Transitar pela cidade de São Paulo, seja de carro, bicicleta, a pé ou transporte coletivo é sempre um exercício que requer paciência de Jó no meio do caos da megalópole. Não importa o horário, mesmo que seja no início da tarde de uma quarta-feira: sair da Zona Leste para chegar ao centro de ônibus e metrô é vivenciar um nano-pandemônio.

Mas nada de desanimar. Afinal, consegui marcar uma entrevista com Fausto Oi e Wash de Souza, respectivamente o guitarrista e o baixista do Eu Serei a Hiena, dois quartos da banda/projeto cultuadíssimo do rock alternativo paulistano que, após um longo hiato, volta a se reunir para uma pequena e aguardada turnê com início marcado para este sábado, na abertura do show do Quicksand.

De início, a entrevista seria realizada por email. Culpa minha. E não é que eu não goste do formato, mas sou um cara sinestésico, por isso prefiro o tetê-à-tête à impessoalidade do correio virtual. Combinei com o assessor da produtora que está agitando o evento do final de semana que me encontraria às 13h30 com o Fausto na 255, loja mítica localizada no segundo andar da Galeria do Rock e local de trabalho do cara. Dez minutos depois chega o Wash e partimos para o Subte, um restaurante vegan localizado num prédio vizinho à Galeria Olido. Afinal, era o horário de almoço do Fausto.

Entre ajustes no gravador do celular e conversas entre eles sobre os detalhes logísticos das datas confirmadas na agenda da banda, que conta ainda com Juninho (Ratos de Porão/O Inimigo e várias outras bandas seminais) na outra guitarra e Nino Tenório na bateria, o Lázaro, funcionário gente fina do estabelecimento, anota os pedidos. Fausto, vegetariano e straight edge, vai de feijoada vegan. Wash e eu ficamos numa cerveja ipa surreal. “Se deixar, falamos por umas três horas”, observa profeticamente Fausto, já servido de seu belo prato de feijuca. Dou mais um gole na cerveja – na próxima te pago uma, Wash! – ajeito o bom e velho bloco de anotações e pronto! Vamos começar:

Como foi o primeiro contato de vocês com a música? Quais bandas ouviram na infância e adolescência e que trouxeram vocês até aqui?

(Wash respira profundamente como quem organiza uma torrente de recordações, sorri de soslaio e responde) Nossa… sei lá! Eu escuto música desde que eu entendo como essa coisa de música funciona. Desde criança. Meu pai não era muito específico, mas mantinha uma discografia baseada nos anos 1970 que ia de Roberto Carlos e Creedence a Kraftwerk e Blondie. Nos anos 1980, peguei os caminhos mais alternativos de U2 e Midnight Oil, que era o que rolava nas rádios. Comecei a descobrir música sozinho, de nicho, com alguns programas como o Garagem (atração apresentada pelos jornalistas André Barcinski e André Forastieri, além de Paulo César Martin e Álvaro Pereira Júnior que foi ao ar em 1992 pela Gazeta FM de São Paulo, e logo depois pela Brasil 2000). Outros da 89 FM e 97 FM. Depois conheci pessoas que gostavam do mesmo som que eu e foi uma transformação natural.

Fausto: A formação do meu gosto musical foi um pouco diferente da do Wash. Eu não tinha uma discografia, o que tinha em casa era um aparelho de rádio rudimentar que era uma espécie de toca-fitas de carro. Só tinha quatro fitas K7 em casa: Abba, Raul Seixas, Carmina Burana e Simon & Garfunkel. Depois meu pai comprou uma do Trem da Alegria e outra do Balão Mágico. Tudo para convencer minha irmã e eu a irmos ao dentista.

Wash: Cara, nunca gostei dessas paradas de Xuxa, Balão Mágico e Trem da Alegria. Nem quando eu era criança!

Com sua camiseta do duo de folk formado por Paul Simon e Art Garfunkel, Fausto responde:

Sério? Eu tive esse contato. Lembro-me até de fingir estar doente para faltar à escola para ficar assistindo o programa da Xuxa, Sérgio Mallandro, Mara-Maravilha e Angélica. O que ficou até hoje e é um dos meus preferidos é o Simon & Garfunkel. Minha irmã é um pouco mais velha que eu e na infância era viciada em Menudo e New Kids On the Block, então por consequência eu ouvia também. Aprendi inglês com as letras das músicas que vinham nas revistas que ela comprava. O rock veio com a primeira passagem do Guns N’ Roses pelo Brasil (Rock in Rio 1991). A Rede Globo passava alguns clips no final do ano e eu pirei com o clipe de “Sweet Child O’ Mine”. Aqueles riffs de guitarra poderosos mudaram minha vida! O ano de 1991 foi muito importante pra mim. Queria ouvir tudo de rock, assistir à MTV, gravar os programas de rádio em K7…

Wash: Gravar fita K7 era fundamental!

Fausto: O Guns foi a banda que me trouxe ao rock, mas o Black Album do Metallica fez de mim um fã pela primeira vez! O ano de 1991 foi decisivo e mudou tudo!

Eu Serei A Hiena por Cleyton Clemente

Eu Serei A Hiena por Cleyton Clemente

O ano de 1991 mudou a vida de muita gente…

Fausto: Sim! Veio o grunge, o Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden…

Wash: Esse período foi realizador. Bandas como o Hüsker que já existiam no final dos anos 1980, ficaram mais acessíveis por conta da onda do Nirvana. Eu pensava “isso já existia antes daquilo?”. Então trouxe à luz várias bandas que não chegavam aqui ( no Brasil).

Fausto: Eu ainda não sabia distinguir o que era punk, hard rock ou metal. Estava tão empolgado que queria ouvir qualquer coisa de rock!

Wash: Eu já tinha passado dessa fase do hard rock e do metal.

Fausto: Temos uma diferença de idade.

Quais são as idades de vocês?

Wash: 44.

Fausto: 38. São seis anos de diferença que impactam bastante na adolescência de cada um.

Wash: Quando eu tinha 18 anos, o Fausto tinha 12. Tenho dois irmãos bem mais novos que eu. Uma diferença de 14 e 17 anos. Quando fui morar no Japão, em 1998,  deixei meus vinis e uns 200 K7´s na minha casa, já que não podia levá-los. Foi muito louco voltar e ver os moleques de 12 anos pirando com o K7 dos 7 Seconds. Caralho, que bom que usaram isso bem enquanto estive fora!

Fausto: Você deixou aos seus irmãos um acesso, uma bagagem bem diferente do que eu tive.

O Guns foi a banda que me trouxe ao rock, mas o “Black Album” do Metallica fez de mim um fã pela primeira vez! O ano de 1991 foi decisivo e mudou tudo! – Fausto

Eu tinha seis anos e um primo mais velho já tinha uma pequena coleção de discos. Então eu ouvia no mesmo dia Xuxa e INXS.

Os anos 1980 eram muito doidos!, gargalha Wash entre um trago e outro na cerveja surpreendentemente ainda gelada.

E o punk? Como o Fausto observou, na época não tinha muita diferenciação do estilo. Quando vocês tomaram consciência da música e do discurso? E o straight edge?

Wash: Além dos programas de rádio que eu citei, tinha o Caixa Preta, que era apresentado pelo Sérgio Sá Leitão, hoje Ministro da Cultura do Brasil. Lá descobri The Stooges, Fugazi, The Cramps e The Replacements. Eu era um adolescente, morador do condomínio CECAP em Guarulhos e andava sozinho. De lá saíram Kiko Dinucci, meu parceiro musical por um tempo, Guilherme Valério e um pessoal que hoje possui bastante influência na música brasileira.

Começamos a andar juntos e eles me levaram para conhecer a Juventude Libertária, um grupo filiado à Anarchist Youth Federation (A.Y.F) e que se reunia no vão do MASP, em São Paulo.

Nesse momento comecei a entender as ideias do anarquismo, do punk e do straight edge. Não vou desenvolver muito porque embora eu não seja (straight edge), vejo como um braço do punk e que deve seguir seus preceitos. Mas sempre gostei de andar com os straight edges. Era uma galera que gostava do mesmo som que eu e não enchia a cara. Adolescente é foda, cara! Se você anda com uns punks muito cachaceiros, acaba encontrando confusão. E eu nunca fui um cara de confusão. Mesmo bebendo, eu colava com os caras. Eles só diziam para eu não dar vexame. Foi uma troca, sabe?

Eu escuto música desde que eu entendo como essa coisa de música funciona. Desde criança. Meu pai não era muito específico, mas mantinha uma discografia baseada nos anos 1970 que ia de Roberto Carlos e Creedence a Kraftwerk e Blondie. Nos anos 1980 peguei os caminhos mais alternativos de U2 e Midnight Oil, que era o que rolava nas rádios.” – Wash

Fausto: Por ser um “rockeiro de rádio”, eu conheci o punk mais mainstream. Em 1993, foram lançados dois discos icônicos: o Dookie do Green Day e o Smash do Offspring. Para a minha geração foi uma “virada na chave”. Não queria mais ouvir Iron Maiden e Metallica. Eram bandas mais jovens que os Ramones e o Bad Religion e os clipes que passavam na MTV transmitiam uma identificação visual e estética muito forte! Foi questão de tempo eu me aprofundar no que era lançado pelas gravadoras Epitaph Records e Fat Wreck Records.

O próximo passo então era montar a primeira banda…

Fausto: Eu queria ser baterista por causa do Lars Ülrich do Metallica, mas ter um instrumento desses em casa era muito difícil. Então eu ficava batucando no sofá e fazia das tampas das panelas os pratos da bateria. Minha irmã ganhou um violão do meu pai e um contrabaixo, mas desencanou logo. O professor de violão ficava ensinando ela a tocar valsa, mas ela queria tocar rock! Peguei os instrumentos dela, comprei algumas revistas com músicas da Legião Urbana e Paralamas do Sucesso e o namorado dela me ensinou alguns acordes. Em 1996, montei com um amigo da escola o Espoletões, minha primeira banda de punk rock. Eu não sabia tocar direito, mas foi muito massa! O primeiro ensaio foi num apartamento, à tarde, nós cabulamos aula. Era um baixo com umas cordas horríveis, uma bateria sem pratos e sem guitarra. Fizemos a guitarra num teclado. O pai do baterista tinha uma banda de karaokê japonês. No ensaio seguinte ele levou uma guitarra e o pedal de distorção. Aí foi foda! Ligar a guitarra na distorção foi uma parada muito mágica, sabe?! Tocamos no Hangar 110, gravamos fita demo. Eram músicas simples de três acordes com influências de Rancid, Boucing Souls e outras bandas que conhecemos na época. Em 1998 comecei a frequentar as Verduradas. Eu já não gostava muito de beber e ver essa galera que não bebia, não fumava e fazia um punk rock…me identifiquei na hora! Essa foi outra mudança na minha vida, talvez uma das maiores!

Wash: Formar uma banda hoje é bem diferente do que era 15 anos atrás. Naquela época você não precisava saber tocar muito bem. Hoje em dia a molecada monta a primeira banda e já quer (faz som virtuoso com a boca). Mano, eu comprei um baixo sem saber tocar. Falei para os caras do condomínio onde morava  “Vamos montar uma banda?” Os caras disseram “Vamos! Do que você gosta?” Um gostava de Led Zeppelin, o outro do Black Sabbath e eu dos Sex Pistols. Os caras “Tudo bem, não tem outro vai você mesmo !” Comecei e queria tocar “I Wanna Be Your Dog” dos Stooges. Não durou muito por conta de compatibilidade, claro! Depois montei o Eletric Sickness com o Kiko Dinucci e chamamos a Janaína Veneziani para cantar. Gravamos uma faixa para um compacto que saiu pela A.Y.F. A gente curtia uma coisa meio torta, tipo o Black Flag da fase “In My Head”, Saccharine Trust e Minutemen. Sempre peguei essa veia desconstruída, atonal…

Fausto: Teve um show no Hangar 110, acho que em 1998, que tocou Steet Bulldogs, Rethink,  Nitrominds e Infect, uma banda de meninas que não estava no cartaz. Eu pirei no som. O Wash tinha tocado nessa banda, gravado uma demo e eu pirei.  Nessa banda tocava o Juninho e o Nino, que são os outros membros do Eu Serei a Hiena. Eu nem imaginava que um dia fosse tocar com esses caras. Eu nem conhecia o Wash, ele já tinha ido embora para o Japão.

Wash: Antes disso o Eletric Sickness acabou e o Kiko Dinucci e eu montamos o Nitrate Kid com o Nino, o baterista do Eu Serei a Hiena. Nesse ponto, nós três já curtíamos pra caralho o Fugazi. Como não tínhamos nenhuma música, chegamos ao ensaio na dúvida. Um começou a tocar a primeira faixa do Repeater, a “Turnover”. Fizemos o set inteiro do Repeater sem parar, sem ter combinado nada.

…sempre gostei de andar com os straight edges. Era uma galera que gostava do mesmo som que eu e não enchia a cara. Adolescente é foda, cara! Se você anda com uns punks muito cachaceiros, acaba encontrando confusão. E eu nunca fui um cara de confusão. Mesmo bebendo, eu colava com os caras. Eles só diziam para eu não dar vexame. Foi uma troca, sabe? – Wash

Já era um som mais intrincado…

Wash: Bastante! A partir disso começamos a compor mais nessa linha. Paralelo ao Nitrate, fizemos o Rethink. O Nino, o Jorel e eu. Depois chamamos o Juninho, (guitarrista do Eu Serei a Hiena Hiena) para tocar. Quando voltei do Japão o Rethink já era uma banda bem considerada. Eles estavam fazendo vários shows. Um dia nos encontramos numa Verdurada e eles me chamaram para montar uma banda nova na linha de Hot Water Music e At The Drive-In. Então eu, Nino e o Juninho…

Fausto: Vou contar outro lado da história…

Então chegamos ao Hiena?

Fausto: Sim! O Juninho pensou em adicionar uma segunda guitarra ao Rethink e me chamou. Fiz “meio” ensaio porque o Jorel e o Nino brigaram no dia. Eles me falaram para tocar meio show. Eu disse: “Ok. Foi o último show da banda. Quando o Wash voltou do Japão, ele montou um estúdio. O Juninho falou “Então vamos montar uma banda na pegada do At The Drive-In?”, que era o que estávamos ouvindo na época. Nasceu  o Hiena!

Eu me lembro do surgimento do Hiena. Tinha tinha visto o Discarga (banda que contou com Juninho no baixo e Nino na bateria) várias vezes e achava um arregaço! O Nino fazia umas caretas meio alucinadas tocando bateria. Meio insano…

Wash: Eu acompanhei o Discarga numa tour europeia e foi um negócio impressionante! A cara das pessoas na plateia vendo a banda era tipo “Cara, que isso, mano?!”

O Juninho já estava no Ratos de Porão, o Fausto no Dance of Days, o Wash e o Nino também  já tocavam em bandas de certa forma consolidadas na cena punk/hardcore, com um público formado dentro deste nicho. Então foi uma surpresa quando apareceu o Hiena com um som completamente diferente. O que vocês queriam dizer com a banda? Qual era o objetivo?

Wash: Nós estávamos curtindo bandas com uma sonoridade diferenciada e nos achávamos capazes de fazer algo nessa linha com originalidade.

Fausto: Gostávamos do Fugazi e de outras bandas com esse som meio tortuoso. Era para ser uma banda com vocalista no início, mas tentamos com alguns amigos e não deu certo. Poderia ter sido uma banda mais comum, mas o que determinou a sonoridade foi desencanar de ter alguém cantando…

Wash: Um dia pensamos “Quer saber? Vamos fazer instrumental?

O Juninho pensou em adicionar uma segunda guitarra ao Rethink e me chamou. Fiz “meio” ensaio porque o Jorel e o Nino brigaram no dia. Eles me falaram para tocar meio show. Eu disse: “Ok. Foi o último show da banda. Quando o Wash voltou do Japão, ele montou um estúdio. O Juninho falou “Então vamos montar uma banda na pegada do At The Drive-In?”, que era o que estávamos ouvindo na época. Nasceu  o Hiena!” – Fausto

Mas teve algo relacionado à necessidade de afirmação de vocês como músicos?

Wash: Não. Nunca pretendi ficar famoso e ganhar dinheiro com a música. Se a gente quisesse, até faríamos, mas aí entram alguns princípios, como a ética, suas prioridades. Não que não seja legal ganhar dinheiro com música, mas você acaba tendo que se vender de uma forma ruim para ter lucro. Pelo menos em nosso ambiente. O rock não é uma preferência brasileira, então o nicho é muito menor. Se a gente escolhesse fazer MPB nos segmentos mais modernos que a música proporciona… Nossa intenção sempre foi fazer um som de que gostamos…

Fausto: Pretensão zero!

Wash: O ponto em comum entre todos nós é o punk rock. Os elementos inseridos a seguir foram questão de tempo e de entendimento. Para aonde vai isso? E aquilo, sabe? Ver onde as coisas se encaixavam. Quando um de nós dizia “cara, tá muito torto!”, o outro “não, vamos lá! Vai dar certo!

E em 2005 nasce o debut, certo?

Fausto: Isso! Eu tinha saído do Dance of Days em 2002por conta da faculdade e me lembro que fizemos um ensaio com o Marcelo Fonseca no vocal. Não rolou…

Wash: Nós viramos uma banda mesmo quando decidimos seguir sem um vocalista, em 2003. Passamos dois anos ensaiando, nos divertindo. Chegou um momento em que tínhamos umas seis músicas e pensamos em gravar uma demo para registrar. Falamos com o Ailton (dono da Travolta Discos). E ele nos perguntou “por que não gravarmos um cd?” Nós dissemos ”ok”. Convidamos alguns amigos para criar letras e cantar em algumas faixas, como o Farofa (Garage Fuzz) na “The Lateral”, o Rodrigo (Dead Fish) na “Asterix” e o Nekro ( Boom Boom Kid) na “Do the Free the Borders”. Cada um dos três vocalistas que fazem participação especial tiveram total liberdade para criar as letras. E todas elas tem a ver com um ponto em comum: o convívio entre as pessoas, imigração. O Farofa fala sobre uma paranoia desenvolvida pelas informações da TV; o Rodrigo fala de uma terra estranha com pessoas que precisam conquistar e conviver e o Nekro fala sobre a passagem de um país ao outro dentro de um aeroporto com fronteiras definidas. Então, meio que sem querer, os temas convergiram. O Maurício Takara (Hurtmold) e o Thiago Chakal remixaram mais duas músicas e pronto! Tínhamos um disco!

Fausto: O primordial foi o Aílton ter se interessado em lançar o material pela Travolta Discos, um selo novo. Ali começamos a nos enxergar como uma banda ao invés de um projeto de amigos. Começou a ficar sério…

Wash: Ficou sério! O cara tá lançando seu trabalho e você tem no mínimo uma obrigação com ele de fazer show e tentar vender o produto que ele está lançando.

Quando você tem uma banda com vocalista, mesmo que a poesia seja um pouco mais intrincada, abstrata, a composição leva em consideração as métricas para inserir a voz. Como é o processo de comunicação entre a banda para criar elementos e construir essas camadas instrumentais? Tem muito improviso?

Wash: A funcionalidade de cada instrumento, né? A construção de camadas é muito interessente. Manter uma linha, outro instrumento que estava acompanhando parte para uma segunda linha e outro instrumento para uma terceira linha. Então todos estão entrosados, mas fazendo coisas distintas ao mesmo tempo. Você tem um esqueleto básico que na verdade não significa quase nada. A composição flui. Alguém traz uma partícula e dali em diante cada um adiciona sua parte até chegar a uma música. Temos um lance até certo ponto experimentativo, mas nada que fuja dos padrões. Nossas músicas seguem uma estrutura chorus, versus, chorus. Frase principal, refrão e volta para a frase inicial. É uma estrutura bem definida. Não há muitas viradas. Inserimos algumas extensões experimentais…

Fausto: As músicas com vocais tiveram letras escritas por quem cantou. Não ampliamos nada para encaixar métricas, era aquela base.

Wash: No início as letras foram um problema para nós. Pensamos em compor em português, mas é muito difícil. Elas dependem muito mais de uma poesia que não force a barra, mas que também não seja muito pobre.  Se você pegar as letras de Chuck Berry, Elvis, são coisas muito primordiais. Muito “baby,baby” ou “shaking baby”. Como traduzir isso para o português? Fica meio pobre, nossa língua exige mais na hora da composição. Por isso que caras como Humberto Gessinger extrapolaram essa ideia e foram mal compreendidos por tentarem poetizar demais e não funcionou! Sempre achei mais fácil criar frases de guitarra ou linhas de bateria. Descartamos um problema no momento ao não inserir letras. Definimos que não haveria nada político ou poético, somente a música.

Fausto: Não somos músicos super virtuosos e estudados, sabe?

Wash: Costumamos dizer que tentamos fazer jazz com a cabeça de punk.

Fausto: Talvez se tivéssemos apenas lançado a demo a parada teria ficado pequena. Como lançamos um cd, saímos para tocar em vários lugares e vimos que o público gostou. Então surgiu a ideia de gravar material novo.

Wash:  Entre 2005 e 2009 fizemos bastantes shows.

No início as letras foram um problema para nós. Pensamos em compor em português, mas é muito difícil. Elas dependem muito mais de uma poesia que não force a barra, mas que também não seja muito pobre.  Se você pegar as letras de Chuck Berry, Elvis, são coisas muito primordiais. Muito “baby,baby” ou “shaking baby”. Como traduzir isso para o português? Fica meio pobre, nossa língua exige mais na hora da composição. Por isso que caras como Humberto Gessinger extrapolaram essa ideia e foram mal compreendidos por tentarem poetizar demais e não funcionou!” – Wash

Em 2009 saiu o Hominis Canidade. Os temas ficaram mais intrincados, mais complexos. As participações especiais não se restringiram apenas a artistas ligados ao hardcore punk. A Bluebell canta na faixa “Yes (I Do)”, que em minha opinião é a melhor dos dois discos. Tem também a participação do Daniel Ganjaman. Foi algo natural o processo de amadurecimento para este disco?

Wash: A  linha de pensamento era a mesma. Só as músicas que mudaram…Quando lançamos o primeiro EP, já tínhamos umas três  músicas guardadas, então trabalhar no segundo disco foi mais rápido.

Fausto: O primeiro disco foi um start. O Hominis Canidae marca uma evolução por conta da quantidade de ensaios e shows. Composições e ideias. A capa feita pelo artista plástico Tony “SuperXoXo” para o disco foi muito bem elaborada. As músicas também estavam mais pensadas. Foi bem legal gravá-las e tocá-las Então a quantidade de músicas e o projeto gráfico formam um conceito. A galera gostou bastante! Tanto que rolou convite para tocarmos no Nordeste, algo que para uma banda sem pretensões era algo impensável. Fizemos 3 shows: Natal, Recife e João Pessoa.

Wash:  Faltaram várias capitais, mas não rolou entendimento de ir até lá por conta dos gastos. Fortaleza e Salvador ficaram interessadas, então dava para ter feito um roteiro inteiro, mas só conseguimos ir às três cidades. Talvez hoje conseguíssemos fazer o roteiro inteiro no Nordeste.

Vocês estão voltando. Quem sabe?

Fausto: Na verdade a banda está se reunindo. Temos a ideia de fazer uns três meses de shows…

Antes dessa reunião, que começa com o show de abertura para o Quicksand em São Paulo, no próximo sábado, vocês fizeram um show especial só com músicas do Fugazi. Antes disso, quando tinha sido o último show oficial de vocês?

Fausto: Foi um show no aniversário do Wash, mas a banda estava parada. Acho que em 2014. Estávamos conversando esses dias sobre quando foi o nosso último show antes de parar de vez, mas não conseguimos nos lembrar.

E por que vocês estão voltando agora? São ao menos quatro anos parados…

Fausto: Falo por mim. Saudades, nunca deixei de gostar desses caras que são meus amigos. Não nos encontrávamos como banda há muito tempo, mas nos encontrávamos por aí para trocar ideia. Não tão constantemente. Nunca deixei de gostar das músicas e de tocá-las ao vivo.

Wash: Sempre que nos encontrávamos a gente comentava  que seria ótimo fazer um show algum dia, mas nunca aconteceu. Porque além de ter de ensaiar várias vezes. Eu tinha esquecido de como tocar essas músicas. Agora que ensaiamos me lembrei. Acredito que para os outros também. Não ficamos tocando elas em casa. Tem que agendar show, ver o deslocamento. Isso dá trabalho!

Fausto: Chegamos até a criar um grupo no Whatsapp para trocar ideias…

Tudo acontece pelo Whatsapp hoje em dia.

Wash:  E é mesmo! O Fausto falou que o Leandro Carbonato (Powerline) nos convidou para abrir o show do Quicksand. Todos nos empolgamos na hora! Porra, Quicksand é muito da hora! Foi o start…

E o que rolou primeiro? O convite para abrir para o Quicksand ou a ideia de uma reunião?

Wash: O convite. Estávamos sem tocar e de repente, por que não? Aceitamos, né?!

E o Quicksand é uma influência? Vocês curtem bastante?

Fausto: Sim e muito! Uma sonoridade mais densa…

Wash:  Muito! É uma puta influência sonora com aqueles tempos picados, intrincados… tipo um Fugazi mais pesado, mais denso…

Tá ali no meio do caminho entre o Fugazi e o Helmet, né?

Wash:  Exato! Eu gosto demais dessas linhas…

Fausto:  Tem um parêntese. Voltamos a nos vermos como banda. A gente tocou bastante em São Paulo, mas todos sempre tivemos outras bandas ou ocupações que brecavam as coisas, sabe?

Wash: Afinal não podemos nos esquecer que trata-se de um projeto. As pessoas têm bandas mais importantes. O Juninho vive do Ratos de Porão. É a fonte de renda do cara. Você não pode exigir que ele se dedique mais ao Ratos do que a nós. O Fausto se dedicava ao Dance of  Days até sair e ao Good Intentions. Eu nunca tive uma banda principal, só projetos como o Tri-Lambda com o Barata, do Test. Como o guitarrista mora em Portugal, hoje a banda não tem condições para se reunir, mas quem sabe um dia? Eu tinha uma banda chamada Isósceles Kramer que tinha uma sonoridade mais atonal em que eu compus a maioria das músicas.  Como eu não ganhava dinheiro com nenhuma , conseguia me dedicar igualmente a todas elas. Por isso, nunca descentralizamos a ideia de que era um projeto e que nos reuniríamos assim que todos pudéssemos. Inclusive não estamos compondo no momento…

Mas vocês pensam em gravar material novo para um próximo disco?

Wash:  Vai depender do tempo disponível de cada um da banda.

O que me chama atenção em várias bandas como o Mogwai  ou Explosions in the Sky e várias outras instrumentais são os títulos dos temas. Eu separei algumas faixas e gostaria que vocês comentassem os títulos. A “Sob Influência do Teste Voight – Kempff”. O conceito foi  retirado do filme Blade Runner e traz “As 30 perguntas para descobrir se o sujeito é um replicante”. A literatura e o cinema são influências no processo criativo da banda?

Wash:  Sim! Inclusive depois de um tempo que começamos a nos enfiar nesse lance, eu comecei a ouvir trilhas sonoras de filmes e senti que começamos a fazer alguns temas que tinham mais a ver com as telas. Em alguns shows tocamos uma música do Enio Morricone. Acho a complexidade dos temas dele incríveis com aqueles tempos malucos que só podem ser lidos com partitura! Tinha tudo a ver com a complexidade estrutural que estávamos tentando criar, então por que não utilizar cinema e literatura como fontes? Eu uso bastante!

Tem também dois temas em japonês: “Chotto Machigatte Iru”, do primeiro EP e “Moikai Machigau (In Tha Jungle)”…Como vocês escolhem os títulos?

Fausto: O Wash é o cara dos títulos!

Wash: “Chotto” signica algo como “meio fora de centro” ou “feito meio errado”. Que é mais ou menos o que é essa música. Têm algumas partes  em que ela para e depois volta num acorde que eu acho muito bizarro. Até hoje quando toco penso em como é bizarro! E depois ela volta ao tema central. Esse tema tem umas variadas que ficam bem tortas e depois voltam ao tempo normal. Ela é linear, mas com algumas ”tortuoses”. “Moikai Machigau” é “mais uma vez torto”.

Fausto: Porque ela é meio que uma continuação da outra.

Mudando de assunto. Tenho uma impressão. No início dos anos 2000, a cena de hardcore punk contava com muitas, mas muitas bandas mesmo! Não faltavam lugares para a galera tocar. Hoje não sinto que tenha tanta abundância em nenhum aspecto. Alguns lugares como o antológico Hangar 110 fecharam as portas. Vejo muita gente das antigas formando novas bandas, mas não novas bandas de fato. Claro que não estamos em todos os lugares para saber, mas chega pouca coisa…

Wash:  Realmente deu um puta recuo!

Fausto: Nessa época  tinha muita gente bem jovem ouvindo esse tipo de som. Então se a pessoa gostasse de bandas independentes, nacionais, que fossem pop, até na onda do emo. Não importa…

A Verdurada estava bombando! Um evento grande! Tinha muita gente querendo ver de tudo. Ou seja, tinha que ter casa para atender a demanda, bandas de todos os subgêneros para todas as demandas de som. Gente nova formando bandas e indo aos shows.  Consumindo merchandising e pagando ingressos. Hoje em dia essa galera jovem não está no rock underground, no rock. Talvez no rap…

Wash: Além do rap, na música eletrônica e na nova música brasileira. O novo consumidor de música está mais nesses nichos. A cena de música eletrônica está muito maior agora do que era nos anos 2000. Enquanto o pessoal do rock deu uma diminuída. Outro fator, pelo menos aqui na cidade de São Paulo, são as interdições das subprefeituras. Hoje é muito mais difícil você montar um clube na cidade do que há 10 ou 15 anos. Tem muito mais leis ou implicações. As pessoas estão intolerantes com o barulho. Qualquer clube que abrir  as portas no Centro vai ter problemas com a Prefeitura. Eu tenho um bar e a casa noturna ao lado têm problemas com a vizinhança o tempo todo! A cidade está num momento de intolerância com a juventude e o barulho e isso dificulta a proliferação de casas noturnas. Isso colabora com a falta de lugares para tocar. Se você não tem lugar para tocar…

Nessa época tinha muita gente bem jovem ouvindo esse tipo de som. Então se a pessoa gostasse de bandas independentes, nacionais, que fossem pop, até na onda do emo. Não importa… – Fausto

Para finalizar,  acham que o punk pode resistir?

Wash: Ah! Já teve umas três reações na vida, né?! Nos anos 1960 surgiu um núcleo proto-punk com MC5, Stooges, New York Dolls. Dez anos depois o punk veio de verdade. Quinze anos depois teve um revival punk com a Epitaph Records e a Fat Wreck Records…

Fausto: Teve também o hardcore americano no começo dos anos 1980.

Wash: Ele (o punk) sempre acha um jeito de se renovar.

Fausto: Existem alguns ciclos e não conseguimos mensurar o tempo que vai levar ou o que será uma retomada do punk. Tem uma galera produzindo. Será que eles serão essa tal retomada? Não sei, não tem tanto volume…

Wash: É! Até atingir o “mainstream” que atingiu há dez anos será difícil. Talvez seja melhor, não quero dizer que quero deixar o punk para pessoas especiais que o merecem, mas tem que entender que não é só o som ou seu visual. Então se você vive sua vida com esses preceitos que você compreendeu, isso é punk! Nunca vou deixar de ser punk.

Eu Serei A Hiena

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