A substância e carisma do Entremuralhas divide se em três palcos distintos onde as bandas são cirurgicamente distribuídas pelos sentimentos ou poesia que habita dentro da sua estrutura rítmica e composição sonora. A Igreja da Pena proporciona, pelo seu enquadramento único no meio de ruínas, os concertos mais intimistas, sejam eles acústicos ou electro minimalistas. É aqui que a distância entre o público e os artistas se encurta, num espaço mais reduzido envolto em ressonâncias de outros tempos. O Palco Alma é normalmente o local onde as bandas de ambições mais filosóficas e espirituais actuam. Aqui reúne-se a nata das formações de pendor mais medieval, étnico, militarista ou neofolk. Estamos mais próximos do céu e do contacto com a energia etérea do lirismo e sensibilidade artística. No Palco Corpo , que comporta mais público, é onde actuam as bandas com sonoridades mais cruas e electro-industriais. Aqui faz-se a apologia à movimentação corporal desenfreada, o pó cola-se às botas e desbota o preto, a secura cura-se ao balcão e exorciza-se corpo e alma até uma quase exaustão. Que acaba sempre por se traduzir num revigorado boost energético só passível de definhar nos after parties. Palco acima, palco abaixo, sem sobreposições de horários, o público tem o privilégio inédito e raro de não perder nenhuma performance. Todas as actuações começam à hora estabelecida e estão cronometradas com breves intervalos para que se desfrute e incorpore o diabrete musical que habita em nós. O já conhecido, o preferido, o peculiar desconhecido, a surpresa das reticências, o deslumbre de assistir ao vivo o que se ama em registo de estúdio.

O primeiro dia do Entremuralhas foi sempre o mais tímido e acanhado. Com poucas bandas no alinhamento e só com o Palco Corpo como rampa de lançamento do festival, este foi o ano em que o público excedeu em larga escala os números normais deste inicio das hostilidades. Em grande parte pela suposta presença dos Tuxedomoon (uma das subtrações inesperadas que aconteceram nesta edição). Esta 8ª edição foi pontuada por algumas dificuldades extra com a morte de um dos membros dos Tuxedomoon, um acidente doméstico de Tony Wakeford e uma doença de Jayn Wissenberg a.k.a. Darkher. Três inesperados e inquietantes cancelamentos que numa primeira, cega e precipitada apreciação poderiam ter redundado num falhanço parcial do irrepreensível sucesso do festival, não fosse o brilhantismo e dedo mágico da organização. Substituir cabeças de cartaz como Tuxedomoon, Darkher e Twa Corbies não é tarefa simples, e consegui-lo practicamente de um dia para o outro torna-a próxima de uma das provações de Hércules. Rapidamente surgiram os novos nomes que iriam compor esta edição, traduzíveis em Atari Teenage Riot, Simone Salvatori e Paulo Bragança. E se por um lado causaram alguma surpresa e admiração, por outro lado esta 8° edição excedeu todas e quaisquer reticências, tornando-se uma das mais memoráveis de sempre. Não fosse o Entremuralhas um tributo aos Deuses da Música e um projecto de melómanos com o único objectivo de garantir sempre um incomparável sucesso com uma entrega total e entusiástico feedback (por parte das bandas e do público).

O primeiro dia de festividades, pintadas de múltiplos tons de negro, começou com uma surpreendente e inesperada vibração que retumbou pelo distrito inteiro. “Let the games begin” poderia ter-se ouvido naquela noite de céu límpido com uma abóbada de constelações a aplaudir o tributo que estava prestes a começar. Ramos Dual e Yul Navarro com o seu electro pulsante e vocalizações agressivas embrulhadas numa perfeita e sincronizada fúria na sua bateria artilhada, fez-se ouvir com “Dark Day (la Danza de la Oscuridad)”. Com um nível de energia altíssimo e uma performance invejável consolidam o ritmo para o resto da noite. A apresentação do seu álbum Drum Solo é um extravagante exercício de música electrónica onde a bateria é o instrumento indispensável do epicentro de um furacão rítmico que logo no primeiro momento convida os corpos a reagir e o sorriso a aparecer. Por entre batidas próximas de um electro minimal repetitivo, passando por um techno mais arrojado, como em “Noise de Bichos In Ya Head”, ou por explosões de fúria sincopada e martelada com uma destreza impressionante, como no raivoso “Freedom Banzai Revolution”. Tudo magnificamente embrulhado numa voz distorcida e componentes rítmicos do post-industrial. A desenvoltura e graciosidade no diálogo entre Ramos e Navarro imprimiram na primeira prestação da noite uma rendição imediata ao movimento e estado de graça dos corpos. A plateia ficou sinceramente galvanizada pela prestação vinda do país vizinho.

Os norte-americanos Bestial Mouths serão talvez uma das estreias em solo português mais aguardadas por um punhado de crentes e viciados no espectro incompreendido da mal denominada ‘música de difícil audição’. Lynette Cerezo contém na sua voz o poder do trovão que atemoriza mas que nos torna incapazes de um corte abrupto ou uma indiferença apática. Um cruzamento entre o timbre cortante de bisturi de Siouxsie, o alcance vocal inesgotável e absoluto de Diamanda Galás e a atitude punk e teatral de Lydia Lunch. Com a sua electrónica avant-garde e uma miríade de influências puxadas do industrial e do gótico, aliadas aos poderosos ritmos galopantes da bateria e os sintetizadores crus, os Bestial Mouths imprimem melodias sinistras e aparentemente dissonantes ou estridentes que quase por magia se harmonizam numa batida equilibrada. “Witchdance”, a primeira música do alinhamento, agarra-nos pela jugular e qual ovelha presa nos dentes do lobo olhamos de frente para a nossa própria chacina tornada espectáculo de arte. O tom apocalíptico e assombrado das cordas vocais de Lynette Cerezo parece não ter limites quase como se travasse uma batalha entre sussurros brandos e controlados, e gritos atirados do fundo da alma e sentidos como fogo na cara do público. O ritmo impulsionado pelos sintetizadores rudes e crus é quase cinematográfico, e a percussão agressiva forma ela própria uma barragem inundada de rugidos ferozes e físicos acentuados pela obscuridade glacial da voz de Cerezo. Em “Worn Skin” o ritualismo quase hipnótico das batidas electrónicas ressoam no peito com uma ferocidade inesperada, fazendo temer uma qualquer síncope cardíaca a caminho pela qual poderíamos falecer alegremente. Enfeitiçados com o génio da bestial(idade) em interpretações como “Heartless” ou “Faceless”, assistimos em silêncio e de coração e alma expostos a um desfilar feroz de precisão melódica e contida fúria. Somos arrancados da nossa zona de conforto e atirados conscientemente de um lado para outro pela impressionante capacidade que os Bestial Mouths têm de fazer sentir internamente cada sílaba, cada bater rítmico, cada chibatada vocal e palmada da bateria. De jugular amassada mas insatisfeita, voltamos a conseguir respirar no final e passado o atordoamento do feitiço, ansiamos ardentemente a próxima visita.

Geoffrey Delacroix, mentor dos Dernière Volonté, regressa a Leiria para apresentar um lado do seu ego mais acanhado e mais perto da chanson française com os Position Parallèle. Com um som mais refinado e brincalhão, roçando aqui e ali o minimal wave e o synthpop dos anos 80, as vocalizações geladas de Delacroix presentes em composições como “Mon Plus Bel Echo”, tornam-se quase elegantes ao chamar a atenção para o fraseio monótono e repetitivo que impele ao meneio da anca. Os ritmos são mais esféricos e harmoniosos sem a presença dos tambores e da bateria de imposição militar e industrial dos Dernière Volonté. É um projecto divertido que não busca novos anseios musicais mas que sabe reinventar com um cunho muito pessoal o prazer de uma década feita de clássicos da pista de dança.

O último espectáculo da noite ficou a cargo das mãos ásperas e cheias de calos de quem tem uma carreira de pouco mais de 30 anos. Quem viveu os anos 80 reconhece na presença dos Pop Dell’Arte um regresso ao passado em que os registos mais alternativos do que se fazia em Portugal estavam ao rubro. O mise en scéne de João Peste, o som da conjugação de palavras desconexas, o tom provocatório e disruptivo, o experimentalismo estético da (não) música, a insubordinação e transgressão artística foram e são a sua imagem de marca. A João Peste e ao seu génio, muitas vezes incompreendido, toda uma geração de music junkies viu nascer nomes como Mão Morta, Mler Ife Dada, Anamar, Pascal Comelade sob o selo da Ama Romanta, a mítica editora por ele fundada. O convite feito pelo Entremuralhas não foi casual: foi um elogio sincero e uma reverência a um dos pilares milenares da música moderna portuguesa. Pese embora a evidência dos anos que já lá vão, aqui foi notório o encantamento sobrenatural que se desprende das ruínas do Castelo de Leiria. Ouvindo e revivendo musicas como “Loane & Liane Noah”, “Querelle”, “My Funny Ana Lana”, o público do Entremuralhas entrou num vórtice temporal e deu um passo de volta a um momento da história onde a música e o modo de a conceber começava a reverberar por labirintos inóspitos e entusiasmantes. As estruturas rítmicas navegavam por regiões mais computorizadas, a poesia tornou-se insurrecta, a palavra era atirada como revolta, os temas focados tornaram-se controversos, a transgressão era visual e levada orgulhosamente para os palcos. Alguns dos espectadores foram levados de volta a esse lugar privilegiado de uma adolescência onde se assistiu ao despontar de uma nova era musical. Outros tiveram o prazer de saber responder qual era o lugar dos Pop Dell’Arte num festival como o Entremuralhas. 30 anos de carreira espraiados em quase o mesmo número de canções. Se sentimos falta de algumas? Sim. Faltou hinos com “Berlioz” ou “O Amor é… Um Gajo Estranho”. Se existiu alguma diferença na beleza e na força do que assistimos? Não. De todo Não.

Pop Dell'Arte @ Festival Entremuralhas '17