Rezam as escrituras que ao segundo dia Deus criou o Céu e os Oceanos. O Entremuralhas foi mais além e criou o palco da Igreja da Pena. Entre as ruínas da capela a céu descoberto num palco construído na outrora nave principal da igreja, entramos em contacto com a personalidade magnética de Simone Salvatori, frontman dos Spiritual Front. Com a guitarra a tira colo a distribuir toneladas de charme apimentado com um travesso sentido de humor, Salvatori cria uma ligação imediata com o público. Esqueçam os estereótipos ligados ao movimento gótico e demais ramificações: o humor e as suas manifestações físicas acontecem mesmo. Não é um acontecimento insólito, e quando a empatia é assim tão instantânea num primeiro instante, a entrega é total e as vibrações entre a plateia e o palco flutuam livremente, dando uma tonalidade colorida mesmo que seja o tom negro a prevalecer nos trajes.

Ouvir Spiritual Front foi sempre uma espécie de experiência religiosa imersa em pecado, quiçá a banda sonora ideal para um biopic a preto e branco da história pessoal de um mafioso carismático de nome Simone Salvatori. Depois de “We Could Fail Again” somos arrebatados pela introdução de “Odete”. Uma belíssima peça musical escrita em memória e louvor do filme do mesmo nome de João Pedro Rodrigues. Sim, o cineasta Português.

We’re two drifters,two lovers with no scrap of future
A dying couple on the dank streets of Lisbon.

Mais do que a escolha desta música no alinhamento do espectáculo, foi a maneira entusiasta e sorridente com que Salvatori a anunciou e se disse fã da obra de J. P. Rodrigues. Já “Jesus Died In Las Vegas”, uma peça lírica e angustiada de perda e rancor, tem uma inesperada reviravolta quando Las Vegas é substituída por Jesus Died in Portugal, in Leiria, in Lisboa, in Coimbra e o humor de Salvatori escapa-se-lhe e não consegue finalizar com o retumbante refrão ‘Nothing is more contagious than sin, mas sim com um pedido de desculpas por não se lembrar de mais cidades portuguesas.

Ouvir Spiritual Front pode tornar-se num carrossel sentimental mergulhado na agonia dos amores impossíveis ou não correspondidos, em tristeza, desespero, melancolia, decadência e luxúria. Tudo temas bastante comuns e simples se, tal como quem esteve presente naquele dia, não se assistisse ao dom diabólico da voz de Simone Salvatori a escavar nesse prisma labiríntico de amor miserável, transformando-o em desejo eterno, pedidos de perdão eloquentes, espasmos de rancor e ciúmes, ou numa busca pela paz em desejos carnais. Um artista que transforma um concerto numa performance dramática, onde cada canção marca o ritmo dos diálogos entre amantes. Salvatori dança, valsa, bebe, seduz, brinca e tem ataques de riso enquanto canta sobre morte, sexo, violência e amor. Escravos ficámos deste anjo bastardo que
nos seduziu para além do esperado.

A união artística de Federico Lovino e Claudine Sabatel no projecto Dear Deer combina de forma assimétrica e simbiótica as guitarras afiadas, os baixos contundentes e os jogos vocais histriónicos e teatrais de ambos. Snail e o mais conhecido Claudine in Berlin atestam inequivocamente as influências industriais e post-punk com as suas percussões triturantes, as batidas ácidas e o diálogo galopante e divertido entre um e outro, um diálogo que agiu como um excelente contraponto e equilíbrio entre a acidez crítica e afiada das letras. pautadas de forma feroz pelo baixo e guitarra em ritmo frenético e acelerado.

Poder-se-ia alvitrar que essa energia exaltada poderia ter tido uma reacção mais empolgada e febril por parte do público, mas a simplicidade e a cumplicidade contagiantes do duo francês agiram como um bálsamo relaxante. Ritmos para o corpo, sem dúvida, mas com uma cadência melódica que apraz ouvir com algum equilíbrio. Se dúvidas existiam acerca de uma bem sucedida estreia só com um único par de anos de vida, essas esvoaçaram de forma permanente naquele fim de tarde e início de noite com o céu estrelado a espreitar sob o Palco Alma.

Ainda ninguém sabia, porque totalmente inesperado, mas a estupefação geral sobe um dos mais marcantes e impressionantes dos concertos, estava prestes a ter lugar. Para quem já tinha um conhecimento prévio dos dois álbuns de Bärlin, a surpresa não residiu na excelente qualidade da música que foi paixão à primeira audição. A surpresa e admiração desenfreada que vibrou e percorreu a plateia inteira e polvilhou de burburinhos excitados no final do concerto, derivou da metamorfose de borboleta para Fénix vingativa em palco dos músicos.

Bärlin é um trio alternativo de pop folk adornado e alimentado por um gigantesco mosaico de influências de jazz noir. A sua música evoca os tempos glamorosos do cabaret e as fantasias cinematográficas de Win Wenders. O tom enevoado da bateria e o baixo servem de compasso ao ritmo hipnótico e quase sensual da música, e o clarinete ilumina o caldeirão mágico onde a mistura de ritmos insidiosos e intrigantes assombram as letras cativantes e com um ligeiro toque sorumbático. A entrega deste grupo ao vivo é uma tempestade de espontaneidade criativa e profunda. A atmosfera enche-se com o ritmo em surdina mas implacável da bateria, o baixo ressoa na escuridão, e com um toque depravado muito próprio faz contraste com as vocalizações e orgias martirizadas do clarinete de Clément.

Quem está no público passa por imensos processos delicados: desde a petrificação de surpresa dos primeiros acordes em “Swans” ao estado embasbacado e enfeitiçado, graças às evocações do Deus Pã encarnado pela figura franzina do frontman dos Bärlin; desde a beleza encantadora de “Morphine” que adere à pele e obriga a plateia a vestir todas as emoções que se cruzaram naquele momento ao encantamento eufórico e assoberbado de “Der Graf” que impele o corpo ao ritual da dança, passando por estados de transe induzidos pela magnitude das composições e arranjos atípicos dos Bärlin que nos sacodem entre entregas minimalistas e sóbrias e rasgos de atividade sonora que nos coloca o coração na boca. Que regressem rápido a Portugal.

Barlin @ Festival Entremuralhas

In The Nursery quase que dispensa apresentações. Com 28 álbuns editados e volvidos 10 anos, a banda formada em 1981 voltou a Leiria para um muito esperado reencontro. A sua sonoridade atinge um intimismo quase cinematográfico. A estética e a colocação milimétrica dos impressionantes tambores fazem ressoar o poder das batidas em cadência militar sobre a multidão, e a calma quase gelada e profissional de cada um dos membros da banda servem de banda sonora a um mundo em tumulto. A pureza instrumental quase virgem de arranjos manipulados, a assertividade conceptual das letras e o lirismo vocal em forma de hino deixaram o público a um passo de ficar imerso na arrebatação onírica de um quase chamamento para a batalha. Um passo que poderia ter-sse traduzido em escassos milímetros, não fosse uma qualquer força desconhecida ter criado algumas realidades distintas e quase paralelas. Sentimentos antagónicos pairaram entre o palco e a plateia, e agarraram-se aos ossos construindo uma bela utopia.

Não são só as catacumbas parisienses que guardam segredos. Numa nova investida electrónica europeia, os Vox Low têm ganho um respeito saudável, e em surdina começam a subir a escada para o reconhecimento internacional. “I Wanna See The Light” poderá servir de frase de conquista para os Vox Low. Chegaram envoltos em raios coloridos e com desenvoltura mostraram porque são um dos mais interessantes projectos da cada vez mais dinâmica nova e embrionária cena electrónica francesa. Uma espécie de filho bastardo que nasceu da colisão entre a cultura tecno e o rock, alimentado por uma alquimia subtil de vozes desesperadas e elementos electrónicos em loops sujos sustentados por baixos fortes e pesados. A energia dos ritmos dançáveis e a atitude agressiva do punk conduziram eficazmente a plateia, e as primeiras nuvens de pó começaram a desprender.se das muitas botas em efusiva marcha para o próximo e último
interveniente deste dia.

A música do projecto do francês James Kent, a.k.a Perturbator, é uma gloriosa e violenta explosão pelos caminhos labirínticos da synthwave. Ao olhar para o palco com uma espécie de altar enorme no centro e um jogo hipnótico de luzes a bailar competindo com as estrelas, quase se ouviam os corpos e os músculos do público a preparar-se para o embate físico do que viria na sua direcção. E essa constatação não se fez esperar, pois logo na primeira investida somos imediatamente empurrados por uma percussão agressiva e um ritmo sintetizado formado de almofadas vibrantes que ressoam em cada órgão e veia do corpo. Assoberbados por ataques físicos impossíveis de defender, intercalados por cadências hipnóticas que nos prendem ao chão, a imagética sonora de filmes como Total Recall, Terminador ou Ghost In The Shell transformaram este final de noite num ‘pesadelo’ distópico cyberpunk, cabendo a James Kent o papel de anti-herói responsável pela purga sonora sacada das suas imparáveis e infernais máquinas. Perturbator é digno de carregar o nome que escolheu, e Leiria recebeu nesse final de noite voltagem suficiente para recarregar baterias em estado comatoso.

Lê também aqui a reportagem do primeiro dia de Entremuralhas.