Por: Pedro Miguel Alexandre, Rosana Rocha, André Franco e Nuno Fernandes

Qualquer memória de um festival leva-nos a 69. A Croydon, a um free festival, a Space Oddity e a Bowie. Onde o amor ainda era livre e não era transmitido em streaming mas as meninas também usavam flores no cabelo, onde o amor era verdadeiro e se acreditava nele irremediavelmente… nem que fosse com a força do LSD ou do Ecstasy. Em “Memory Of A Free Festival” esperava-se a chegada das naves de “Major Tom”, falava-se com gigantes venusianos protegidos pelos céus de Londres e estava-se mais perto… muito mais perto das portas que nos abriam de cima de um palco, de dentro de uma canção. Qualquer memória de um festival me leva a Bowie… ou aos primeiros festivais onde tínhamos um palco e uma mochila com 3 latas de atum, duas de salsichas e uma fome imensa de som.

NOS Alive 16

Qualquer memória de um festival leva-nos daqui em diante a Algés em 2016. Não que a história se tenha reescrito ou algum dos concertos tenha ganho capacidades de trespassar a matéria de que é feita a madeira talhada das estrelas rock que por aqui passaram mas por momentos e por memórias polaróidicas – ou deveria dizer instagrâmicas?! -, que se alojaram por baixo da pele e por detrás dos olhos. De sonhos cumpridos, de descobertas e surpresas e de estupefações incrédulas de como os novos deuses estão nos sons mais insuspeitos e que existe efectivamente uma nova forma de sentir a música que difere do passado mas não esbarra apenas numa conta de facebook, numa selfie e no show-off fashionista de uma juventude muito mais bonita e saudável e longe dos excessos dos anos 90 e dos primeiros mega-festivais portugueses. A música pela música já não é suficiente mas a verdade é que a música nunca se bastou a si própria e sempre alagou fronteiras e se viu invadida por “n” factores externos… fundida ou paralela, a música é, foi e sempre será algo mais que 3 minutos de som e mensagem; é simbiose, é espanto, é visual e viral, é poema e poeira, é interior e fisicamente tocante e tocável. Mas vamos aos palcos do Alive…

Entre as costas de Maiorca e de Los Angeles existe um denominador comum, o mar. Luis Alberto Segura vive entre um sonho americano e os mares que banham as costas da ilha espanhola. E foi ali onde o rio chama o mar do Atlântico que a banda do país vizinho abriu o caminho marítimo para os sons que iam inundar Algés durante 3 dias. Um pouco mais ao lado, os também hermanos Nudozurdo faziam Algés parecer Al Gerez ou uma qualquer frente de uma invasão espanhola.

Mas como a escolha é uma constante da vida num festival de verão, os L.A. foram os primeiros contemplados a serem selados pelo nosso olhar. A curiosidade despertada pelo horizonte soalheiro das praias da Califórnia, projectadas nas canções laranja-fogo de From The City To The Ocean Side, foi o ponto de partida de uma estrada pronta a ser percorrida no decurso do festival.

Mas a estrada em que Segura conduz em palco afasta-nos da incandescência luminosa do disco rumo ao asfalto húmido de paragens mais a norte como primeiro ponto de paragem numa viagem por Estados e estados de alma claramente americanos. Uma diversidade de panoramas cénicos e musicais que encontra nas extremidades do país as várias linguagens do rock norte-americano. Se em partes igualmente desiguais se encontram as sombras de Seattle – maioritariamente as que chovem na voz de Eddie Vedder – , e a tropicalidade desmaiada das latitudes do sudeste georgiano dos R.E.M. e do college rock tão claramente característico do região, também é verdade que no meio nasceu a virtude de boa parte de todo o rock actual feito nas terras do Tio Sam, pela pena e pela lua das colheitas do Midwest reescrito por Neil Young. E é por todas estas estradas que os L.A. nos conduzem à beira rio. Temas como “In America”, “Secrets Undone”, “Living By The Ocean”, “Rebel” ou ”Ordinary Lies” – que deu início a esta roadtrip –, são todas elas exemplos mais que perfeitos do american songwriting feito na ilha balear. A hora temperana fez com que o carro arrancasse com alguns lugares por preencher, mas fez, sem dúvida, uma bonita viagem.

E do grande sonho americano passamos para a imensidão do palco NOS. Os The 1975, herdeiros assumidos da pop e da funk de 80, promovidos a nome maior no cartaz do festival depois do concerto de 2014 no palco Heineken, foram os primeiros anfitriões de uma massa humana composta em larga medida por habitantes que fizeram um brexit temporário em busca de um Glastonbury menos enlameado, viscoso e chuviscoso. Talvez por isso tenha sido tarefa quase impossível encontrar outras nacionalidades no recinto que não fossem súbditos de Sua Majestade. E acreditem… nós tentámos e ingloriamente falhámos. Mas uma mera mudança de palco não encerrou por aqui o jogo de descubra as diferenças do concerto de há dois anos.

Matthew Healey e os The 1975 cresceram e deixaram de ser tantas coisas que eram, continuando, na verdade, o mesmo caminho. A música é a mesma. Um disco novo, I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It nos separa do disco homónimo mas a pop e o funk de 80s não se afastaram nem um milímetro das camadas instrumentais da banda. Por ali anda Prince, por ali espreitam os Level 42, os ecos de “Notorious” dos Duran Duran não páram nem um minuto. O que mudou então nos The 1975 e no concerto deste ano? Claramente a atitude da banda, que tal como Matthew já afirmou, quer ser seguida pela música e não por correntes estéticas, por artefactos visuais, pelo valor sensual das poses.

Longe de chegar para agradar a uma comunidade adolescente e à crescente e cada vez mais vincada comunidade LGBT assumidamente presente no festival, os The 1975 sobem ao palco maduros com canções sustentadas apenas em si mesmas. Os níveis de make-up em Healey são nulos, a t-shirt de Butchered At Birth dos Cannibal Corpse (mais improvável que um golo de Éder numa final do Europeu) indica que a stardom está longe dos seus planos. Um visual nada glamouroso, nada de poses, em que o foco incide apenas na música pela música. O palco cresceu, o público manteve-se o mesmo, em tamanho eem género, e pouco justifica o upgrade para o palco principal nomeadamente para o inglório papel de vir abrir as hostilidades… e quem sabe de agradar e atrair o publico inglês, um dos alvos mais que assumidos na estratégia do festival.

Sem deixarem atrás de si o brilho de 2014 – que ter termo de comparação é sempre lixado –, cumpriram bem o destino que lhes foi escrito, saltitanto de disco em disco com toda a convicção da obra que trazem em mãos. “Love Me” e “Ugh” são as primeiras em palco como o são em disco. “Chocolate” e “Sex”, os hits maiores do primeiro álbum, são deixadas para o final como quem sabe que os temas de I like It When You Sleep ainda não podem ter crescido o suficiente e apenas “The Sound” se chega à frente nesse papel de deixar as últimas memórias. E poucas memórias deixam, além de uma boa festa. Mas longe da prestação de 2014.

Entretando, num palco mais além, os portugueses The Happy Mess ficavam-nos pelo caminho porque só podemos estar em dois sítios ao mesmo tempo e Xinobi tocava no Clubbing.

Muito antes dos seminais magos britânicos The Chemical Brothers se erguerem no palco maior do evento, a primeira notável descarga de BPM’s veio do palco Clubbing, estava ainda o sol em picos de altitude. A cortesia veio do luso Xinobi, que deu um dos concertos mais impressionantes e sólidos desse dia.

Levando já longos anos de estrada o artesão da dança, pertencente à muito soalheira família DISCOTEXAS, encontra-se actualmente num confortável estado de graça, e a boa disposição e energia foi tudo o que o alto e espadaúdo Xinobi quis dar neste fim de tarde em Algés. “Levantem-se, tenho vergonha de tocar para pessoas sentadas” –, forma bem assertiva de se introduzir e, diga-se de passagem, altamente eficaz, uma vez que uma tenda cheia de gente sedentária rapidamente se ergueu em sorriso e vontade. Ao seu lado, Jiboía e Sequin (a arrasar gravemente no papel de vocalista principal) compunham uma numerosa crew cuja presença de um baixo saltitante e uns teclados hiper-relaxados nos remetiam imediatamente para um conjunto funk à antiga, para quem a dança será sempre uma missão mais orgânica do que digital.

Face a este irresistível cenário, o que se seguiu foi uma parada de funk, electro, hip-hop e até um pouco da velha indie-disco reminiscente de velhos campeões como LCD Soundsystem e os nossos próprios X-Wife. Durante uma hora certa, Xinobi e a sua banda de alto luxo desfilaram os mais variados estilos musicais dançáveis, metamorfoseando os temas de x para y em alongadas jams transitórias que fizeram do concerto um fresco e orgânico set que qualquer DJ invejaria. Realmente tal como um DJ, o grupo lançou-se a trabalhar a pista, misturando sons, modas e influências umas com as outras e sempre ao ritmo de um plateia que por fim, foi das mais sorridentes da tarde. O formato non-stop conferiu uma dinâmica irrepreensível ao concerto: não houve espaço para pensar, nem para julgar, apenas para se dançar e ir saboreando as perfeitamente orquestradas transições, que, como qualquer um de valor, nos foram conduzindo da melhor forma – sem darmos por ela.

Vamos tocar só mais uma… tem 21 minutos“, manda ao ar em tom brincalhão, o vocalista, aludindo de forma perspicaz a esta habilidade em fundir vários temas num só, economizando tempo e acumulando momentum no processo. Com pouquíssimas travagens, o concerto foi sempre oferecendo as suas ocasiões surpresas: um MC britânico a surgir a meio para nos guiar numa busca existencial na pista com inspiradoras rimas no modo imperativo foi uma delas. Outra, bem destacável também, passa pelo descanso de Ana Miró nos trabalhos vocais para uma igualmente triunfante salva de solos vocais vindos da teclista. Foi precisamente este ritmo tão acolhedor e atraente, juntamente com uma dinâmica mutante tanto no som como na prestação da banda que fez desta investida de Xinobi uma das mais preciosas do dia e uma de muito digna menção. Fantástica e alucinante experiência confirmadora de talento e potencial.

Alucinante foi também o regresso às estradas norte-americanas. A viagem que interrompemos com L.A. no palco Heineken foi retomada no palco principal com a americanicidade transversal do rock dos Biffy Clyro. Curiosamente ou não, nenhuma destas Américas florescesceu em solo americano. Uma delas é banhada pelo sol mediterrânico, a outra pelas chuvas das terras altas da Escócia. E é aqui que nos encontramos agora. Ao volante de um Cadillac fulminante conduzido numa Route 66 através de um nevoeiro denso e imperturbável, o trio escocês aponta-nos o caminho directo ao coração rock da América.

Em formação de ataque com a pujança dos guerreiros de uma tribo nativa pronta para a grande investida, como um William Wallace do deserto do Mojave, os Biffy Clyro sobem ao palco ladeados pela ferocidade dos lobos selvagens com que abriram o concerto. “Wolves Of Winter”, o primeiro single de Ellipsis, disco que viría a sair no dia seguinte ao terceiro concerto da banda no Alive – depois de 2013 e 2010 –, deu o primeiro impeto bélico a um fim de tarde exemplar no que toca a guitarras. Daquelas enormes, daquelas forjadas a ferros quentes numa bigorna em chamas. “Living Is a Problem Because Everything Dies” continua o que “Wolves” começou. A rapidez dos rendilhados matemáticos, o suor que rapidamente inunda Simon Neil, o tamanho épico de cada canção. “Biblical” é recebida de braços no ar, louvado seja o rock.

Um desfile incrível, mais aplaudido pelo exército britânico que invadiu a frente do palco do que pelas hostes lusitanas, de malhas de aço e lágrimas que parecem ser feitas a pensar em estádios enormes ou em espaços abertos com batalhões de cabeças a perder de vista. “Born on a Horse”, “Victory Over the Sun”, “Bubbles” e “Black Chandelier” são encurraladas entre “Friends and Enemies” e “On a Bang”, ambas sacadas de Ellipsis e ambas tão imponentes e ao mesmo tempo tão próximas de todos. A melodia “Friends and Enemies” é imediatamente interiorizada e a agressão psicótica de “On a Bang”  é uma onda humana que se mexe segundo a vibração escorregadia do corpo de Neil.

Sai tudo e fica Simon e a sua guitarra e “Machines”. Balada simples directa à reconstrução de corações perdidos. E o batalhão segue imponente e imparável ao som de “The Captain”. O poder das guitarras volta a tomar o seu lugar, as vozes sobem juntas. Daqui em diante só um adeus pode parar a montanha. Monumento rock atrás de monumento rock passando por “Animal Style” – outra das canções novas -, “9/15ths”, “Many of Horror”, “Sounds Like Balloons” e a acabar “Stingin’ Belle”. A invasão não podia ter corrido melhor. Estamos finalmente suados, cansados e com cheiro a festival de Verão.

Entretanto, outro brilharete ocorreria, mas desta feita, com algo mais soturno, perverso e nublado. Era John Grant quem subia ao palco Heineken, meros vinte minutos antes de, do outro lado, Robert Plant se erguer em esplendor no Palco NOS. O cantautor norte americano, cuja palavra portuguesa favorita, em tempos declarou, é “azulejos”, tem sido uma presença mais ou menos assídua por estas terras e sempre que cá passa parece trazer algo consigo e deixar outras quantas sementes.

Notório e querido entre a população lusa pela idiossincrasia da sua postura depressivo-cómica e a energia agregadora que deposita nas suas performances, John Grant cada vez mais se tem vindo a confirmar como um singular showman. Não está revestido de músculo, não vem para o palco de fato (shout out, não obstante, para o épico calção curto de ginásio da Nike), nem tem os moves mais atléticos, mas há algo de conquistador e atraente na forma como abana os braços e sacode os dedos e como usa a sua potentíssima voz para ecoar os extremamente frágeis contos de vida de uma pessoa vulgar. Ao piano, surge como uma espécie de anti-Freddy Mercury, de pé, deixando o som para a sua banda de apoio. É um instigador de incêndios inspirador, radiante e confiante da sua própria banalidade, cujo carisma não precisa de outros artifícios para ter a plateia na mão.

Foi nesta dualidade que se fez um concerto que teve tanto de relato tragicómico musicado como de rave sentimentalista, fruto de um espólio musical que cuja descoberta ainda se figura algo urgente no meio do panorama. Canções como “Glacier” e “Signourney Weaver” são autênticos monumentos líricos que em formato carne e osso, como nesta noite figuraram, cumprem o derradeiro propósito para que foram criados: um desabafo para o artista e uma identificação e comunhão por parte do espectador. Por outro lado, foi com sons como “Pale Green Ghosts” que o cantautor subverteu a aura confessional para algo mais nocturno e de pulso tenso, com a soul electrónica a invadir a tenda Heineken em épico crescendo. Esteja lançado num registo mais melodramático ou noutro mais aluado e rendido às sonoridades mais sintéticas, John Grant é consistentemente capaz de entregar um espectáculo imersivo e atraente, mais sensível aos estados de espírito do que às quimeras e enfeites do showbiz.

Em típico humor grantiano, aproveita para referir que não gostaria nada de estar a conduzir no trânsito em Lisboa em agosto, apesar de as suas ruas serem tão lindas de olhar: é a perspicácia desta observação que por fim resume muitas das qualidades deste cantor. John Grant sabe como tocar nos pontos, sabe como partilhá-los e como fazer uma bela festa deles. “GMF (Greatest Motherfucker)”, por exemplo, é uma forte prova disso. O incontestável hino de desavença amorosa ficou resguardado para perto do fim, com punhos no ar e uma plateia de resistentes a ecoar com toda a força o seu refrão. Grant, na sua típica tontice, sorri e agradece antes de se lançar ao mais recente banger, “Dissapointing”, retirado do ainda fresco Grey Tickles, Black Pressure e um pequeno diamante de um recorte que já não se vê. Facilmente entre os artistas mais únicos do seu campeonato, a unicidade de John Grant é uma que constantemente o torna fascinante. Preservemos este amigo entre nós.

Do Michigan natal de John Grant directamente para o resto do mundo. E esse mesmo mundo coube inteirinho no Clubbing a escassos metros do palco que recebeu o norte-americano. Se isto não foi a maior enchente metafísica do festival, não sabemos onde mais se podem ir buscar mais pessoas, mais cores, mais sabores, mais de tudo um pouco que exista acima e abaixo da linha do Equador.

Alinhavado pelas linhas de baixo tropicais e sintetizadores, Branko fez-nos recuar a um tempo que nunca conhecemos, aquele em que o mundo não conhecia fronteiras, onde a moldura humana que constitui presentemente o planeta poderia conviver sem carimbos, vistos ou passaportes, sem nacionalidades distintas, sem credos e, credo, sem as restrições mentais galopantes que por aí andam. Utopia Uber Alles, “tá bem”, mas aqui faz-se a nossa parte. A Liberdade é mais que um substantivo, é um imperativo emocional.

João Barbosa, o nome de baptismo daquele que foi um dos fundadores dos Buraka Som Sistema – que dias antes tinham actuado por uma última vez não muito longe dali no Globaile em Belém -, pegou no seu Atlas e cartografou em todos nós, todos os que estiveram presentes, uma identidade verdadeiramente indivisível, um sentimento de pertença universal e uma consciência sonora plena e global que como num despertar de um longo sono letárgico, arrancou de nós toda a humanidade noutras alturas adormecida através de uma verdadeira pangeia musical e musicada que potencia afectos e arranca do coração um amor e uma compreensão universais.

Mais que um concerto, ainda por cima de traça futurista com um homem e as suas máquinas, Branko trouxe ao Alive um conceito, um desvio ao conceito do espectáculo de uma banda ou de um DJ num espaço formatado para apresentações restringidas em termos temporais e de conteúdo. Há-que fazer render um peixe da forma mais pop possivel mas o peixe de Branko não se vende por dá cá aquela (cabana de) palha. O festival aqui faz-se noutra roda de samba. Branko chamou os amigos André Santos (videógrafo) e o pessoal da Hipnose (empresa de audiovisuais) e montou a sua própria cidade. Uma cidade de painéis em LED – porque não é só sermos globais, há que saber cuidar do globo também –, e encheu o palco de ruas e edifícios e meteu uma garfada de Cachupa Psicadélica a tarrachar nos monitores, Princess Nokia e Mr. Muthafuckin’ eXquire a rappar em NYC e entre tantas outras imagens desde a Cidade do Cabo e Lisboa até São Paulo e Amesterdão todos os colaboradores de Atlas. Todas as imagens fruto das viagens que deram origem ao mini-doc Atlas Unfolded.

Branko foi Atlas, foi mundo, foi amanhã visto de ontem, foi a tribalização sintéctica mas tão orgânica do som, dos sentidos, de tudo o que faz de nós seres humanos. Foi, mais que a urbanidade da África do Sul e de NYC, a urbanidade de todo o mundo, e com as suas máquinas conseguiu que, pelo menos naquela pista, por mais breve que tenha parecido aquele momento, fôssemos todos verdadeiramente irmãos.

“Obrigado Portugal! Este foi o melhor concerto que demos este Verão!”. Quando se termina uma atuação com estas palavras, é certo que o dever ficou cumprido. Os Wolf Alice eram uma das estreias por terras lusas que mais falatório causou e justificaram-nos esse facto em pouco menos de uma hora: estes quatro jovens estão para música assim como o calor está para o Verão. Portanto, tê-los no maior festival de música a ocorrer durante a estação do sol e da praia, era o destino. Quis esse mesmo que o quarteto londrino assinalasse um dos espectáculos mais celebrados do festival, levando um repleto Palco Heineken ao rubro, mesmo com os veteranos Pixies a tocarem ao mesmo tempo clássicos após clássicos a alguns metros de distância.

O rock alternativo dos Wolf Alice destaca-se dos demais na medida em que vai buscar influências ao grunge que reinava nos anos 90, provocando uma lufada de ar fresco no actual panorama musical indie. A legião de fãs que transbordava pelo Heineken confirmava que esta receita é sinónimo de sucesso, com a banda a tentar ao máximo disfarçar o seu espanto para com a euforia e as letras na ponta da língua das camadas jovens que se reuniam sobretudo nas primeiras filas e que desde cedo explodiram de alegria ao som de “You’re a Germ” e “Freazy”.

A cidade de Lisboa estará para sempre intrinsecamente ligada aos Wolf Alice: antes de apresentarem “Lisbon”, o baixista Theo Ellis confessou que visitara a cidade o baterista Joel Amey quando ambos tinham 19 anos e que tinham uma enorme paixão pela cidade e que por isso a dedicavam a todos os presentes. Até poderíamos dizer que foi a mais celebrada da noite, ou não fosse uma explosiva e eufórica “Moaning Lisa Smile” a levar o prémio, com coros tão altos e coordenados a sair do público ao ponto de (quase) ofuscar a voz de Ellie Roswell.

Com um alinhamento integrando quase a totalidade de My Love Is Cool, disco de estreia, e ainda com alguns temas dos seus EPs, os Wolf Alice deambularam entre a loucura de temas como “Bros” até à melancolia de “The Wonderwhy” (que perde um pouco do seu encanto ao vivo) – tudo graças ao alcance vocal de Ellie Roswell que lhe permite ser uma rapariga doce a transformar-se num espírito livre – para assinalar um concerto competente que fez as maravilhas dos fãs, conquistou os jornalistas e suscitou curiosidade nos demais. Tudo isto numa actuação que acabou com uma banda comovida em palco e um “V” de “volta” a pairar no ar.

A primeira coisa que há a dizer sobre os Pixies e sobre a banda de Black Francis, Joey Santiago e David Lovering é que… bom, sem a Kim Deal não é bem a mesma coisa, pois não? A señorita Paz Lenchantin que perdoe a blasfémia e a comparação, sendo ela uma imponente presença em qualquer palco e formação desde os tempos dos A Perfect Circle ou dos Zwan de Billy Corgan e longe de precisar ou merecer jogos comparativos, mas Kim Deal em toda a sua displicência, genialidade e feminilidade tímida e poderosa tornou-se num dos símbolos maiores de uma geração de amantes de música e ajudou a cunhar o imaginário e o simbolismo de poder feminino da guerrilheira rock de baixo na mão. Ao lado de Kim Gordon dos Sonic Youth, D’Arcy dos Smashing Pumpkins, Jennifer Finch das L7 ou Debbie Googe dos My Bloody Valentine foi e será sempre uma figura icónica de toda uma geração adolescente nos anos 90 e de várias outras daí em diante. E aquela voz cambaleante entre o relativamente alcoolizado – ou tremendamente alcoolizado – e a menina doce da casa ao lado é – goste Frank Black ou não – um complemento essencial aos seus universos delirantes e mesmo à sua voz. Pronto está dito! Esta andava atravessada há muito tempo.

Se já pouco há de novo para se comentar de um concerto de Pixies seja pelas várias apresentações da banda de Boston por cá, seja principalmente pelo formato “chegar, rasgar tudo, debitar hinos atrás de hinos, largar histórias dementes em cima de milhares e afirmarem-se com a facilidade de uma onda de tsunami que eles são uma das ultimas grandes bandas lendárias do rock e que é aproveitar eles falarem pouco ou nada porque assim cabem lá mais uma 4 ou 5 canções” – e em Algés couberam 29 temas – por outro lado há que concordar que por mais que isto não varie grande coisa de concerto para concerto o sentimento de frescura da obra da banda continua vivo e cristalino. Quem diria que “Monkey Gone To Heaven”, “I’ve Been Tired”, “Vamos”, “I Bleed” ou “Gouge Away” pudessem em plena segunda década dos 2ks aglomerar tantas vozes em uníssono e de tantas gerações diferentes, quem diria que uma banda que em tempo útil de vida pouco sucesso comercial teve e hoje percorre mundo a espalhar uma fé a fieis que mais que certamente nasceram para a música em boa parte depois do ano 2000.

Não faltaram pontos mais baixos, todos eles exclusivos ao momento desinspirado e desnecessário que foi o disco de 2015, Indie Cindy, mas nem isso retira qualquer brilho a tamanha sequência de aglomerados de 3 ou 4 minutos de história encapsulados nas músicas dos Pixies. Uma viagem no tempo intemporal que atravessou todos os  cinco discos clássicos da banda – Doolittle, Surfer Rosa, Come On Pilgrim, Bossanova e Trompe le Monde – e algumas músicas que farão parte do regresso aos discos já este ano com Head Carrier. Ao tema título juntaram-se o single de apresentação rasgadissimo e a trazer as boas recordações do passado “Um Chagga Lagga” e “Classic Masher”. O rock continua a ser um universo e os Pixies uma espécie de entidade regeneradora de buracos negros. Por cada vez que és sugado mais uma vez voltas ao inicio de tudo.

PS: Sim, faltou “Gigantic” –  e a voz de Deal – e mais um par de histórias loucas. Ainda não foi desta que se cantou he got friends like paco picopiedra, la muneeeeeeca!!!!!

Outros amigos que certamente Portugal tem vindo a preservar são os britânicos The Chemical Brothers. Assíduos em Portugal desde o início da sua actividade, muitas são as histórias festivaleiras lusas que contam com a presença deste duo composto por Ed Simons e Tom Rowlands, acabadas geralmente, com bons finais. A potência e exuberância dos seus espectáculos são notórias ao longo dos tempos pela sinestesia dançável que provocam e se há duas décadas estes dois homens pareciam estar a anos luz do seu tempo com a salva audiovisual que produziam, hoje em dia, num formato praticamente inalterado pelos anos, o mesmo ainda se pode continuar a dizer. Este facto é nada menos que impressionante porque, na verdade, ainda não existe mais nada como este grupo.

Os The Chemical Brothers iniciam o concerto com uma intro que vem vigente desde os anos 90: um coro místico, de influências apontadas ao médio oriente pede-nos um “surrender” enquanto nos trata por irmãos e muito progressivamente evolui para a condecorada “Hey Boy, Hey Girl”. É a partir daqui que a plateia extensa do NOS Alive desiste da vida e explode no maior êxtase que se registou naquela noite. A volumes ensurdecedores, Rowlands e Simons, correctamente alojados numa “nave espacial” de sintetizadores, maquinarias e sequenciadores, foram construindo em formato medley várias das canções que os fizeram famosos, juntamente com aquelas que fizeram justos artistas de estúdio e experimentalistas de som. Atrás deles, os meios convergiam para criar um espectáculo audiovisual com uma qualidade e produção vários furos acima da média. As intensas projecções misturavam-se com os focos de luz, os lasers desenhavam padrões nas telas e o fumo adquiria cores tudo graças a uma multidisciplina de artifícios que juntamente com a música, eliminaram qualquer noção espacial e temporal.

A descarga de conteúdo não permitiu realmente pensar, como os próprios Brothers urgiam nas mensagens textuais atrás deles e a imersão levou a plateia do NOS Alive para fora daquele sítio. A capacidade que o duo teve de nos fazer esquecer onde estávamos foi uma sensação de forte libertação e uma das que mais mérito foi merecendo. Entretanto, por entre sons como “Setting Sun”, “Block Rockin’ Beats”, “Got Glint” ou “Chemical Beats”, revisitaram-se praticamente todos os cantos de uma carreira cujo espírito sempre foi imensamente estreito com o ethos do rock n’roll: há uma agressividade, uma voracidade latente na música destes britânicos que faz tanto dançar em descomprometido groove como sabe levantar os ânimos em potente adrenalina. Por outro, canções como “Swoon”, “Saturate” ou “Star Guitar” foram surgindo pontualmente no set, lembrando-nos sempre (e convencendo até alguns cépticos”) como a música de dança é um género capaz de produzir composições artísticas de uma beleza emocionante.

O pensamento fugiu por completo, mas quando o mais recente capítulo dos The Chemical Brothers em Portugal chegou ao fim, o mesmo voltou para incidir precisamente no gosto que foi em tê-los de volta. Houve muita dança e saudável empurrão, saltou-se, levantou-se poeira e ainda se empurraram coloridas bolas insufláveis saídas dos ecrãs – foi uma potentíssima festa como hoje em dia ainda se vê em pouco lado. A este ponto, uma banda como estas já é uma aposta tão ganha que nem há grandes razões para abdicar dela. No fim, apetece só referir a última mensagem (e nestes dias, mais que nunca, importantíssima) dada pelos dois engenheiros: “Love is all”. Não podíamos concordar mais.

A dupla electrónica nova-iorquina Ratatat, ficou não só encarregue do fecho do palco Heineken, mas também do encerramento desta 10ª edição do NOS Alive. E que mais podíamos pedir? Depois de 3 dias de festival, já eram muitas as pessoas sentadas a descansar e quase sem forças para os últimos concertos, mas felizmente os Ratatat apareceram na melhor altura e deram uma força extra a qualquer pessoa do recinto, foi impossível ficar parado e não ter vontade de dançar aquando da entrada de Mike Stroud e Evan Mast. Uma excelente entrada visual e sonora deu asas a uma performance sólida e cheia de energia. Ainda que tenham tocado menos tempo do que se estava à espera, não deixaram os grandes “Classics” de fora, e músicas como “Wildcat” e “Loud Pipes” fizeram parte da festa, deixando a plateia encantada.

“Cream On Chrome” também foi dos maiores êxitos da noite, o primeiro single do álbum Magnifique, lançado o ano passado foi uma das primeiras músicas do set e deixou os fãs mais recentes da banda com um sorriso de ponta a ponta. “Nightclub Amnesia” do mesmo álbum, também foi tocada e deu mostras de que foi sem dúvida feita para se tocar ao vivo, uma música cheia de potência que deixou toda a gente eufórica. Com passagens eletrizantes de guitarra e os seus típicos solos, os Ratatat foram um final perfeito para um dos melhores festivais do ano.

Despedimo-nos assim este ano do NOS Alive e ficamos à espera da próxima edição que esperamos que seja tão boa ou melhor, mas vai ser difícil para todos os festivais, visto que com este a fasquia ficou no topo!