A este ponto da primavera está quase a fazer um ano desde que ‘Alfarroba’ se revelou ao mundo. O segundo disco a sair da mente conjunta de duas irmãs lisboetas foi o mesmo que lhes acendeu o rastilho e fez explodir a pólvora que desde o início lhes foi inerente. Com ele veio a editora Upset The Rhythm, os formatos em vinil, numerosos reconhecimentos nacionais e internacionais de peso e claro, a exportação pela Europa. O Pega Monstro de Maria e Júlia Reis lançou-se por um 2015 e um 2016 afora, partindo paredes ao invés de esbarrar nelas. Aonde se irá colar (ou se irá colar em algum lado) ainda é uma questão em aberto, mas por agora a vida tem sido ocupada para as duas jovens ao longo de um caminho de trabalho e esforço que viu a poderosa mas discreta banda tornar-se numa das mais badaladas do certame nacional.

Encontro-me com Maria e Júlia no dia dos namorados, no piso que dá para o pátio aéreo da afamada Galeria Zé dos Bois. O 14 de fevereiro marca a última data de uma nova tour internacional que viu as Pega Monstro passar pelo Reino Unido e a Europa Central ao longo de dezenas de datas bem recebidas e entusiasmadas. “Têm sido uns dias incríveis. Vendemos os discos todos na estrada, o que é bom sinal”, conta Júlia, ainda arfando da azáfama do soundcheck. Daqui a pouco menos de uma hora, entraria então em palco, o fiel amigo e companheiro de editora, Éme, numa double bill adequadamente aromada a “homecoming show” a acabar então com a tournée.

Já nesse momento de preparação encontrei nas duas músicas uma postura assertiva e comprometida à sua causa. Sempre embrenhadas nos seus licks de bateria e nos oníricos uivos que compõem o seu som, as Pega Monstro conseguem transmitir à distância (como se evidenciaria igualmente pelo decorrer da noite) que estão aqui em primeiro lugar pela música. Não obstante, a vida de um músico na estrada também passa obviamente por fazer ligações e absorver experiências e afecções, e reflectindo sobre estes últimos dias internacionais foi precisamente esse aspecto que o duo evidenciou. “Tu sais daqui e o teu objectivo é sempre o soundcheck e depois o gig. Há sempre nesse ambiente pessoas com quem tens que falar e posso dizer que todas vezes foi sempre bué fácil e enriquecedor”, Júlia explica. Maria acrescenta: “Crias amizades que se calhar não farias de outra forma porque és um bocado obrigada a estar sozinha com as mesmas pessoas, e é bom conhecer gente”.

Sentada uma ao lado da outra numa lustrosa poltrona antiga (há quem ouse chamar-lhe vintage), as duas irmãs partilham o cigarro do descanso, cruzando a perna para o mesmo lado. Embora o volumoso cabelo encaracolado denuncie em certa medida as relações de parentesco das duas, Júlia, de 23 anos e Maria, de 21, neste encontro, no entanto, parecem-me pessoas verdadeiramente distintas. Encolhida junto a um dos braços do sofá e falando num tom grave e pausado que por vezes enrolava o fim das suas frases, a vocalista e guitarrista das Pega Monstro tem um ar de sonhadora-acordada, parecendo estar embrenhada dentro do seu próprio mundo, um pouco como parece quando toca. O seu discurso lembra em várias medidas o stream of consciousness das letras que escreve, airoso e dito para dentro. Foi em tempos, também, ávida ouvinte de Valete, Regula e Nas. Já Júlia surge vívida e espevitada, rindo frequentemente e arregalando os olhos quando fala, dando respostas assertivas e sonantes que sem dúvida entram em conformidade com a sua postura directa e despachada e o desempenho fatal e imperdoável ao longo dos seus tentaculares ritmos de bateria, instrumento que começou a tocar para se poder juntar à sua primeira banda, Os Passos Em Volta.

Eu ainda ‘tou um bocado nesse mindset”, continua a baterista encaracolada, referindo-se ao ambiente ambulante, ao qual creditam uma boa faceta do percurso evolutivo recente da banda. “Conheces mais coisas, fazes mais coisas, falas com as pessoas”. É uma variedade de experiências, ambulantes ou não, que encontrou naturalmente o seu caminho para o campo da criação. “Acho que é como se faz qualquer coisa, sabes mais, cresces. Tipo passatempo”, continua. Às tantas a banda encontrou uma estrutura mais complexa e menos instintiva do que nos EP’s e homónimo. Mas uma maior noção e conhecimentos das capacidades e possibilidades criativas também pode pressupor agora uma veia mais estudada e elaborada, que vem com o aumento das fontes. Assim, também o tempo de composição pode vir a dilatar, como observa Maria: “Ultimamente tem demorado um bocado mais. ‘Tamos a fazer coisas mais complexas. Mas depende”.

Nós também tocamos os nossos instrumentos individualmente e há coisas que surgem e podemos mostrar uma à outra. Ou então podemos tocar em conjunto tipo jam e duma jam surge imediatamente a song e já ‘tá feita, quase”, acrescenta Júlia. Entretanto mais tarde vem a dizer como esse processo evolutivo combinado com o tempo adicional que agora tem para tocar (Júlia, por exemplo, já saiu da faculdade) também se empilha em cima daquilo que vem por trás: “Mesmo as [canções] do Alfarroba já transmutaram um bocado, porque ‘tás com um concerto, com um set, com uma forma de tocar e para incluir essa música é preciso ela fazer sentido”. Há uma sensação de constante intermutabilidade que chama constantemente à reinvenção : sobre tocar as músicas mais antigas, a baterista refere que o grupo vê as coisas muito mais sobre a perspectiva de uma actualização e não tanto a revisitação de um dado estádio ou textura. “Não é questão de ser impessoal. Não ‘tás a reproduzir, ‘tás interpretar e quando o estás a fazer não estás a voltar para trás, estás a fazer um novo baseado no que veio de trás. No limite, estás a fazer uma canção nova”.

Gravado em 2014 e lançado em 2015 já pela londrina Upset The Rhythm (o disco precede a entrada em cena da editora), é bem possível que aquando o seu lançamento, as músicas de Alfarroba já estivessem a meio de um processo mutante: “[O disco] foi nascendo (…) e crescendo. Foi uma cena que vais criando. Em estúdio é igual ao vivo no sentido em que tu vais fazendo e vendo que sons é que queres e curtes, por isso é uma cena que nunca podes definir muito bem à partida. Se definires, não vai correr muito bem como tu queres”, adverte Júlia. Maria reforça: “Se tu vais criar expectativas para uma cena, 100% das vezes não ‘tá de acordo. Não vale a pena”. Ainda assim, a banda afirma que apesar dos moldes livres, há uma certa consciência do progresso e a instauração de certos objectos. É aqui que a novidade Upset The Rhythm também entra para abrir certas portas, como o cumprir o desejo de fazer edições em vinil. “É fixe porque não tens de te preocupar com distribuição e dinheiro. E podes ter o disco como tu queres”, diz Maria. “E é mais fácil ir tocar ao UK, o que é brutal”, responde a irmã ao lado.

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Faz um frio algo desconfortável cá em cima, há uma corrente de ar manhosa a entrar debaixo da frecha da porta do pátio que parece não trancar completamente. Entre algum bater de dentes aproveito para perguntar às irmãs como estão em relação a Paredes de Coura actualmente. Ao que parece, a fase campista festivaleira já faz um bocado parte da história. “Já não vou…”, respondem juntas. Pergunto-me se a última vez terá sido assim tão desastrosa. “É só porque já não tenho paciência para acampar e essas cenas. É aquela cena específica para determinada altura”, continua a vocalista. “Toda a logística… e aquela subida insuportável. Só de pensar naquela subida já não vou a Paredes de Coura”, diz, entre risos, Júlia. “Agora só volto para tocar”.

Neste ponto, Maria refere algo que não poderia surpreender nenhum de nós. Prefere tocar em clubes. “Para a nossa música acho que é melhor”. Raramente encontradas em palcos de grandes dimensões, as irmãs passaram a boa parte dos últimos meses enfiadas dentro de salas minúsculas e claustrofóbicas, de tectos baixos e palcos com alturas de um degrau, os sítios onde se sentem mais confortáveis e onde a música delas realmente ressoa como é suposto. Na mesma ZdB, duas horas mais tarde, os litros de reverberação estariam a ricochetear por todos os cantos do pequeno aquário, fazendo com que fosse impossível escapar da densa névoa que é a música das Pega Monstro. Toda a textura da banda acaba por tocar um pouco nisso: um turbilhão de sons e volumes, todos emaranhados dentro de um pequeno globo que os contém. Dentro desse globo cabem uivos, riffs espacialmente prolongados e ritmos agressivos e quadrados numa unidade de som que já não é um jacto unilateral e com Alfarroba mais que nunca, torna-se oníricamente expansiva.

Falando sobre esta “desarrumação” sonora, Maria, a pessoa que escreve as letras, refere como a mistela também se expande para o lirismo e fica tudo a fazer parte do mesmo saco, dando azo às vezes a engraçadas ambiguidades. “Tem mais piada. Tem a ver com a estética que a gente tenta manter em concerto e no disco. É tudo muito molhado, muito confuso. Não precisas de perceber tudo, depois podes ler as letras no livrinho”. E nesse mesmo livrinho podemos tanto encontrar coisas que falam tão claramente como outras que parecem ter sido saídas de um baralhador de frases. A capacidade que as irmãs têm de se fazerem sentir tão universais e simultaneamente privarem o ouvinte de qualquer fio de nexo, é uma das características mais interessantes deste duo.

Alfarroba é um disco que soa muitas vezes a uma mente hiper confusa, cheia de sonhos, lembranças e aforismos, com pedaços de paisagens aqui e ali a misturarem-se com conceitos mais abstractos e surreais. “Não é necessariamente… eu fiz isto. Há coisas que são fantasias, são de um imaginário. Não é uma autobiografia, mas acaba por ser porque sou eu”, explica Maria. A conversa eventualmente vê-se a afunilar para a questão do espaço e do resguardo pessoal e aproveito para perguntar a Júlia se alguma vez leu ou ouviu uma letra de Pega Monstro e confrontou a irmã com um “temos que falar”. Risonha, Júlia refere que “quando leio, ou ouço e percebo é como se ela me estivesse a contar, por isso não pergunto”.

O disco e o restante espólio da banda acabam por ser um quadro que por fim terá mais a ver com as atmosferas pseudo fantásticas do movimento romântico do que propriamente a saturação do action painting de Pollock. Um pequeno e pontual detalhe, no meio duma espaçosa tela, poderá ser o suficiente para nos enviar na nossa própria viagem e esquecermo-nos um pouco do resto. Este detalhe poderá ser uma palavra ou expressão que nos fica a ecoar repetidamente devido à sua opaca semântica. “Isso é o que os brasileiros fazem. Quanto mais específica tornas uma coisa mais poder ela tem porque não estás só a dizer uma coisa vaga. Isso é mais importante do que ter um cliché”, argumenta Maria, cujo registo de escrita vem precisamente por “escrever como fala”. O tom muitas vezes confessional e íntimo é envolto por barreiras sonoras de riffs e ecos que encasulam as palavras no meio de um nevoeiro que baralha os timbres e texturas e dão azo muitas vezes, a curiosas ambiguidades, umas mais polémicas que outras. “É também fixe o pessoal criar as suas próprias imagens. Não é só ‘já sei o que é que ela está a dizer’”, diz Júlia.

Quando perguntei se esta protecção em relação à claridade das letras advinha das duas irmãs serem pessoas introvertidas, Júlia esclarece: “Eu não me considero introvertida. Mas somos duas pessoas bué diferentes. Eu falo mais do que escrevo, falo mais do que tu, [aponta para a irmã]. tenho mais necessidade. Mas isso não varia pelo facto de fazermos música”. Já Maria permanece silenciosa sobre este assunto. A vocalista é realmente a parte mais sucinta das Pega Monstro, nunca dizendo mais do que pensa e do que acha. “Tu quando estás a existir vês muita bullshit à tua frente a acontecer e quando estás a crescer cabe a ti seres ou não o filtro dessa bullshit”. O chamado keepin’ it real parece ser uma das atenções da banda, independente do esforço que para ele é despendido. Há uma certa aura de imediatismo e falta de cálculo que não implicam necessariamente descuido, mas assentam antes na realidade das experiências narradas e sentidas e transmissão sólida e directa das mesmas através dos discos e dos concertos. Por isso é que esta gente só canta sobre aquilo que sabe, aquilo que viu e aquilo que lhes diz respeito. A tal autobiografia mesclada onde as mais variadas e anónimas personagens e lugares surgem sob uma única e subjectiva perspectiva.

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Mas como sempre, é precisamente a vida, os lugares e as pessoas que colectivamente e exteriormente influenciam o universo singular interior de um indivíduo. Começando a tocar porque “tinham as coisas ligadas no quarto”, as irmãs Reis referem o crescimento num ambiente familiar artístico como um dos estímulos que as levou a unir forças em prol do som. Embora não se lembrem já da primeira vez que tocaram juntas, recordam ouvirem Zeca Afonso com os pais e de darem os primeiros passos no pop rock dos Ornatos Violeta, que foram transmitidos por influências juvenis mais velhas. “Nós temos mais dois irmãos e quando era a festa de fim de ano nós fazíamos um espetaculozinho para a família que envolvia poesia, música, teatro e et cetera. Acho que começou um bocado por aí. E depois o nosso irmão tocava guitarra e contrabaixo e foi aí que aprendi a tocar guitarra. Tinha lá uma em casa e comecei a tocar nela”. A simplicidade lógica com que Maria debita estas ocorrências diz muito sobre o modus operandi das Pega Monstro. Uma simplicidade derivada da força pragmática de criação e alicerçada puramente na vontade de fazer.

Foi essa mesma vontade e a crença de que o pegar num instrumento e fazer músicas está ao alcance de qualquer um, independentemente do dinheiro ou da técnica, que motivou a criação dos agora adormecidos Os Passos Em Volta, o primeiro filho da Cafetra e predecessor de Pega Monstro por um ano, quando as irmãs tinham à volta de 15 e 17 anos. Sobre Pega Monstro, Júlia lembra um estado de espírito que era da altura e continua ainda a correr: “A Maria tinha 15 anos e eu 17 quando começamos Pega Monstro e é o que sentes quando começas qualquer coisa. Entusiasmo e motivação. E é uma cena que na realidade continuas a sentir agora – o que é que sentiste, [Maria]?” – “Eu tinha 15 anos e ela 17”.

Foi então o que bastou para que nascesse uma banda que daí a meia década viesse sempre a crescer, proveniente de um contexto tão simples como terem os instrumentos ligados no mesmo quarto da irmã e poderem tocá-los em conjunto com a ambição pessoal de fazerem isto por si, porque lhes apetece, algo tão energeticamente registado no hino de apresentação d’Os Passos Em Volta aptamente intitulado de “Fetra”. “Essa música é sobre porque é que começas a tocar e a relevância que isso tem para ti. E a relevância que isso tinha para nós era mesmo só para nós. Era uma coisa que a gente fazia e que achávamos que toda gente tinha essa capacidade e ficaria mais feliz se o fizesse”.

Este “só para nós” ficou-me a ecoar na cabeça e por esta altura, entre o leve pingar da chuva e o omnipresente vento que uivava através da tal frecha, sinto-me com vontade de esclarecer então a outra Fetra cantada pelas irmãs, assinada já pelas Pega Monstro, onde também a reivindicação pessoal na feitura de uma canção é bem assente na letra do tema. “É que só pode ser boa se for para ti primeiro”, diz Maria. Mas, como Júlia viria a notar logo a seguir, não é que este parâmetro seja o único que baste para um output seja de qualidade. A coisa é distribuída por camadas. “Começa num núcleo e depois tens outros níveis de profundidade. Tipo de explorares o teu instrumento e de explorares a tua performance ao vivo e tocares com outras pessoas. Vais sempre só aumentando os níveis, mas é preciso que o centro esteja lá. Não é superficial. Senão é uma coisa que se desvanece”. E é neste centro que entra o artista, que escreve e que toca, e a sua vontade pessoal, o tal “só para mim”. “Senão é impessoal. Coisas que não são pessoais não prevalecem”, remata Maria.

Eventualmente essa vontade pessoal vai culminar numa vontade de mostrar, que segundo elas, é a fase em que as coisas passam deveras a existir. “Isso só acontece com o que mostras. Se tu gravas em casa só para ti, isso não existe”, diz Maria. A música não se aguenta então sem um público, pergunto. “Tem que haver, porque tu estás a extrair um som e alguém tem que ouvir. Se uma árvore cai no meio do…”. “A questão do ser só para mim – intervém Júlia, que se endireita na poltrona – é porque tu quando estás ao vivo também estás com outras pessoas [a plateia, outros músicos], mas tens de ser tu a estar a lá”, aludindo ao facto de ter de ser a pessoa realmente a dar a cara, de ter de ser ela a exibir-se e a propôr-se a criar, pois o conteúdo dela vive. “Nem podes pensar doutra perspectiva, tens de estar TU a tocar para as outras pessoas”. A este ponto a conversa começa a levar a banda a falar de um certo compromisso, um que viabiliza todo este processo e que é na verdade, constantemente mais holístico à medida que se vai afastando da velha garagem ou quarto onde se ensaia.

“Claro que as outras pessoas também interessam porque és tu que estás a receber isso também. Por isso é que os nossos concertos variam tanto com o público e com o espaço. Porque as circunstâncias interessam. Não é uma redoma em lado nenhum, depende o sítio onde ensaias. Tudo o que fazes depende de tudo e de onde estás. Essa questão do “pra mim” é porque tu tens de desfrutar daquilo que fazes”, conclui calmamente, Júlia. A irmã ainda responde do outro lado: “E tens de descomplexar, senão não crias nada, ‘tás só nos teus enredos”. A este ponto, num gesto de sintonia, ambas cruzam os olhares e quebram o momento de silêncio com um pequeno riso entre dentes, como quem achou uma certa piada ao que acabou de dizer. Talvez se tenham impressionado com tamanha eloquência, mas certo é que as palavras que libertaram foram carregadas de uma real certeza e genuinidade, hábeis a ilustrar a essência e a direcção que a jovem banda pretende tomar.

No fundo, tudo acaba por se resumir numa questão de iniciativa, segundo as irmãs, de levantar e fazer e isso é em parte, a razão pelos quais os concertos de Pega Monstro têm sempre uma leva airosa por entre toda a densidade. Em palco, tanto uma como outra lança-se ao seu instrumento e deixa a composição rolar, por mais simples ou intrincada que esta esteja a ser no momento. É uma “arte de rockar” sem nenhum compromisso para além daquele com o espírito e do próprio gozo em cima do palco que faz com lá estar em cima pareça tão fácil que põe as próprias irmãs a voar em alta velocidade pela sala. Estejam elas a cantar sobre coisas mais mundanas (ou não) como aftas, o Satriani ou a correr para o interior das mais ternas memórias algarvias, as Pega Monstro encontram sempre o seu combustível. Ultimamente, a própria vida de estrada tem servido para a refinação de uma outra fonte de energia: a experimentação. Pensando já em como é que o duo irá evoluir a partir de Alfarroba, as irmãs referem uma lógica, que muito em conformidade com o ambiente onde têm estado, se relaciona com o percurso.

[as novas canções] Partem um bocado da ideia que tu podes estender uma coisa ao máximo e fragmentar em pedaços de sensações”, explica Maria. “O que temos tocado tem sido mais livre que muitas coisas. Reflecte as experiências e também o que te dá mais gozo tocar. Está mais ‘viagem…’”, diz Júlia, reflectindo sobre o que tem ouvido e tocado. Este estado de viagem, de constante movimento e de progressão contínua parece ser o momento onde a banda se sente mais confortável agora, preferindo ir descobrindo e desvendando caminhos aos poucos, ao invés de traçar noções muito fixas do que se quer e para onde se vai. Júlia atenta que a questão aqui “É não ficar demasiado obcecado com o futuro senão se fores pegar por aí podes pensar em montes de cenas. À partida a ideia é sempre [bate com as palmas no joelho] ficar melhor”. Ser melhor é certamente um objectivo que todos nós seres humanos nos podemos propor a perseguir por um caminho de várias fases e configurações. No caso específico deste par, a meio dele já sabem quem são, já o resto vai-se fazendo. A rockar.