Um sistema de palavras para desenhar uma experiência. Um projeto de ideias misturado com a importância da integração sensorial, auditiva e visual que um festival pode proporcionar. A vibração de algo novo, grande e desafiador em um cenário adverso de um país em crise associado a uma localização não tão convencional. Todas essas nuances tiveram uma força motriz para puxar o carro da realização de um evento que superou, de longe, muitas expectativas. Energia gigante esta que, após 16 anos de sua primeira aparição no mapa de eventos musicais e idealizada pela banda Wry, tirou novamente o projeto do papel e tornou real a Segunda Edição do Festival Circadélica na cidade de Sorocaba, São Paulo entre os dias 20 a 24 de julho. Com um line up de peso, o evento proporcionou desde shows mais intimistas até dois grandes dias (22 e 23) com uma agenda de músicos que uniram fãs, entusiastas e amigos em plateias que se mantiveram incrivelmente cheias para praticamente todas as aparições.

Shows, apenas? Não. Mas uma bela festa. De pequenos a grandes, o festival proporcionou o trânsito de aproximadamente 7 mil pessoas em todos os dias do evento e movimentou rostos pintados encenando uma atmosfera circense, skatistas divertindo-se em uma rampa montada no espaço ao lado do palco principal, tatuadores marcando os dias na pele de muitos e até um ônibus equipado para realizar entrevistas com os artistas.

No sábado (22), a presença do cenário musical independente mostrou a que veio com shows ao longo do dia distribuídos em dois palcos que intercalaram bandas de todo o Brasil. Tanto a dizer sobre os concertos, foram os detalhes que marcaram este dia e trouxeram à tona parte importante da voz que um artista pode e deve ter sobre assuntos atuais que movem o cotidiano. São exemplos as críticas ao cenário político paulistano feita pela banda Ludovic (São Paulo-SP), bem como a homenagem realizada pela Scalene (Brasília-DF) aos que partiram mas estarão eternizados, em referência a Chester Bennington dos Linkin Park.

Os patcharas Vivendo do Ócio (Salvador, BA) com Jajá Cardoso (vocal e guitarra), Luca Bori (baixo e voz), Davide Bori (guitarra) e Dieguito Reis (bateria e voz) já são carta marcada nas visitas à Sorocaba e deram as caras no sábado com seu indie rock seguindo ainda a agenda da turnê Selva Mundo, com uma apresentação sustentada por um amadurecimento significativo da banda em palco depois de muito tempo em estrada. Como principal reflexo disso percebeu-se uma plateia envolvida e entusiasmada com um concerto coerente, enérgico e vital, aquecido por estes baianos porretas no primeiro dia de arena. Curiosamente, uma banda que respeita lindamente suas origens e canta sublimemente sobre a Bahia, traz um âmbito de comunidade ao concerto que rompe qualquer barreira interestadual. É valoroso contemplar a postura descomunal de um grupo que caminha a desvendar temas do passado, presente e também do futuro, eternizado nos versos de “Prisioneiro do Futuro”:

Meu silêncio faz de cada erro
O que agora eu reconheço
E a cada passo a frente eu vejo
Que eu tive que pagar o preço.

Vivendo do Ócio @ Festival Circadélica

Vivendo do Ócio @ Festival Circadélica

Os Ludovic retornaram às atividades em 2015 após um silêncio ensurdecedor no universo undreground brasileiro. Considerada uma das principais bandas independentes do país, a banda que conta com Jair Naves (voz e baixo), Eduardo Praça (guitarra), Zeek Underwood (guitarra) e Thiago Babalu (bateria) agitaram um público inicialmente tímido que foi ganhando corpo com a eletrizante presença de palco do baixista Naves, que muito à vontade em cena transitou entre temas sociais e apontou a importância de um festival local ganhar corpo e forma através do cenário musical sorocabano. A subversão caracterizada pelas notas destonadas e o grave da voz do lead singer trouxeram o tom de forma sombria e ao mesmo tempo enternecida em temáticas que abrangem o espírito e trazem o tal do zumbido entornecedor, arrebatando os sentidos das pessoas ao redor do palco e proporcionando a experiência que a música pode trazer às mentes inquietas. Nas palavras do vocalista, “a música é ainda uma das poucas coisas coletivas que existem”. Realidade nua e crua esta, interpretada de forma visceral e calorosa neste primeiro dia na Arena Circadélica.

Só se adequando você vai ter paz
Conclusão preguiçosa e imperspicaz
Que a minha consciência me absolva
Gente como eu não tem escolha

A banda brasiliense Scalene formada por Gustavo Bertoni, Tomas Bertoni, Lucas Furtado e Philipe “Makako” angariou um público fiel, que entoou em coro as músicas do grupo que estourou após participar da segunda temporada do reality show musical brasileiro Superstar, ganhando a posição de vice-campeões. Em 2016 levaram o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa com o álbum Éter e já têm data marcada para o lançamento do novo álbum Magnetite, em 18 de agosto. Além da bela homenagem ao líder dos Linkin Park, a apresentação do grupo levou a plateia à loucura com hits como Sublimação (Éter, 2016) e Surreal (Real/Surreal, 2013), onde foi possível sentir a energia uníssona no coro

Longe, alto
Cabe a cada um de nós dizer
Onde, quando
Cabe a cada um de nós saber.

Scalene @ Festival Circadélica

Scalene @ Festival Circadélica

Há muito por ansiar do novo álbum e de uma banda que conquistou, definitivamente, seu lugar ao sol. O mesmo sol que em Sorocaba brilhou também com as apresentações de bandas como Bit Beat Bite BrightDead FishEgo Kill TalentFar From AlaskaJustine Never Knew The RulesPense, Terno ReiThe Biggs, Vespas Mandarinas e Wry. Os Boogarins (Goiânia-GO) fecharam o dia no palco principal com um show arrebatador, apresentando pela primeira vez no Brasil músicas do seu terceiro e recém-lançado álbum Lá Vem a Morte, além de clássicos do primeiro e segundo álbuns, após uma temporada em turnê nos Estados Unidos e Europa. Apropriados de seu próprio timing na janela musical que se encontram, o show foi conduzido de forma a descompassar o público que aclamava ferozmente por mais. Além do ritmo intensamente marcado por Ynaiã (baterias), Dinho (guitarra e vocais) pareceu dominar e reger o tempo, o espaço e a hipnose de uma plateia que não se esgotou após esperar o dia inteiro para prestigiar estes que já são aclamados como uma das mais importantes bandas do cenário brasileiro atual.

Lê a reportagem do segundo dia de Festival Circadélica e vê aqui a galeria completa de fotos que espelham as experiências do primeiro dia do evento pelo olhar do Rogério Passini.

@ Festival Circadélica

Público @ Festival Circadélica