Dificilmente se imaginaria um emparelhamento quase antipodal entre os neo-zelandeses A Dead Forest Index e os russos Motorama, num evento que marcou o regresso de ambas as bandas aos palcos nacionais, mas em bom tempo se deu esta união que os fez passar por uma curta tourneé que passou por Lisboa e Porto. Por um lado, uns Motorama já conhecidos dos nossos palcos a confirmarem o que muito se esperava deles, e por outro, os A Dead Forest Index, que há um par de anos atrás foram donos e senhores de um celebrado concerto – para quem lá esteve -, no festival Entremuralhas.

E foi uma casa com alguma ansiedade e, acima de tudo, com muita vontade de ouvir o que as bandas tinham para oferecer que os A Dead Forest Index, dueto composto pelos irmãos Adam e Sam Sherry, foram recebidos com grande entusiasmo. Com o álbum de estreia In All That Drifts From Summit Down como cartão de visita e como característica a pesada carga emocional com que a banda imbui a sua música – intuindo que as dimensões da compacta sala do Sabotage pedisse, talvez, uma componente mais intimista que coexistisse com a possibilidade da libertação, da transcendência, da transformaçao -, a banda oriunda da Oceânia não desiludiu. Desde o primeiro acorde, desde a primeira palavra cantada – por trás de uns olhos quase sempre cerrados -, se notou que os A Dead Forest Index estavam aqui para nos transportar, ainda que por uns breves momentos, para um outro lugar, para um mundo sem muros, onde as palavras e as melodias e atmosferas conjugadas falam mais alto que o ódio e que o medo.

E é nesta senda que a banda finalmente se transfigura; as notas, inicialmente contidas, perdem as restrições; a voz de Adam Sherry, sempre com um uma faceta frágil e trémula – não na sua qualidade, antes na maneira como são emotivamente interpretadas – preenche a sala, tornando-se hipnótica, labirintina, em constante crescendo com uma perfeita utilização de loops vocais a criarem múltiplas camadas. Notavelmente, em temas como “No Paths” ou “Tide Walks”, a interpretação é de tal modo intensa que é profundamente sentida no âmago de quem lá estava. A económica utilização da guitarra e a inconfundível percussão de Sam Sherry, tornam cada tema tocado como uma curta viagem pela introspecção, pelo simbolismo mítico evocado pelas palavras cantadas de uma forma quase religiosa e fizeram deste um concerto para lembrar e relembrar, catapultando os A Dead Forest Index para os mais cimeiros lugares das bandas a seguir com atenção.

Motorama @ Sabotage Club, Lisboa

Motorama @ Sabotage Club, Lisboa

De volta a Portugal após vários memoráveis concertos – Caixa Económica Operária em 2013, Entremuralhas em 2015 e Paredes de Coura em 2016 -, os Motorama apresentaram-se no Sabotage, desta feita em formato trio, com o álbum Dialogues como principal atractivo para a fria noite de domingo. Donos de uma sonoridade perfeitamente imergida no pós-punk e no shoegaze, os russos apresentam uma postura em palco a fazer lembrar, ainda que a espaços, os Joy Division, podendo inclusivamente traçarem-se paralelos entre as vozes de Vladislav Parshin e do saudoso Ian Curtis. E é exactamente a voz que desde o primeiro momento nos agarra: algures entre o timbre de Erlend Oye e, por vezes, um croon ao estilo de Stuart A. Staples, sabemos logo que esta será uma noite para relembrar.

“By Your Side”, tema que abre o concerto, dá o mote para o que se segue com uma curiosa troca de instrumentos entre os músicos, algo que se repete várias vezes durante o concerto. A juntar à voz de Parshin, sintetizadores cristalinos e etéreos preenchiam, não só a sala, como preenchiam também almas. Aproveitando a promoção de Dialogues, os Motorama dedicam também uma boa parte do concerto ao seu catálogo anterior, trazendo ao de cima temas clássicos da banda como “Wind In Her Hair”, “Ghost”, “Alps” ou “To The South”.

Tema após tema, quase sem dar descanso, os Motorama demonstram porque são uma das mais fascinantes bandas dentro do panorama pós-punk/shoegaze. Em palco, sempre absortos na própria música e na própria arte com uma postura absolutamente soviética – distante, pouco emocional, mas de entrega absoluta -, raramente encaram o público que, cativados, os ouvia, mas com intensidade galopante. Ressalve-se aqui, o brilhante contraponto que foi a performance dos Motorama, com um som híbrido entre os Joy Division em ‘Closer’ e uns New Order onde Bernard Sumner não sucumbiu tão profundamente à tentação electrónica, e as melodias mais contidas e carregadas de emoção visceral dos A Dead Forest Index.

Assim, e em grande forma, culminou mais uma conseguida actuação da banda russa pelos palcos nacionais, deixando sempre uma enorme vontade de os rever novamente com absoluta garantia que serão sempre bem-vindos.