Erland & The Carnival - Closing Time
70%Overall Score

Não, não podemos falar de Erland & The Carnival sem referir Simon Tong, o Homem dos Sete Instrumentos que passou pela brit pop dos tardios-90’s, dos The Verve aos Blur, passando pelos The Good, The Bad & The Queen. Mas isso seria injusto para o guitarista Gawain Erland Cooper e o baterista David Nock, ilustres desconhecidos à excepção daquilo que já fizeram pelos Erland & The Carnival. Que já vão no seu terceiro disco e continuam de se lamber. Que é como quem diz: “De se fazer continuous play ou shuffle, tanto faz.” E é tão bom quando podemos ouvir e ouvir e depois ainda ouvir outra vez. É bom porque está em extinção. Apelamos, pois, aos mais acesos defensores deste tipo de causas. Vá, pintemos cartazes, afinemos as gargantas e… oiçamos este Closing Time.

O primeiro grande ponto a referir é: esqueçam a definição de folk neo-psicadélico. Já ninguém liga a essas tentativas de rebaptizar um estilo musical com coisas que já existiam e que, invariavelmente, dá origem a observações como “Já está tudo inventado” ou clichés piores. Os Erland também já ultrapassaram isso. They’ve come a long way, baby e assistiram de certeza à inserção dos Radiohead no vasto “caixote” da brit pop ou às comparações entre os Blur e os Oasis. E os arranjos de músicas tradicionais escocesas e britânicas também já não é a praia destes meninos. Se por acaso optássemos por esse caminho, a coisa dar-se-ia, em traços gerais, desta forma: no tema que dá o nome ao disco, há tanto de Noah & The Whale como de Belle & Sebastian. No tema “I Am Joan”, há xilofone e o tambor de aço característico das sonoridades caribenhas, a radicar numa sonoridade que traz de volta os The Dandy Warhols. O sétimo tema, “Birth Of A Nation”, mata todas e mais algumas saudades dos Pulp, depois de, muito remotamente, trazer de volta o “China Girl” do Bowie. No tema seguinte, há um baixo-quase-Joy Division. Seria redutor? Ou apenas profundamente errado? Certo!

Closing Time não é o disco que reinventa os Erland & The Carnival. É um manifesto: “Somos o que nos apetecer, mas em bom.” Estão tão seguros disso que o primeiro tema poderia desencorajar quem opta por uma rápida audição naqueles headphones das lojas. Ninguém poderá imaginar o que vem depois. As piscadelas de olho e os demorados abraços a tudo e a todos, desde que seja música. Boa Música. Há uma voz gravíssima que canta “I’m all wrong, can you help me?” e pensamos “All Wrong? Mas estão doidos? Isto está tudo certíssimo.” Em “Quiet Love”, chora-se “I quite like to be alone, I don’t mind where I fall”, num Instant Classic que, porém, não se pense que traduz a obra que estes dez temas encerram. Em “Radiation”, sussurra-se “Puxa os lençóis para ti”, com um piano em volta, num tema que poderíamos cantar ao nosso grande amor ou ao nosso filho ao deitar, ou seja, ao nosso grande amor. Em “Is It Long Til It’s Over”, há aquela magia que só um bom baixo consegue fazer, principalmente se completado por um Hammond. A mais-valia de um órgão apontado e disparado com precisão cirúrgica regressa em “That’s The Way It Should Have Beg”, num crescendo que tudo muda e liquefaz numa sonoridade que é a característica principal dos Erland: não ser nada e simultaneamente tudo o que remotamente faz lembrar: Este é um disco de mil géneros, onde os mais pequenos detalhes são tão preciosos como as aparentemente inócuas frases como: “Estão a falar de ti e é demais para mim” ou “Podias ser tão melhor que eu”, mas que fazem um todo ao qual não podemos fugir com os afectos.

Não estamos perante a reinvenção de nada. Estamos só diante da mera sugestão da reinvenção de nós próprios: ideias pré-concebidas? Não, obrigado!