Sentem-se. A sala não é muito grande mas é cómoda. Cómoda o suficiente para nos fazer sentir em casa. Não mais que vinte pessoas espalhadas à volta da sala e dos dois sofás. À frente, dois amigos que se encontraram no Porto. Duas cadeiras, duas cervejas, duas guitarras, dois cantautores, dois pontos de vista. Mas nenhum duelo entre eles. Felipe Antunes e Hélio Flanders juntos na Casa Bô. Consigo trazem Lâmina e Uma Temporada Fora de Mim, respectivamente. Álbuns que se podem ouvir gratuitamente (e recomendam-se vivamente!) nas suas páginas.

Desde cedo que se percebe que este não será um concerto igual aos outros. É tudo muito mais natural. A distância para com os músicos é quase nula. Os mesmos conversam com as pessoas e ensaiam antes de começarem o concerto naquela mesma sala, ao lado de quem ia assistir. Era uma espécie de pré-concerto.

As hostilidades abriram “caseiramente” pela responsável do espaço. Se já nos sentíamos em casa, a partir de agora era como se fizéssemos parte dela. Dividiram a setlist; metade para cada um. Mas com direito a duetos. E começaram, assim, a “Telepatizar” entre eles. A música é retirada do álbum de Felipe e é interpretada pelos dois, como o fizeram na versão original.

O passado dos dois é semelhante: vieram ambos de bandas de algum renome no Brasil. Vitrola Sintética de Felipe Antunes (com Otávio Carvalho e Rodrigo Fuji) e Vanguart de Hélio Flanders (com David Dafré, Fernanda Kostchak e Reginaldo Lincoln). São dessas mesmas bandas que retiraram temas para tocar. O primeiro foi Hélio com o tema “Depressa” do álbum Boa Parte de Mim Vai Embora de 2011. A seguir, “Cru” da Lâmina de Felipe. Em conversa, a história dessa música/poema foi contada e poderá ser vista posteriormente na entrevista a lançar. A chamar por Isabela, Isadora e Milena, Hélio traz “Onde A Terra Acaba” e mostra uma versão completamente despida da grandeza que o original tem. Há um excelente trabalho de exploração vocal neste projecto a solo e uma busca de novas sonoridades que trouxe para o disco uma nova faceta de Hélio. Como se o John Lennon se juntasse a Damon Albarn e fossem todos viver para casa de Astor Piazzolla. Mas aqui soa como se ainda estivesse em casa a ensaiar e a pensar como iria trazer vivacidade a tão crua e directa versão.

Há uma pausa. Não é um intervalo. Mas uma pausa. Entre conversa com o público, entre cerveja e enquanto o cão da casa passa (sim, havia um cão a assistir) há um momento inesperado. Que mesmo para o Felipe era novidade: recitou “Veio do Tempo”. Esta faz parte do álbum mas em forma spoken word. Um poema da sua autoria, sem instrumental, apenas voz. À memória vem-nos nomes como Leonard Cohen, Nick Cave, Patti Smith ou mesmo Carlos Drummond de Andrade. É uma bela surpresa, inesperada e que trouxe outro encanto ao concerto. Uma das referências de Hélio Flanders, e que o próprio afirma, é Cida Moreira. Cantora que já interpretou temas dele e de Thiago Pethit e com quem já partilhou o palco. Há “Forasteiro” por parte dele e precedido de “Essa Moça” de Felipe.

Houve um novo recuo ao trabalho antigo com “Minha Garota” e “Inconsciente Inconsistente” ambas retiradas do último disco dos Vitrola Sintética. Para Hélio houve o clássico “Romeo” dos tempos de colaboração com Thiago Pethit e, para acabar, “Dentro do Tempo Que Eu Sou” do disco a solo. Esta última tem a colaboração de Cida Moreira que, dada a impossibilidade de estar presente, foi ‘substituída’ por Felipe. Assim, acabam o concerto como começaram: os dois juntos, em dueto. Uma bela versão que teve direito a convite ao improviso do público a meio da mesma. Tímidas vozes se ouviram mas que muito encantadas estavam por este concerto.

Dado o término e de alma preenchida, foi tempo de reflectir e conviver com os músicos. Não estivéssemos nós numa sala de estar entre amigos e conhecidos.

Aproveitando o momento para fazer referência ao projecto Casa Bô. É uma associação sem fins lucrativos que tem como objectivo criar um espaço de união e de trocas de valores culturais, ambientais e pessoais. A casa é aberta a todos, um work in progress constante de reabilitação de um local no centro do Porto. Um espaço antigo mas à procura de meios para ser melhorado, com um jardim óptimo para fins de tarde de verão. Visitem e apoiem a causa. Mais concertos poderão surgir. A Casa Bô certamente irá agradecer.