O último dia de Entremuralhas é sempre aquele que tipicamente tem maior afluência. Por isso não é de estranhar que naquele final de tarde na Igreja da Pena o espaço fosse pouco para aglomerar tanta gente. Os catalães Àrnica têm sangue de lobo a correr nas veias e nos ritmos tribalistas perpetuados por invocações xamanísticas aos espíritos da Península Ibérica. A sua música foca-se em redescobrir e recriar o folclore e os antigos rituais celtibéricos que se foram perdendo na história. De carácter essencialmente percussivo, a instrumentalização e arte cénica utilizada por cada elemento dos Àrnica não foi um simples um reaproveitamento de carcaças de animais: é um comungar profundo com a Natureza e uma reverência ao seu Espírito e Alma.

A rugosidade áspera das vozes, o calor e a vitalidade das letras e a ferocidade animal que retiram dos instrumentos encheram a Igreja com uma profunda sensibilidade e amor à identidade de um povo e a tradições esquecidas e ignoradas durante a época moderna. Está presente a um nível emocional tão profundo que não se torna necessário entender o significado literal das palavras ou aprender o nome de cada instrumento para sintonizar e sentir as camadas primordiais e nostálgicas evocadas pela música. Um final de tarde que começou com o testemunho de rituais pagãos, de urros tribais que nos lançaram ora numa caçada ora numa guerrilha entre clãs, de samplers carregados de sons animalistas da Natureza (de salientar a agradável passagem de um odre de vinho para a plateia) avançamos com uma embriaguez saudável para outro género de experiência sensorial.

Os gregos Selofan, que passaram pela Caixa Económica Operária em 2014, não são alheios à receptividade ímpar do público português. O carácter minimalista e seminal das suas composições electrónicas envoltas em fores reminiscências de darkwave e synthpop, a voz algo torturada de Joanna e o trabalho instrumental de Dimitris que consiste em linhas de graves ressonantes e sintetizadores analógicos, torna-se numa amalgama de estruturas rítmicas que tanto deixa a plateia à beira de uma sensibilidade quase romântica como em “Night Club In The Sky” como se torna gélida, quase roçando o desespero e sufoco. Esta é música que tenta transmitir os extremos da paixão em todas as suas formas: a teatralidade e expressividade de Joanna em palco, com o seu apaixonado foco centrado no público tão bem expressa em “La Industria del Sexo” e o seu contraste com a bem estudada e paradoxal expressão de austeridade de Dimitris, inigualável em “Sto Skodavi”, elevam e provocam um estado de dança ébria, arrepiam o corpo e transformam a plateia num movimento fluído de corpos a acompanhar o ritmo minimal. “Love Is A Mental Suicide” e seguramente traz uma rosa presa aos dentes enquanto nos encanta para dançar sob o abismo.

A escolha do nome Paulo Bragança no alinhamento do cartaz causou um burburinho improcedente na história do Entremuralhas. Porquê um nome ligado ao fado? Porquê fado quando se pode apontar uma miríade de referências mais dentro das sonoridades do festival? Quem é Paulo Bragança? Estes foram alguns dos principais motivos causadores de polémica aquando do anúncio face ao cancelamento de Darkher. Essas dúvidas seriam rapidamente respondidas fazendo uma rápida pesquisa nesses pequenos objectos de uso quotidiano que, pasme-se, não servem apenas para selfies e publicações (Insta)ntaneas.

O fado é uma manifestação intensa de estados de alma imersos em mágoa, tristeza, sofrimento, saudade e destinos fatídicos. É no silêncio da noite e debaixo do mistério que a envolve que se deve ouvir com a “alma que sabe escutar”. E associar Paulo Bragança ao tradicionalismo mainstream de uma certa classe de fadistas é um erro crasso e desprovido da mais rudimentar falta de conhecimento ou procura automática do mesmo. Desde os seus pequenos passos nos palcos portugueses que o seu arrojo estético e o seu timbre quase andrógeno o demarcaram do conservadorismo e hermetismo de uma estirpe de artistas que se julgava intocável e única. A componente quase avant-garde que imprimiu no seu trabalho valeu-lhe o reconhecimento além fronteiras na enciclopédia da World Music. A emoção desmesurada e quase tangível da sua performance ecoou pelas muralhas do castelo e deixou a plateia em silêncio comungando da beleza onírica das palavras cantadas com todas as partículas do corpo. As dúvidas, essas, caíram muralhas abaixo ou foram largadas algures entre o céu e o pó do chão.

Nicole Sabouné, sueca de origem libanesa, é um caso sério de amor de perdição logo ao primeiro encontro, num render imediato à emoção que transborda da fragilidade incoerente de uma voz envolta em gelo, um gelo que pinta retratos cinemáticos da tragédia humana e explora as inquietudes da alma, uma voz capaz de olhar para os recantos mais escondidos e frágeis de cada um e expor os “Bleeding Hearts” que recusamos exteriorizar com uma sensibilidade e intimidade sedutora. Herdeira das melodias soturnas da darkwave e algumas expressividades vocais imponentes e algo desafiadoras do post-punk, Nicole atinge a catarse emocional com o uso de percussões e guitarras distorcidas, com imposições robustas e sólidas de uma bateria que controla o bater dos corações embrulhados numa quase etérea e subtil presença dos teclados ou em súbitas descargas electrónicas que arrepiam a espinha e reprimem o fôlego.

“The Body” é o ponto de partida para o que se tornou uma viagem de (re)descoberta íntima repleta de vulnerabilidades que os mais incautos poderiam não estar à espera. Os primeiros acordes quase fúnebres, o coro vocal repetitivo e o grito em jeito de chapada sonora de Nicole serviram de algo semelhante a um acordar de todos os sentidos do público. “Under The Stars (For The Lovers)”, uma peça intimista e minimalista com Sabouné ao piano escondida sob um manto de fumo e luzes vermelhas, trespassa os muros sensoriais  engole-nos por inteiro. A escolha da cover para “Frozen” de Madonna no alinhamento do concerto poderá parecer estranho ou até inadequado, mas o impacto dos arranjos musicais orquestrados que transportam a voz de Nicole a uma grau de vulnerabilidade e força raros, transformam-na em algo novo e imprecedente. No último concerto no Palco Alma, Nicole Sabouné levou-nos numa viagem intimista que obrigou quem assistiu ao inesperado desafio de deixar o coração em modo “Bleeding Faster”.

Atari Teenage Riot dispensam apresentações. Símbolos de revolta, rebeldia e da palavra como forma de protesto político e anarquista com especial enfoque na mensagem antifascista, os alemães fazem com o som da revolta trepidar veias, bombear corações e soltar rugidos em plateias inteiras, algo que originou já tumultos com a policia e invasões do palco. Os ritmos electrónicos poderosos, os samples de guitarras ultra sónicos e os perturbantes e agressivos elementos techno a par com as vocalizações e energia em palco da atitude punk de Alec Empire e de Nic Endo, incendiaram de imediato o público com “J1M1”. Como um furacão, tomaram de assalto o espaço do palco, que pareceu encolher face à sua inesgotável energia golpeando sem dó nem piedade corpos e espíritos e trazendo ao de cima reminiscências de uma juventude política e socialmente inconformada, onde uma energia agressiva se expressava em caves escuras e era conduzida por um punhado de bandas com uma mensagem bem enraizada nas letras, apesar da aparente violência na atitude.

Os Atari Teenage Riot trouxeram consigo composições do novo álbum, e mais uma vez conseguem a proeza de tornarem músicas como “Reset” ou “We Are From The Internet” a voz de uma geração de inconformados com o rumo de uma sociedade em declínio e retrocesso social e político. Incansáveis em palco, como foi sempre do seu apanágio, incentivaram a plateia a sair do marasmo e apatismo em relação ao que se passa no Mundo. A revolta e o caos criam mudança, sendo a insurreição contra a vigilância do Governo, a violência dos organismos do Estado, a omissão e manipulação dos media e um apelo à revolta e luta contra os ideias crescentes de supremacia nacionalista as principais linhas de combate que naquela noite os Atari incitaram a que levantássemos os punhos e gritássemos palavras de ordem até à rouquidão.

A destruição sonora dos padrinhos do lado mais extremo do electro Industrial Front Line Assembly fecharam esta edição do Entremuralhas. As actuações demolidoras deste quarteto canadiano reverenciadas além fronteiras ficaram finalmente ao alcance do público português. Avassaladores como poucos, têm conseguido renovar e inovar as suas capacidades de incorporar atmosferas sombrias próprias para filmes de dark sci-fi em ritmos pulsantes de hard EbM e uma agressiva mas subtil sensibilidade na estrutura das canções. Logo no primeiro segundo em que “Resist” começa a ressoar, e ondas palpáveis de batidas metálicas e estruturas rítmicas intercaladas se propagam. Em pouco tempo, as camadas de pura electricidade e/ou em batalha entre baixos e sintetizadores, a agressividade do espectro nuclear de Front Line Assembly e a agitação crescente do público fundiram-se, e mais uma edição do Entremuralhas acaba do mesmo modo que começou: o Castelo de Leiria iluminado, a plateia de rosto iluminado, corpos em ritmo desenfreado e o céu a ressoar elogios aos Deuses da Música.