O Outono chegou silencioso e instalou-se na pele e nas árvores. Com ele, em passos delicados sobre as folhas caídas Agnes Obel e a sua nova dádiva em forma de álbum, Citizen Of Glass da Play It Again Sam. Depois de Philharmonics em 2010, ou Aventine em 2011, 21 de Outubro é a data que esperamos entre os prénuncios de chuva, mas guardamos já algumas das gotas límpidas do seu anúncio. Limpidez e Beleza, assim maíusculas e sem mais adjectivo, andam juntas nas músicas que fomos conhecendo – “Familiar”, “Green Gold”, “Stretch Your Eyes”.

Esta pérola chega de Berlim pelas mãos de uma artista dinamarquesa – é o norte que nos fala da sua magia fria. A formação clássica e o rigor musical são linhas de força que concretizam na sua música monumentos instrumentais, seja nos poderosos violoncelos, no protagonismo do piano ou do cravo, nos violinos. Mas não se pense que nesta conjugação de tempos da música, onde cabe ainda um sintetizador de teclas metálicas dos anos 20 (o trautonium), não existe um sentimento novo. Como no Outono, encontramos no espaço aberto por Obel um tempo de intimidade e renovação, e é na forma como a sua voz se encontra com a multiplicidade de presenças instrumentais que emerge uma actualidade urgente.

O título deste álbum remete para um conceito alemão – gläserner berger -, que vindo do mundo do Direito no qual se refere à relação entre cidadão e o Estado no que diz respeito à privacidade, é metáfora eficaz para organizar a musicalidade de Agnes Obel. Segundo a própria,

There’s an increasing sense in this world that you have to make yourself a bit of glass. To be willing to open up, use yourself as material, and not just if you’re an artist or a musician.

I worked with the title from the very beginning to push myself to do new things, I wanted to push myself conceptually from the starting point, to push the glass theme throughout the songs in different ways – in the lyrics, in the instruments – to do things in a very new way

Entre perigo e potência, a transparência escolhe-se como método e como produto do processo artístico. Citizen Of Glass parece compreender, de uma forma em tudo subtil, o mundo para onde o seu conteúdo se dirige. O vidro, superfície de separação mas também de encontro, é aqui trabalhado pela forja de uma complexa aproximação à música, à poesia e à arte – e neste encontro há qualquer coisa de apelo, de interpelação.

E foi com “Familiar” que fomos apresentados a este universo com música e vídeo. A voz da dinamarquesa, que alterando o seu timbre faz um dueto consigo mesma, e a imagem de Alex Bruel Flagstad, o violino de John Corban e os violencelos de Kristina Koropecki e Charlotte Danhier constrói o estranhamento do que é banal, natural. Mecanismos, estradas que se cruzam, imensos edíficios, os corpos que constroem nos seus olhos a transparência e a opacidade da vida – e do amor.

“Can you walk on the water with I, you and I
Cause your tub’s running cool,”
said the familiar, true to love
Can you walk on the water with I, you and I
Oh keep your eyes on the road and live there familiar, with a broken arm
Glowed with gates in a grove, true to life
And then the love is a ghost that the others can’t see.

“Green Gold”, com metal e vidro na porosidade trabalhada da palavra cantada que se ergue mais alto, junta-se à arte de Jonas Bjerre, entre luzes trémulas e espelhos quebrados. Nas palavras do mesmo. é um mundo interior que se representa, mundo de contradições que tentam um encontro, uma harmonia. O vidro, textura fria, é feito com fogo também aqui.

All I have or should
Want to be but never could
It’s coming at, it’s coming at, it’s coming at my heart
To spoil my soul with fire.

“Stretch Your eyes” acrescenta a estas viagens um tom iminentemente cinematográfico – vemos através da musicalidade e da voz paisagens, personagens, narrativas postas em marcha num horizonte incerto.

Gates of gold
In your head you hold
A kingdom molten
May the gods be on your side

Talvez não por acaso é já conhecida a admiração professada por David Lynch a esta “extraordinária voz”, tendo mesmo já existido uma colaboração entre os dois artistas, ou as referências de Obel a Bergman ou Hitchcock. Soa a clássico e a novidade na mesma medida, a monumento e a experimentalismo, a lâmina e a abraço. E nesta imersão Outonal não podemos nunca deixar de sublinhar a voz, a voz celestial e certeira, contida e poderosa, imensa e imensamente detalhada que nos guia, vidro adentro.

“Grasshoper” é a última revelação antes da obra inteira. Instrumental preciosamente depurado em pouco mais de dois minutos, mistura complexa de oscilações musicais que nos remetem para o título, fértil para ouvidos carentes dessa simplicidade complexa que permite voos de imaginação entre orquestras tanto mecânicas quanto da Natureza. Para nos ir dando matéria-prima através das janelas melancólicas de Outubro. Para nos ir dando esperança? Estamos a aprender com Agnes Obel que a frieza vítrea é uma forma de calor, que o tempo da chuva não existe sem a carícia do agasalho.