O clima era soturno e remetia a sensação de se estar dentro de um filme de Alfred Hitchcock devido às referências arquitetônicas refletidas no próprio espaço, proporcionando aquele ar sombrio, misterioso e ao mesmo tempo sedutor. De repente a solidão, o desespero, o medo, a descrença, morte e, num estádio mais avançado, a libertação. Tudo de uma vez só, mergulhado em explosões de agressividade que precisam ser apaziguadas em diferentes gradações. Os fãs saltavam do palco, empurravam-se uns aos outros e gritavam, exorcizando a si mesmo ao expor suas aflições com ditas nas próprias canções de Ludovic.

Esta foi apresentação de Ludovic no dia 09 de setembro, sábado passado às 21h30 no Centro Cultural Rio Verde, com as composições dos álbuns Servil (2004) e Idioma Morto (2006).  Originada em São Paulo no início do novo milénio, o quarteto é formado por Jair Naves (voz, baixo), Eduardo Praça (guitarra), Zeek Underwood (guitarra) e Rodrigo Monttorso (bateria). Depois de mais de dez anos desde o seu último disco Idioma Morto, a banda paulistana retornou a ativa em Março deste ano, lançando o inédito single “Inexorcizável (Um Zumbido Ensurdecedor)”, que entrou no repertório do show.

De certo que, foi sim, um encontro caótico, mas ao mesmo tempo emocionante entre banda e plateia devido à urgência com que todos ali se encontravam. Em algum momento se percebia a sensação de que tudo chegaria ao seu fim sem que houvesse o amanhã, envolvidos na solidão de um quarto escuro e vazio, umas das qualidades para as quais a banda ainda remete quando se trata de uma juventude louca e transviada do início dos anos 2000.

Algo naquela noite indicava um pressuposto de uma despedida e, claro, não poderia faltar o discurso do próprio Jair incentivando qualquer um da plateia a montar a sua própria banda de rock. E seja o que for Ludovic — e, especialmente, Idioma Morto —, se faz presente na cena do rock independente de São Paulo mesmo com as mudanças que ocorreram de lá pra cá com sua linguagem. Ludovic, na genética da sua voz, sonoridade, lirismo e performance, continua sendo Ludovic. Só que maduro.