Não é preciso ser uma casa para se estar assombrado, a afirmação não é nossa, é de Madeline Johnston e remonta já a 2016, ano em que edita, enquanto Sister Grotto – um dos seus múltiplos alter-egos – a cassete com o mesmo nome. You Don’t Have To Be A House To Be Haunted, apenas um dos muitos ângulos dos rostos da compositora de Denver, era já nessa altura um dos seus caminhos que se cruzavam em si mesmos, uma das encruzilhadas onde ia tecendo canções e feitiços lofi de ruído e nostalgia, de pop e drone e onde se deixavam oferendas e trabalhos de estranhas formas de gaze e sonhos de beleza impar a delinear silhuetas de desespero gritante, sussurrado e estenuante. Johnston era ao mesmo tempo, a solo ou num jogo astral a pares, Midwife, Mariposa, Reighnbeau e Sister Grotto, a mais activa das suas personas.

A Whited Sepulchre Records, editora do Ohio com um bloodbuzz por edições especiais e de tiragem realmente limitada e de colecção, reeditou já este ano Like Author, Like Daughter, álbum de 2017 de Madeline assinado como Midwife. Johnston surge aqui, acompanhada de Tucker Theodore, como a mais estruturada e cristalina das suas encarnações pintada a subtil barulho de fundo laminar enquanto se deita numa marquesa de auto-análise emocional e romântica para observações e encontros com um EU cruel e assombrado em direcção à catarse. Ainda que, practicamente sempre, triste e de tão poucas luzes para tantos túneis a atravessar de fárois de nevoiro sem funcionar.

Like Author, Like Daughter foi fruto de uma residência artistica de um ano no Rhinoceropolis, espaço DIY encerrado no final de 2018, tal como outros espaços semelhantes que serviam como satélites multidisciplinares a artistas independentes, que foram fechados depois da tragédia do Ghost Ship em Oakland.

Madeline já editou entretanto o EP Prayer Hands em Julho de 2018, também com selo Whited Sepulchre Records, onde dá continuidade à viagem interior de manipulação de memórias da dor recuperando todos os elementos quimicos e emocionais com que inventou o até agora único longa-duração enquanto Midwife, montando um novo altar para ser adorada pelos fiéis seja da pop mais dream, do drone melódico, de um shoegaze mortuário ou simplesmente – e a música de Madeline Johnston tem tanto de simples como de complexa e de tão bem equilibrada entre estes dois polos na balança do som – dos sensitivos, dos outcasts emocionais e dos corações partidos até à próxima encarnação.

Os amantes despedaçados e os amantes de Grouper, Daughter, Slowdive ou Beach House podem descobrir-se e descobrir na música de Midwife os restos de um naufrágio parecido com o seu. A miséria gosta de companhia, não é? O caminho para fora dela tem na música de Madeline uma das melhores companhias que vão ouvir este ano… ou numa viagem até 2017.