Era uma noite calorosa de Dezembro, mergulhada num clima totalmente intimista, minimalista e nostálgico, catalisador de um reviver de situações que para muitos são constrangedoras, para outros puro deleite. Imperava no cenário de luz ténue um misto de sensações, arrancadas pela atuação daquela noite, com sorrisos tímidos e arrepios que percorriam a espinha dorsal, aliados ao inevitável estremecer geral num loop infinito entre encontros e desencontros.

As inquietações citadas são habituais nos grandes clássicos do cinema, principalmente aqueles recheados de extensos dramas, tal como acontece nas letras do vocalista e criador de Cigarettes After Sex, Greg Gonzalez. Um excelso cronista que cria composições repletas de reflexões sobre o amor, conduzidas por personagens verídicas, como ele próprio. Gonzalez expõe as complexidades das relações que surgem entre homens e mulheres e seus respectivos parceiros, cabendo aos ouvintes a sua interpretação e identificação pessoal no balançar de sonoridades românticas e nebulosas que remetem para o universo sonoro mais etéreo dos anos 80 mas que, ao mesmo tempo, não destoam da linha temporal contemporânea.

O que torna particularmente interessante o som de Cigarettes After Sex não é a experiência introspectiva a que se é submetido pela tonalidade doce e sexy e simultaneamente triste e melancólica do dreampop, shoegaze e slowcore com que são construídas melodiosamente as suas canções. Há algo de androginia e hipnotismo na voz de Greg que faz viajar no tempo e reviver momentos aparentemente já perdidos na memória através de flashbacks, à medida que se mergulha num espectro imenso de emoções quase esquecidas com a passagem do tempo. E para os que estavam presentes no último dia 13 de Dezembro de 2017, essa foi uma realidade sentida ao vivo, na estreia da banda no Brasil que aconteceu na casa mais indie de todas, o Cine Joia, que ouviu em primeira mão o disco homónimo de Cigarettes After Sex, editado este ano.

A mistura sonora, aliada à voz singular do próprio Greg em letras profundamente confessionais e em arranjos lentos e sombrios, produzida pelos texanos, desperta os sentidos de forma bem visível, por exemplo, nos singles “K.”, em que se expõe acompanhado por um choro constante de guitarras sofridas, e “Affection”,  que incita ao pensamento e à reflexão. Detalhes mínimos que tornam esta uma experiência autêntica, junto com a atmosfera única da sala em que se criou o cenário perfeito para um clima cinematográfico. Tanto a postura da banda quanto a do público mantiveram-se iguais ao longo do show: a banda, contida, parecia tocar na própria garagem, esquecendo haver uma plateia atenta, expectante e eufórica, dado a forte introspecção e timidez do vocalista. De vez em quando, Greg quebrava sorrisos quase imperceptíveis dos recantos dos lábios, principalmente motivados pelo alvoroço causado pelo público feminino que delirava a cada nota.

O repertório continha músicas de sonoridade tranquila, como “Young & Dumb, “John Wayne” e os considerados hinos indie do ano, “Opera House” e “Sunsetz”. A épica e profunda “Apocalypse”, sussurrante nos dizeres “my lips your lips, apocalypse”, parecia entalada na garganta de todos. “Sweet”, último single da banda, alastrou-se pela plateia com o seu refrão melífluo. As favoritas “K.”, “Each Time You Fall In Love”, “Affection”, a cover de REO Speedwagon para “Keep On Loving You” e a esperada “Nothing’s Gonna Hurt You Baby”, música do EP de estreia I, foram entoadas em uníssono, prova de um público fiel e dedicado.

Em tempos sombrios de ódio e cólera, a acolhedora criação musical de Cigarettes After Sex faz qualquer alma viajar. Bela, nostálgica, repleta de imagens e cenários profundamente contemplativos, em simultâneo num universo monocromático e meticulosamente amarrado a uma estética visual característica das fotografias do cultuado surrealista Man Ray, a música dos norte-americanos transforma a vida de tantos em trilhas sonoras quase acidentais, ao permitir a quase inconscientemente vivência de seus próprios romances. Alguns deles que beiram, certamente, os olhares aflitos esperando uma entrega consensual de um Amor À Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, outros mais eloquentes como em Bande À Part, de Jean-Luc Godard, e ainda estórias com belíssimas projeções de grandes personagens femininas, incluindo a adorável Irène Jacob em The Double Life of Veronique, de Krzysztof Kielowski. O que não se estranha, sendo Greg González fã de Miles Davis e Françoise Hardy, além de ser apaixonado por cinema. Um mero detalhe. Ou não.

Cigarettes After Sex @ Cine Joia

A foto-reportagem completa do espectáculo do Cine Joia pela lente da Roseli Vaz, e também a foto-reportagem do concerto do Hard Club do Porto, em Portugal, no dia 26 de Novembro, pelo olhar do Pedro Oliveira.