Tempo de se ouvir e falar sobre Lâmina, o primeiro registo a solo de Felipe Antunes, membro da banda brasileira Vitrola Sintética. De lá vem-nos esta aventura que nos soa tão livre, tão despida de si. E se é para ouvir, que se ouça da mesma maneira, num sítio parecido àquele em que foi feito. Que se faça o mesmo como se fosse ler um bom livro. Este é um “guia” que não corta mas que mostrará o que a lâmina poderá fazer.

“Como são lindas as borboletas”. Como ficar inquieto ao ouvir esta primeira linha a abrir o disco, depois daquele diálogo que não se sabe para onde vai. É assim a “Abertura” de Lâmina. Uma velha cantiga interpretada por Natália Alzira – a avó de Felipe – que ele ainda se lembra de lhe terem ensinado quando ainda era criança. E que tanto se parece com uma canção que se entoa a uma criança ainda a crescer sob a alçada maternal.

Segue-se logo para o primeiro duo vocal do álbum com “Telepatizar”. Felipe e Hélio Flanders em conjunto na partilha da mesma música. As vozes mantêm-se ao longo desta, mas a de Hélio funciona quase como uma voz “superior”. Não por estar à frente da música mas por se manter no fundo, a pairar mas a marcar a sua presença como se fosse uma voz interior saída de Felipe enquanto dura. Não é apenas uma música folk; percebe-se que é muito mais do que isso à medida que avança no tempo. “Telepatizar” dá início a um lado mais pesado do álbum, com sons de precursão que tanto fazem lembrar uma tempestade. Algo que se avizinha. E é alguma luz que se avizinha depois da turbulência. Apenas aparente. Se a saudade falasse, talvez “Vai Por Mim” fosse dita algumas vezes. Como tentar fechar a porta a alguém do passado mas deixá-la entreaberta para o futuro. Mas se ouvir falar de mim/ e apertar, volta”. Não passaria de um sonho se fosse fácil assim. Toda essa vontade rapidamente se dissipa quando se percebe que não há grande volta a dar. É assim “Pretensão”. Dura, crua, amarga. Com um piano dreamy e um órgão de fundo a criar mais texturas; a guitarra e a voz fazem o resto. Esmagam simplesmente a dor das palavras cravadas no poema. Aqui percebe-se a tentativa de corte mais profundo com a lâmina.

Mas não só no texto, como também na música, surge um corte. Como no livro, há luz em alguns momentos. Como em “Essa Moça”. O poema de Felipe que foi dado a Enzo Banzo que o musicou e onde também canta. Esta música transpira Brasil e MPB. Há aqui muito daquelas pequenas orquestras cariocas, com sopros, um piano gingão, guitarras ritmadas com a precursão e letra atrevida. Dois senhores a conversar sobre as suas visões com uma figura feminina. Haja vontade para mudar o rumo da dor. E “Bastava” segue o mesmo caminho. Mesmo que pareça haver referências ao que foi falado antes, aqui há uma veia diferente – há uma espécie de passagem para outro nível. E, musicalmente, há muito de Vitrola Sintética. A mesma onda continua em “Descansar”. A memória a vir ao de cima, mais uma vez. E a memória dos Vitrola também, ou não tivesse membros da banda a tocar nesta música.

De alguma maneira, “Esse Moço” acabou por ser a outra face da mesma moeda na qual encontramos também “Essa Moça”. Duas canções, duas visões sobre uma suposta figura. Esta sobre um homem visto por duas mulheres – Ná Ozzetti e Juliana Perdigão quem cantam. Podem-se ver semelhanças entre ambas, algo muito característico musicalmente. Muito jazzístico no piano.

A forma encontrada para “quebrar” o ritmo brilhante e luminoso do disco foi com uma leitura de um poema. Um spoken word que nos entra palavra a palavra na cabeça. Lembra claramente Leonard Cohen a recitar poesia. Aqui não é sobre amor: é sobre a vida. Se pensarmos no próprio conceito do disco-livro, esta faixa não cai aqui como um extraterrestre. Sente-se bem o contraste para o que se vinha a ouvir. É como se, de repente, Felipe tirasse a agulha do gira discos, se sentasse e nos contasse uma história em forma de poema. E assim vai até ao fim. A própria gravação ajuda a este efeito “caseiro” e próximo ao ouvinte. Assim como “Cru”, que nos traz à memória os álbuns de Nick Drake. Aqui a intenção é muito clara. Ao olhar para o livro, percebe-se que o poema começa, cresce em direcção a um sítio e volta para trás para onde começou, quebrando assim que chega e mudando para uma nova estrutura do poema. Este esquema é tão mais visível na disposição espacial da própria página.

Depois de tanto tentar separar, há que chegar a um “Acomodar” da situação. Há uma volta para a luz uma última vez neste disco. Uma música que chega ao fim com um grito que mostra algo quase épico para finalizar. Mas não sem antes de “Nunca Talvez”, composta a meias com Otávio Carvalho. É aquela música que nos sempre vai parecer tão familiar, com uma melodia no piano que nos vai acompanhar mesmo depois de acordarmos. Tão simples, tão incerta, mas que fecha o álbum de uma forma absolutamente bela.

Eu sei, que os corpos se vão, que a pele um dia trai e cai
Sei também que a força que eu sei atrair,
Também vai expulsar pra longe,
Pra nunca
Talvez

Há muitas formas de poder descrever um disco – para facilitar a localização, pensem no último disco do eterno poeta Gil Scott-Heron I’m New Here e em como o álbum vive do blues, jazz e da spoken word. Mas neste, em especial, não há apenas um disco; há este livro que o acompanha e o qual é preciso ver com atenção. Em suma, todos estes contrastes líricos e sonoros de Lâmina são visualmente transportados para as fotografias presentes no mesmo. Toda a composição do livro é simples mas bem terminada.

Cuidado: as páginas podem cortar.