Clássico, Rigoroso e denso – chegará para anunciar Douglas Dare, britânico de sensibilidade pluviosa, nos prenúncios do seu novo álbum Aforger?

Partilhando afamada casa com Ólafur Arnalds e Nils Frahm (Erased Tapes) e abrindo concertos para Wild Beasts, a voz límpida que se ergue dos instrumentos finamente burilados das suas canções ocupa já um lugar só seu. Depois de Whelm, primeiro álbum em 2014, o mundo parou para escutar. Foi comparado a muitos – entre a nova e a velha guarda -, de Thom Yorke a James Blake.

Perseguimos influências e tonalidades – o piano absoluto, os crescendos litúrgicos, as efervescências de sintetizadores -, mas encontramo-nos apenas com a sua singularidade depois de acalmar o folêgo. Aforger questiona realidade e ficção, a cópia da cópia que ri da essência. São gargalhadas largas onde ecoa uma tristeza, ou uma delicada melancolia, que certamente ultrapassa a tenra idade de Dare. A seriedade e a inocência têm um mesmo lugar e as letras como lâminas vão marcando uma arquitectura de dor e reflexão.

Produzido por Fabian Prynn nos icónicos estúdios de Abbey Road, conhecemos já três fios do que se afigura como a complexa malha de Aforger. “Oh Father” diz cruamente da experiência de Douglas Dare com a máscara da identidade, neste caso sexual, e deixa-nos num silêncio contemplativo onde subitamente queremos desenhar gestos. É coerente com o vídeo, realizado pelo colectivo artístico Ouroboros: a fragilidade é solene, a voz é cristalina como um homem em busca do movimento entre espaços frios e austeros – movimento em direcção ao outro.

Descobrimos que esta arte musical não se esgota na estética apurada do sonoro – ela cria ainda ambientes visuais que alargam a potência do sentir. É  ainda o caso de “New York”, música e vídeo para um presente eterno, dado pelas mãos de Dan Jacobs. Entre a cidade imaginada e a cidade real, vemos nas imagens a construção digital de um mundo sem referência, onde o subconsciente desenha sentidos abstractos. Com a voz, Douglas Dare faz apenas perguntas, golpe a golpe impondo a resposta que somos incapazes de dar:

Did we find the Guggenheim
And get in for a dime?
Or was it all on the walls of my mind
Like forgeries no artist will sign?

Em “Doublethink” as premonições encontram outro profeta – George Orwell e o seu 1984. A música cresce, sólida e firme, sobre a influência do mestre que aqui fornece um diálogo tão perceptível quanto a beleza de quem enfrenta conhecimento e ignorância com o mesmo semblante:

Ignorance is my bliss
Don’t want to fall out of this
Freedom is slavery
My mind won’t ever help me

Em todas estas coordenadas há coros, há percussão e há uma voz madura. Acima de tudo, há uma honestidade incendiária daquilo que poderia querer ser poesia, mas em vez de empunhar a espada de dois gumes do artifício, escolheu fincar as mãos na música e procurar essa tendência para a verdade que é o silêncio. Queremos dizer, a justa medida das coisas, a geometria da vulnerabilidade.

Aforger sai a 14 de Outubro pela Erased Tapes.

Douglas Dare - Aforger

Douglas Dare – Aforger