Do Teatro da Barraca ao Pequeno Auditório da Culturgest, da ZDB à Trem Azul, passando pela garagem da Culturgest, vários têm sido os palcos utilizados, ao longo destas 11 edições, para dar a conhecer o que de mais provocador – porque provocação é inquietação -, acontece na cena musical nacional. Se marca autoral pode ser cunhada na frente e/ou verso do cartaz de qualquer edição do Festival Rescaldo, é a diversidade e a abolição de qualquer barreira estilística. Se é rock, jazz, experimentação, erudita, psicadélico, folk, electrónica ou ambiental pouco importa: os critérios subjacentes não são de estilo, prendem-se antes com o percurso inerente a cada autor que deve ser mostrado e divulgado.

Não espanta, por isso, que já tenhamos ouvido a Joana Sá, há uns bons anos, ao piano no Teatro da Barraca, os Calhau no pequeno auditório da Culturgest – muito antes de invadirem a galeria londrina -, projectos de agregação irrepetíveis, como Norberto Lobo + Carlos Bica, Luís Vicente + Jari Marjamaki -, ou projectos dos quais vamos perdendo o rasto, como Coclea. Outros ainda os há cuja energia parece inesgotável, como os Plus Ultra, ou que descobrimos pela primeira vez com assombramento infantil, como a Orquestra Futurista do Porto, com encontros pensados e provocados que dão origem a colaborações frutuosas e edições de excelente nível, como Black Bombaim + Peter Brotzmann. A lista deveria ser infindável, deveria ocupar página inteira e toda a sua margem para simplesmente fazer jus ao trabalho de pesquisa e de divulgação que o seu programador, Travassos, tem realizado ao longo destes anos.

Repetir nomes não seria afronta nenhuma, mas acresce que, de ano para ano, vão surgindo novos projectos e se vão desenhando e cimentando novas colaborações. Se todas estas razões não fossem motivo para ocupar cada nota da nossa agenda nos próximos dias 16 – 17 – 18 | 23 – 24 de Fevereiro, deve-se acrescentar que esta será a última edição nos moldes que conhecemos. Sem pretensão de guia de sugestões (até porque eliminar datas não é opção), destacaremos os concertos de abertura com Maria da Rocha, um cruzamento de latitudes dispersas entre a erudita e a experimentação, violinista e violetista entre Berlim e Lisboa, e a colaboração entre Diana Combo + Rafael Toral + Pedro Centeno, certamente com uma nova abordagem ao concerto apresentado recentemente no São Luiz, a propósito da Conferência Futurista de Almada Negreiros e Santa Rita Pintor.

No Sábado, Joana Guerra e o seu Cavalos Vapor – impossível de não pôr a rodar em repeat um bom par de vezes -, ou ainda Harmonies, projecto que já teve apresentação em Braga, Lamego e no Teatro Maria Matos (Lisboa), que junta no mesmo palco cúmplices da intimidade abstracionista como são a Joana Gama, Luís Fernandes e Ricardo Jacinto, e com uma componente visual bastante vincada. No Domingo, Joana Gama, a solo ao piano, interpretando Morton Feldman, John Cage e Erik Satie, no Panteão Nacional. Repetindo-nos, poderíamos continuar lista, mas como a Tracker fará a cobertura, os nomes do segundo fim de semana ficarão para novo artigo e destaque merecido.