Emotional - Ahh... The Name Is Emotional, Baby!
69%Overall Score

É sentir as brisas de San Francisco.

Oh, California! A costa das praias e do surf. Mas também terra de vinhedos e pomares, do Orange County de antigamente. E do final da mí(s)tica e lendária Route 66, até às dunas de Santa Monica… E ainda da libertária San Francisco (com a qual Lisboa está cada vez mais parecida). A psicadélica San Francisco onde está situada a farmácia, perdão, a Death Records fundada por Brian Wakefield, membro dos alucinogénios Melted Toys e mentor do novo projecto Emotional, que lança hoje o álbum mais ou menos homónimo Ahh..The Name Is Emotional, Baby!

O namoro que rebenta como uma bola de sabão

A Tracker já escutou o disco, que revelou Emotional como sendo outro projecto ‘dreamy’ (com letras geralmente leves, apesar de intimistas), mas menos new wave e mais pop que os Melted Toys. E exemplares daquela afirmação são as três primeiras canções do álbum, relatos de triviais diálogos existenciais entre um casal. Em “Believe In Me”, um dos singles do disco, o cante quase spoken word de Wakefield (ao estilo de Josh Rouse), pousa numa estrutura sophisti-pop tão clássica na fórmula guitarra e bateria e baixo, que evoca algumas bandas britânicas dos 80s (Prefab Sprout, por exemplo), mas com um sintetizador bucolicamente zumbindo ao longo da canção e um astral ‘outdoors’ com vista desafogada que lembra temas do relaxado último álbum dos Destroyer – do canadiano Dan Bejar, conterrâneo ‘columbiano’ da costa do Pacífico.

A expectante “Could I Be The Last One”, musicalmente parecida com a canção anterior, na qual também o travo ligeiramente nasalado da voz remete para Dan Bejar (ídolo naquela região), apresenta uma guitarra reverberada quase em wah-wah destacada ao longo da música, excepto no refrão – é a segunda de duas peças de pop despretenciosa mas com bom gosto, amena e florida como uma primavera antecipada para Fevereiro. E o tríptico intimista inicial foi completado com “Don’t Call Me Baby (Baby)”, balada herdeira do shoegazing dos 90s que retrata o resignado amuo do jovem sujeito, deixado pela jovem namorada que decidiu focar a atenção dela no emprego, mas ainda assim quer manter o amigo. Talvez seja o tema menos inspirado do disco ou então é uma música propositadamente simples como um ingénuo jovem.

She Dropped Outta College” é um previsível futuro single do álbum; música radio friendly, de fluída sophisti-pop rural – agradavelmente animada pelo groove da secção rítmica e pela jovial prestação vocal no estilo de Andrew VanWyngarden (MGMT) -, é uma canção adequada para ser ouvida em movimento, num carro ou num skate (ou numa trip estupefaciente, para alguns), com a tranquilidade de crer que deixar a universidade não é o fim do mundo para uma jovem com toda a vida adulta pela frente. Ou com a tranquilidade que a pod (‘pot’, erva) induz no jovem interpretado por Wakefield, que ao longo de “Me And My Pod” vai detalhando como se dá bem com a substância, que com ele viaja (trip) e o mantém aquecido na solitude, embalados numa indigente balada shoegaze de drumming quase melodioso, cuja inebriada partitura do baixo Alex James poderia tocar instintivamente, como se fosse “Coffee and TV” dos seus Blur. Ainda mais shoegaze, é o lento início de “Lies”, só em dueto da guitarra com o baixo que marca os ritmos, enquanto a aparente tranquilidade se revela desconfiança, de que a (ex-)namorada mente e esconde informação, sem certeza de que seja (também) para benefício dele, o que resulta em queixas na segunda metade da canção, menos lenta e um pouco mais enérgica, já pautada pela bateria.

Negação, catarse e reacção

“Hand 4 Hire” é o primeiro e típico radio friendly single (de 3 minutos) já retirado de Ahh..The Name Is Emotional, Baby!. Canção de ritmo bombado desde o início – para colar ao subconsciente de cada ouvinte -, ao qual foi agregado um onírico sintetizador, é um sonho acordado (aspiração alucinada) de reconciliação e compromisso – I’ll take your hand forever – do jovem ‘dispensado’, hipnoticamente declamado por Wakefield, com o auxílio do reverberante vocoder; todos os ingredientes estão misturados com conta, peso, medida e tempero suficiente para activar o Repeat.

De facto, numa discreta demonstração da experiência do autor, o problemático quarto quinto do álbum (período que amiúde sucumbe ao cansaço dos ouvintes) é o mais atraente par de canções, já que a faixa seguinte “Emotional Man” é um refinado blend que harmonizou um baixo transbordando groove, uma bateria sintetizada de dançáveis cadências ecoando alegria (com efeitos de palmas) e um perfumado sintetizador cujo zumbido envolve a assertiva vocalização de Wakefield, para a afirmação de personalidade do jovem sujeito do álbum, que finalmente explicita que tem sentimentos e isso não é crime, que justifique desrespeito – com tanto engenho, está ali outro potencial single, que só apetece repetir.

A travagem para o final do álbum é a transição para “Isabel”, balada de melancólico dedilhado do baixo e com saudosos arranjos de cordas que, na lenta passada da bateria, dá a conhecer o nome da alegada vilã do disco e, pelo arrastado relato de Wakefield, como o casal se conheceu no liceu e algumas memórias do relacionamento e de como ela tratava bem o protagonista, que ainda exibe alguma esperança de reconciliação afirmando I just have to wait. Todavia, são bruscos acordes de piano vertical que iniciam a tranquila mas rancorosa “Stop You From Luv’n Me”, a curta balada terminal do álbum, que é a absurda planificação de uma vingativa rejeição, na implausível hipótese de Isabel querer reatar o relacionamento – maquiavelicamente narrada por Wakefield.

Ahh..The Name Is Emotional, Baby! , com alguns momentos pouco inspirados, não é um álbum excelente e muito menos inovador, mas oferece outros momentos, alguns sensuais, que lhe permitem ser um bom disco sasonal para a Primavera e o Verão.