza humana de hoje com toda a sua sede de escape. Entretanto, não há como fugir a estes mundos que o próprio cria: as visões do amor e da luxúria na imagem do solitário Ghersi e dos casais que o acompanham no videoclip. Temas que, por fim, voltam noutra visão mais masoquista e animalesca com “Reverie”. De conteúdo lírico penetrante e afiado, levando-nos a um amor que doí e marca fisicamente. A desconcertante textura enrugada de Arca é uma que tem sabor e nos desestabiliza à medida que nos confrontamos com alguém que persegue a dor por amor. Tal como as talas mecânicas mal amanhadas para o conforto humano ao qual Arca se prende no vídeo, também a música se move como uma máquina mal desenhada ao ponto de poder ser um objecto de tortura, ou um remendo que faz mais mal que bem: pedaços de percussão aqui e ali assaltam-nos sem padrão confortável enquanto o som de portões e correntes aprisionam-nos no lugar. Só o tilintar de uma harpa nos traz algo conforto e mesmo esse verte lágrimas por um sofrimento que provavelmente nem tem sentido nem fim.

Em toda esta riqueza e exuberância visual e musical, Arca encontra aqui uma linguagem híper humana, que conjuga a pauta com a vivência para criar um registo pessoal cada vez mais indissociável da voz e da cara que o faz. Dedicado em explorar o conflito entre o querer e o ter que ser, bem como a necessidade do confronto consigo mesmo e as suas vivências, Alejandro Ghersi encontra em “Piel” e “Saunter”, duas simples composições unidas pelo mesmo poderoso e sangrento motivo, a metáfora mais geral que une estes temas que dele temos visto, muito ligados à identidade e à marginalidade: a vontade de lhe removerem a pele de ontem, aquela que vem com o seu percurso e experiência até agora, para se tornar em alguém renovado e diferente. A vontade de evoluir é o que nos mantém vivos e, neste momento, as faces de Arca não podiam estar mais rosadas com o sangue fervoroso que bule dentro de si. Para que lados esta nova fase o levará e que novas incríveis vistas descansam debaixo da velha pele é algo que nos urge descobrir. Arca está para sair a 7 de abril pela XL Recordings.