Em plena disrupção da Primavera Árabe, um vídeo de uma jovem a cantar para uma multidão na Tunísia circulava na internet e rapidamente pegou fogo. Vestida com um longo casaco vermelho, a postura da rapariga era contraída, fechada e facilmente transparecia o nervosismo do seu próprio ato. Emel Mathlouthi tinha na altura 29 anos e perante uma curta e pouco experiente carreira no centro da indústria musical árabe, tinha-se tornado naquele momento numa lufada de ar fresco para vítimas de opressão política e social. A canção acabaria por se tornar “Kelmti Horra” [“My World Is Free”], oriunda das palavras do poeta Amine al-Ghozzi, um hino de subversão e de subsistência que teve a coragem de se levantar e apontar o dedo ao corrupto e expandido regime de Zine El Abidine Ben Ali. Pouco depois, as ruas de Túnis enchiam-se de protestos a pedir a destituição do presidente, mostrando Emel como uma das caras de uma nova onda de pensamento.

A música é na sua génese uma declaração de independência hiperónima: uma afirmação de poder retratada por quem mais sofreu no cenário de injustiça. A letra é feita na primeira pessoa, de modo a chegar a quem se sente minimamente identificado por ela – há claramente uma inevitável parte feia que não se tenta esconder nos escombros de quem a tornou assim, mas é no seu brilho que vive a determinação, a devoção e a expectação por uma mudança retratada num povo:

I am those who are free and never fear
I am the secrets that will never die
I am the voice of those who would not give in
I am the meaning amid the chaos
[tradução direta não oficial]

Cinco anos depois, Emel cantou a mesma canção na cerimónia anual do Nobel da Paz, na cidade de Oslo, desta vez em palco, com músicos profissionais. A audiência que acompanhava cada palavra, quase como um ato profético, era semelhante às pessoas que a aplaudiam nas ruas tunisianas. A diferença está, no entanto, na maneira como Emel vergou o tempo e o espaço: hoje, é possivelmente das vozes mais celebradas da cultura árabe, um talento que tem vindo a crescer por mais de 10 anos, tendo-se posicionado em tantas outras áreas adjacentes à música. Mas, antes disso, é importante que nos foquemos primeiramente nesse aspeto – na música.

Crescida no berço da antiga canção árabe, a primeira revolução aconteceu quando ouviu a voz de Joan Baez aos 19 anos. A partir daí, a música começou a ser um meio para tornar o político em melódico, a raiva em translúcido, a sua existência numa arma. A frustração iniciou-se pela censura do governo tunisiano – em contextos pré-Primavera Árabe -, que a bloqueavam de fazer aparições televisivas ou de passarem as canções na rádio a horas decentes. Depois de um tempo em Paris, onde concluiu os estudos, decidiu que estava na altura de pôr as palavras citadas nas ruas num corpo coeso e concreto. Em 2012 editou o primeiro álbum que tira o nome da canção que começou tudo, Kelmti Horra é banhado principalmente pelo folk das suas raízes, mas sempre com um plot-twist debaixo da manga. Entre guitarras frenéticas confrontadas umas com as outras, há na sua profundidade algo mais soberbo, toques de trip-hop pulem as arestas de cada canção, tal como ouvimos em trabalhos de Massive Attack ou até mesmo Björk.

Com este mote, os trabalhos seguintes apresentavam esta forma, abrindo, cada vez mais espaço para a experimentação. Ensen, de 2017, é uma tour de force em ritmo, som e ambiente: uma manifestação quase espiritual e macabra que reúne os talentos de Emel num trabalho complexo, com muitas artimanhas que embalam o ouvinte. Este disco, de uma maneira ou de outra, abre portas para que artistas como Sevdaliza, Lafawndah e ainda Fatima Al Qadiri conseguissem aliar dois grandes mundos, o da herança e o do
trabalho – uma ponte que une toda a constituição do percurso histórico de cada uma à sua mestria, a fim de se dar a conhecer para além fronteiras e para além conceitos básicos de semântica e linguagem.

Everywhere We Looked Was Burning, do ano passado, é mais pungente: uma afirmação sem embaraços nem constrangimentos, totalmente em inglês e assertiva em temas como as alterações climáticas, o aquecimento global e a destruição do ambiente; uma prova de como – consoante a idade, a experiência, o dinheiro e os seguidores -, a mensagem politicamente carregada de Emel continua no cerne da sua arte, apresentando-se como um catalisador para próximas gerações encontrarem nela escape e segurança. Nos últimos anos, ela tem-se aventurado no cinema e até na moda. Mas a significado continua lá, emparelhado com anos e anos de luta e anticonformismo.