Enquanto as ruas de Lisboa agonizavam com os berros do que pareceu um sem fim de pessoas glorificando momentos efémeros, o público no aquário da Galeria Zé dos Bois deixava-se envolver por uma tranquila e relaxante improvisação urbana feita de pequenos sons rumorejantes do mar e da selva. O lisboeta Yan-Gant Y-Tan ficou a cargo do ingrato trabalho de abrir caminho para a senhora que se seguiu. Entre o langor hipnotizado de uma pequena massagem lânguida e o fastio delicadamente embaraçoso de quem se considera já satisfeito, a repetição em loop das invocações sonoras perfeitas para um Boom Festival serviram como um óptimo aperitivo para o prato principal, apesar de falharem pelo tempo desnecessariamente longo. Era notório o apetite do público pelo menu de degustação de nome Carla dal Forno.

A ZdB encheu-se com o número exacto de pessoas para dal Forno sentir uma intimidade próxima de um concerto dado para amigos. Ali não se respirava derrotas nem vitórias, somente a expectativa do que viria ao nosso encontro naquele pequeno palco ligeiramente iluminado com projecções de flora a invocar os seus videoclips e apresenta-se com a timidez típica de quem não está habituada a se expor. A sua performance evoca uma vaga sensação de desprendimento físico ao cantar de olhos vidrados, e de alguma forma faz com que, nós o público, nos sintamos voyeurs de um embriagado concerto privado frente ao espelho do quarto enquanto desbloqueia o coração.

Mas apesar desse aparente jogo de invisibilidade, dal Forno brincava habilmente com a plateia através de pequenos sorrisos cúmplices como quando anunciou que iria cantar “What You Gonna Do Now?”, levando aos primeiros aplausos entusiasmados saídos do estado de respeitoso silêncio em que estávamos mergulhados. A australiana brindou Lisboa com demonstrações de carinho, e de um modo que pareceu deliberadamente sensual, agradeceu a presença de todos, levando a que a barreira entre quem está em cima do palco e quem está na plateia se diluísse e juntos fôssemos entrando nesse mundo de nevoeiro e sonhos destruídos que “Fast Moving Cars” teima em introduzir e insinuar-se nos orgãos de alvos porventura mais desprevenidos.

Carla dal Forno @ ZDB, LIsboa

Os aplausos entre músicas foram recatados quase como se inconscientemente ninguém quisesse quebrar aquela estranha atmosfera enfeitiçante, regada a uns discretos pozinhos de sintetizadores com apetecíveis descargas de pop electrónico com que se tornou ineficaz uma tentativa de manter o corpo quieto, entrelaçando esse efeito com vocalizações suaves e nocturnas que desbloqueavam memórias inquietantes e segredos que escapam quando não os queremos enfrentar.

O público foi presenteado com faixas novas de um EP ainda em construção onde (espante-se) se nota ainda mais o registo soturno das letras e das emoções perigosamente próximas de uma alma remendada com pensos rápidos, sem que mesmo assim não saiba esquivar-se de uma demonstração mais aberta e nua ao combinar essa purga emocional com uma sensualidade delicada presente no abanar do corpo quando canta “You Know What It’s Like”. Quase como se convidasse a esquecer a sua presença em palco e tornar aquelas pessoas, aquelas paredes parte viva dos sentimentos a que dava voz.

Existiu uma tal suspensão no tempo enquanto Carla dal Forno cantava que se formou um casulo de sentidos delicadamente entorpecidos que quem assistiu levou consigo para, quem sabe, ajudar a adormecer de sorriso nos lábios. Em especial porque dal Forno lançou o repto de recomendações de sítios a visitar pois ficaria 3 dias nesta nossa Lisboa soalheira. Mais do que um concerto, assistiu-se a uma muito bem-vinda purgação saudável e harmoniosa de emoções à flor da pele.

Aqui a galeria completa de fotos do concerto de Carla dal Forno pelo olhar da Mafalda Azevedo.