As viagens mais inspiradoras e recompensadoras são geralmente as menos planeadas, com acontecimentos que espreitam em cada esquina, feito armadilha no escuro ou tigre prestes a atacar. É sempre e somente de onde menos se espera que podem vir grandes surpresas.

Do sempre ensolarado México – pelo menos em fantasias tolas -, os Exploded View são uma dessas grandes e insólitas aventuras. Contrastando com o Eterno Verão mexicano, o som que o trio composto pela inglesa Anika, o sueco Matrin Thulin e o mexicano Hugo Quezada produz transita entre o sombrio, o sexy e o ameaçador, algo que imaginações viciadas estão adestradas a relacionar exclusivamente com lugares como Berlim ou, talvez, Nova Iorque. Porém, o som livre e com ares de improviso produzido pelo grupo não só desafia esse tipo de leitura simplória, mas parece também flutuar com facilidade e desapegado de categorizações.

Os primeiros  singles de Obey, o próximo álbum da banda, “Raven Raven” e “Sleepers”,  vibram com batidas quasi-Leibzeitianas e cintila com fragmentos de guitarras, dir-se-ia sem medo de exageros expressionistas, ambos reverberando os bons tempos dos Can e seu krautrock único (e fabuloso). Acima de tudo isso, os vocais de Anika dão contornos confortáveis e modernos à música. Ainda que as novas músicas soem menos fragmentadas e desafiantes que as 11 canções que compõem seu primeiro e imperdível disco – homônimo, de 2016 -, essas novas faixas soam bem alinhadas ao EP de 2017, o fenomenal Summer Came Early.

Esta tendência fica para ser confirmada para todas as 10 faixas do próximo disco, esperando-se mais dessas lindas e contagiantes baterias motorik impulsionando o trio e convidando corpos a se moverem, enquanto Anika soa como uma sereia transcendental do espaço sideral com sua voz hipnótica, pairando acima de todo esse belo caos controlado. Músicas como “Mirror Of The Madman” e “You Got A Problem Son” – ambas presentes no EP de 2017, assim como a faixa título -, já seriam material suficiente pra eriçar pêlos e atrair toda atenção disponível para o novo trabalho dos Exploded View. Que consigam ser tão consistentes e inspirados desde o primeiro disco, para uma banda tão jovem, é de facto impressionante e faz com que Obey entre já para a lista dos álbuns mais esperados do ano, da qual, imagina-se, migrará para uma ainda mais ilustre, a de melhores lançamentos de 2018.

Uma sugestão-de-amigo-do-peito para se preparar para chegada de Obey a 28 de Setembro, editado pela sempre recomendável Sacred Bones, é enterrar-se até os ouvidos em tudo que o grupo lançou até hoje. Do primeiro disco, “Lost Illusions”, “Orlando” e “Disco Glove” são três das músicas mais perfeitas pelas quais se começar, as que mostram a banda em seus elementos mais marcantes, nomeada e respectivamente, ritmos hipnóticos e faixas que obrigam a dançar de olho fechado, mesmo que esteja sentado, e experimentalismo e agressividade pós-punkraut de primeira.

Em seguida, e depois de um play no EP Summer Came Early, é tentativa em vão não se apaixonar por todas as breves quatro faixas que se sucedem com perfeição matemática. Para concluir, é pôr o botão em repeat em “Raven Raven” e “Sleepers” até que elas estejam tatuadas nos tímpanos. Exploded View é um dos projectos mais maneiros que o jovem século XXI tem a oferecer.

Obey
01. Lullaby
02. Open Road
03. Dark Stains
04. Gone Tomorrow
05. Obey
06. Sleepers
07. Letting Go Of Childhood Dreams
08. Raven Raven (stream)
09. Come On Honey
10. Rant

Exploded View - Obey