13166118_989383947765693_510093729748518190_n.pngO Festival Semibreve, evento referência do panorama cultural de Braga – e, porque não afirmá-lo, de nível nacional -, tem o seu cartaz completo e todos os bilhetes esgotados. Como já nos ensinou noutros anos, ao longo dos três dias de que se faz a 6ª edição do Festival, os limites e convenções artísticas são desafiados, a música bate-se em pé de igualdade com outras manifestações visuais, os espaços da cidade são reapropriados e as suas características integram a arte circundante. Mais do que um festival de música – e de várias exposições e instalações artísticas abertas ao público -, o Semibreve mostra-se como uma reunião anual de ideias de vanguarda, um satélite permanentemente atento a acontecimentos relevantes na área. Decorre entre os dias 28 e 30 de Outubro.

1º Dia

Ao primeiro dia, unem-se na sala principal do Theatro Circo as forças de Kara-Lis Coverdale, a artista canadiana que se afirmou no ano passado com os trabalhos Aftertouches e Sirens (e, já em 2016, colaborou em Virgins, do conterrâneo Tim Hecker e o artista visual Marcel Weber (MFO) ), que se tem especializado no complemento visual a peças musicais – entre as quais se contam peças de natureza distinta entre si, como sejam a música de Roly Porter e Ben Frost, ou as apresentações da Ópera Nacional de Paris.

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Kaitlyn Aurelia Smith

No seguimento, temos Kaitlyn Aurelia Smith com disco novo este ano. EARS, que sucede a Euclid de 2015, é um trabalho de assumida inspiração na geometria euclidiana. Devota ao sintetizador Buchla e à simplicidade matemática dos seus osciladores (ao vivo, utiliza um modelo mais recente, o Buchla Music Easel), é sensível a tudo o resto que o possa complementar: a voz e um conjunto de sopros são recorrentes ao longo do disco, evocando simultaneamente a música de uma das suas referências, o minimalista Terry Riley, assim como a natureza da ilha de Orcas, onde viveu e se refugia amiúde.

Depois, ao virar da meia-noite, temos o nova-iorquino Ron Morelli no pequeno auditório do Theatro Circo. Morelli é fundador da L.I.E.S. (Long Island Electrical Systems), uma editora de música electrónica afecta, mas não circunscrita, ao house e techno; no entanto, os seus dois registos discográficos – Spit (2013) e A Gathering Together (2015), editados pela label do artista Prurient) não o aproximam necessariamente dessa tradição e parecem relacionar-se como críticas, ou respostas formais, enquanto se movem pelo noise e terrenos industriais. O seu espectáculo será, então, um possível cruzar entre estes dois mundos, nas suas intersecções e, talvez mais ainda, onde se encontram as suas diferenças. E, já agora, será também o seu primeiro concerto neste formato.

A noite termina no gnration, onde recebemos primeiro Andy Stott e o novo disco deste ano, Too Many Voices, que virá apresentar e, mais tarde, Nidia Minaj, pertencente à editora/colectivo Príncipe Discos, que tem espalhado o caos em Portugal e siderado a imprensa especializada a nível internacional.

2º Dia

Como já aconteceu no ano transacto, a publicação britânica de referência The Wire vem a Braga para as Q&A Sessions: um momento de conversa com os músicos, conduzido por jornalistas da revista, e abertos a perguntas do público. Este ano, um dos contemplados será Tyondai Braxton, porventura mais conhecido por ter formado e integrado os Battles até o ano de 2010; mais recentemente, 2015 deu-nos HIVE1, um registo discográfico de uma instalação artística que correu mundo em 2013. A sessão terá lugar na Casa Rolão (partilha o edifício da Livraria Centésima Página).

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Hans-Joachim Roedelius, na Q&A Session do ano transacto. (foto retirada do Facebook do Semibreve)

Ainda fora do Theatro Circo, teremos o concerto de Christina Vantzou, um dos mais aguardados do festival, que terá lugar na Capela Imaculada do Seminário Menor. A artista opera no domínio ambient, afecto a alguns instrumentos da música clássica – talvez mais esclareça dizer que já colaborou com os The Dead Texan, e edita pela Kranky, ambos referências deste género. Neste concerto, juntam-se-lhe os bracarenses Ensemble Harawi.

R-4799776-1411439632-7024.jpeg.jpgDe volta à Sala Principal, a oportunidade imperdível de ouvir Rashad Becker, que teve o seu primeiro grande impacto em 2013 quando lançou Traditional Music Of Notional Species Vol. I. É um trabalho extremamente hermético, longe da experimentação melodiosa de Kara-Lis, por exemplo, com base nos sons do trombone e barulhos avulsos. Redefine, sem dúvida, a própria noção de música. Com ele, teremos Moritz von Oswald, multi-instrumentista cuja carreira teve maior expressão nos anos 90 como produtor. A música fica à responsabilidade de ambos, com o foco da atenção conjunta no som do piano: um drone que se transforma, manipula e multiplica. Música exploratória, como nos relatam desde o Berlin Atonal – festival para o qual foi comissionada esta apresentação – que não deixa, ainda assim, de ser contemplativa.

O supramencionado Tyondai Braxton completa o programa da sala principal, e Jonathan Saldanha termina as festividades no pequeno auditório do Theatro Circo. Porventura, já o conhecerão como mentor dos HHY & The Macumbas (ou até de um projecto menos mediático, Fujako), mas, desta vez, temo-lo a solo e com o palco a seu cargo a explorar ecos e detritos sonoros. Dadas as boas referências que temos dos seus outros projectos, depositamos-lhe a maior confiança.

halo624Já no gnration, Laurel Halo entrará, a julgar pelas suas mais recentes incursões discográficas, no mundo do techno e na electrónica mais esclarecida (como seria bom que retornasse para um segundo volume do seu fantástico disco de 2012, Quarantine!) A esperança é a última a morrer: a artista apresentará música que pertence ao seu próximo disco a sair no ano de 2017. Depois, termina a noite com Ron Morelli, desta vez no formato de dj set.

3º Dia

O último dia não é, necessariamente, um dia de menor intensidade, como já o ano passado se provou com o concerto de Oren Ambarchi. Mais uma vez, a The Wire organiza uma Q&A Session, desta feita com Kara-Lis Coverdale. Depois, voltamos ao Theatro Circo, com as duas propostas finais do festival. Primeiro, Oliver Coates, músico que se tem envolvido numa série de projectos acompanhado pelo seu violoncelo (participou, até, em colaborações com Jonny Greenwood e os inevitáveis Radiohead). No Semibreve, e aproveitando as condições únicas do festival, propõe um exercício, no mínimo, singular: ao som de uma peça para o violoncelo (não necessariamente nas práticas usuais da música clássica), introduz-nos ao mundo de Lawrence Lek, artista visual alemão cuja obra consiste em criar mundos virtuais tridimensionais exploráveis como se de um videojogo se tratasse; mundos satíricos e críticos da nossa realidade hiper-tecnológica e consumista – não será descabido traçar semelhanças com alguma da estética/filosofia do vaporwave.

E a seguir, a fechar o festival, a aguardada presença de Paul Jebanasam & Tarik Barri, compositor e artista visual, respectivamente, que em conjunto apresentarão Continuum, disco editado no presente ano; um registo épico, intenso e exploratório, intimamente ligado às ideias físicas que regem o nosso mundo imediato, e, simultaneamente, o universo: rígidas, definitivas, e imutáveis. Por outro lado, Continuum é um caótico rendilhado entre cordas, coros, feedback e resíduos digitais, errático e estruturalmente ingovernável – uma assumida dicotomia (filosófica) que ambos atacarão ao longo do espectáculo. Para a componente visual, Tarik criou um software específico para estas apresentações. Mediante o comportamento de certos algoritmos que manipulam leis físicas virtuais, projecta um universo orgânico e reajustável mediante a alteração dos mesmos parâmetros; e devido à natureza aleatória e volátil do seu programa, o resultado será, para eles também, uma novidade. Com eles, encerra-se a 6ª edição do Semibreve.

Com tudo isto, não esqueçamos as instalações artísticas expostas no Theatro Circo e gnration ao longo de festival. Mais uma vez, temos, em Braga, um dos melhores festivais do mundo. Vejamo-nos por lá!

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