Quem ainda não tinha reparado que Pure Comedy, a última colecção de canções de J. Tillman enquanto Father John Misty editada em abril deste ano, dispara um tão pungente quanto confessional rol de críticas à sociedade actual, à cultura do fragmento, ao sensacionalismo dos media, à actuação política – não só nos seus Estados Unidos natais como em termos globais -, dificilmente conseguirá ignorar a oposição à condição perversa das relações entre pessoas e entidades contida de forma satírica nos cartazes coloridos enterrados num deserto adornado por pneus velhos e carcaças de carros e pick-ups, cartazes esses que materializam a revolta enquanto instrumentos universais e fundamentais de protesto no início da nova narrativa visual oficial para “Things It Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution”.

No vídeo, passado numa sociedade distópica pós-apocalíptica assente nos despojos do falhanço, em todas as alíneas, do compromisso que esta assumiu na concentração de esforços para a libertação individual de cada ser humano, cabe um mundo inteiro de resistência à conivência particular com o estado das coisas e da presente ordem global. Tentando fazer passar a sua mensagem da forma mais clara possível, Father John entrega um vídeo embrulhado em animação realizado por Chris Hopewell – que tinha já realizado o vídeo para “Burn The Witch” dos Radiohead -, que se encontra carregado de representações essencialmente literais relativamente à letra da canção.

It got too hot
And so we overthrew the system
‘Cause there’s no place for human existence like right here

Expansiva, a melancolia alinhavada pelos pianos desalentados e as batidas lânguidas rematadas pela voz límpida e assertiva de J. Tillman acentuam o cenário de devastação retratado não só na canção como também em todo o disco. Pure Comedy foi editado a 7 de abril e é o terceiro registo de estúdio de Father John Misty, um disco que reflecte uma clara mudança no conteúdo lírico do ex-Fleet Foxes, atirando assim para bem longe os contos sobre o amor e trazendo para junto de si a missão de mudar o mundo, nem que seja só um bocadinho.