Nem máquinas nem hologramas separam os The Horrors daquilo que são: um caldeirão urbano e mágico de vários tons de negro e pontuais brechas de luz não muito mais que nubladas que rasgam por entre as canções. Disco atrás de disco, têm vindo a descobrir desde o seu registo de estreia, Strange House, editado há precisamente dez anos, novas formas de recontar a história do post-punk, passados cerca de 40 anos de o post ter sido originalmente pre… – tudo depende de onde está a verdade sobre o nascimento do punk, mas isso são outras lendas. Seja em tons de gótico, seja em strobes de psicadelismo ou em esquinas de kraut apunkalhado e rápido, seja recorrendo a estruturas mais pop – não foi à toa que se viram encavalitados num post-punk revival que acontecia do lado de lá da orla marítima das ilhas britânicas numa NYC que limpou e limou as arestas de um género rouco e rasgado pelo frio criador e inspiracional de Manchester e de Londres – os The Horrors souberam colocar-se numa esquina pouco iluminada que provoca sombras de várias formas e formatos, consoante a direcção da chuva e do cinzento que lhe bate e reflete.

Em nenhum dos momentos, e apesar do par de discos que antecederam V, o álbum que os devolveu a terras de Pessoa para mais duas datas, uma no Porto e outra em Lisboa, sobre a qual se versa sem rimas aqui -, a banda inglesa se deixou afectar por aqueles momentos em que a chuva quase deixa antever formas mais felizes de ser e de existir. Pode ser de dia em Luminous e Skying, os dois álbuns anteriores, mas nem por isso os dias ganharam mais calor para a banda de Faris Badwan. A prova final é que no disco deste ano, os The Horrors voltam a baralhar todas as sombras e truques de luz e metem cá fora um disco seco mas emotivo, sentido mas desenhado a traços frios e muitas vezes cibernéticos como se um braço mecânico acariciasse o cabelo de forma ilusória ou repensando o amor com luzes futuristas, solitárias e pouco reais.

Em palco, eles são um prisma que absorve uma série de outros elementos emocionais mas que em praticamente tudo translada em torno de um astro negro. Seja a simples desesperança, o distanciamento do mundo, a agressividade ou a fúria toldada de movimento bruscos, tantas vezes vislumbrados entre o temporal de luzes que os afogam no palco. Da penumbra à epilepsia vai um golpe de distorção mais ríspido de guitarra, um mudar de direcção brusco no ritmo. Em Lisboa foi assim: os The Horrors entraram camuflados de escuro e fumo e saíram disfarçados de cores primárias, secundárias e rasgões de brancos narcóticos que cegam e seduzem.

Uma entrada directamente para o quinto capítulo, com “Hologram” e “Machines” a dizer que aqui é tudo real e que é no novo disco que as atenções de uma noite de tempestade lá fora se vai focar. As canções pulsam vida, Faris assume o papel principal de olhar perdido e movimentos repentinos, ora violentos, ora absortos no vácuo, ora cambaleante entre os restantes elementos que se espalham pelo palco. Em redor, a luz e a sombra. Todas as variante são constantes, e ao longo da pouco mais que uma hora que os The Horrors estiveram em palco, o vai e vem entre o excesso de luzes que cega e seduz e os contornos sumidos entre a parede de som que cai do clarão multicolor uns metros acima do chão, definem a estética. Além das canções e do visual plenamente assumido de Faris enquanto criatura da noite, os Horrors não dão permissão para uma oxigenação plena das canções. Bombas em queda livre, refratárias.

Do presente para o passado e “Who Can Say” devolve Lisboa a 2009 e a Primary Colors, o mesmo disco por onde vão passar mais duas vezes, logo depois de uma paragem na luminescência motorizada de “In And Out Of Sight”, ponto de foco único da noite no disco de 2014. “Sea Within A Sea” e “Mirror’s Image” e o passado distante está despachado. De volta a V, “Weighed Down” reduz a densidade e é provavelmente o único momento até agora onde a tal brecha de luz não muito mais que nublada deixa antever algo mais. Mas as palavras? As palavras contam outras histórias…

Siren on a winter’s day
Driven mad, you played your part
Now here goes the melody, how bare it is

O psicadelismo de “Press Enter To Exit” antecede a visita a Skying com “Endless Blue” e “Still Life” e uma descida do palco de Badwan para ir gritar junto a mesa de som depois de atravessar toda a sala sem que ninguém se atrevesse a tocar-lhe. Há um carisma especial e intocável em Faris que o coloca ao lado de outros nomes grandes do post-punk ou do espectro oitentista, seja em termos de atitude distante ou ameaçadora, seja na química bizarra com que comunica com o seu público, ou até mesmo na óbvia colocação de ferocidade e melancolia dos poemas e da voz. Não é difícil esconder da visão o momento e encontrar os pontos de ligação com Marc Almond dos Soft Cell, Mark Burgess dos The Chameleons ou Ian McCullough dos Echo & The Bunnymen ou, pois claro, Curtis e os seus Division (ah, e Faris Badwan não volta ao palco sem antes dar um beijinho na careca de um fã na fila da frente.)

The Horrors @ Lisboa Ao Vivo

Um hino é sempre um hino e recebido como tal. Os The Horrors já passaram por um, “Weighed Down”, e fecham o concerto com outro. “Still Life” era a grande canção dos The Horrors até hoje, até ao novo disco. Esta noite é o aglomerador de vozes de um público que se colocou – ou foi colocado – pela banda do lado de fora, num papel efectivamente contemplativo. Num outro concerto, numa outra noite o que seria um potencial ponto redutor, aqui é quase factor indispensável. Há transe, há catarse interna mas gelada, há movimento mas comandado pela arritmia luminosa dos strobes dos The Horrors, e depois há “Still Life” a quebrar por momentos a barreira. O quinteto sai e volta para um encore. V continua a ser onde os Horrors se centram, o ponto de onde querem partir. “Ghost” perde-se na amalgama de som mas ainda consegue romper. Sufocante como no disco, arrastada como um fantasma se deve mover. Come feel it… em redor há escuro. Quantas músicas têm os The Horrors para terminar em festa e deixar “Something to Remember Me By”? Isso…

Antes deles, os germano-argentinos Mueran Humanos – que já tinham passado por Portugal este ano na segunda edição do Post-Punk Strikes BACK Again no Hard Club -, foram presença quase efémera na sala da zona oriental de Lisboa. A casa ainda carregada de muito espaço e um apagão em palco durante o concerto não ajudaram a que as canções cheias mas cruas do duo de Carmen Burguess e Tomás Nochteff conseguissem partilhar de forma eficaz as sombras que habitam o imaginário negro da banda. Com o último disco, Miseress, acabado de sair – o álbum foi lançado nos últimos dias de Novembro -, a banda fez aquilo que melhor sabe fazer: linhas de baixo tóxicas envoltas em minimalismos dreamy e um pulso revolto que partilham com um rosto industrial que em nada se oculta. Há noites em que os astros não ajudam e esta parece ter sido uma delas.

Aqui, a foto-reportagem completa de The Horrors + Mueran Humanos no Lisboa Ao Vivo