Apresentação do álbum Burning Hands (Omnichord Records), Fevereiro 19, Casa Independente

A lisboeta Casa Independente, no cada vez mais interessante eixo Intendente – Arroios, acolheu na última sexta a apresentação à capital do primeiro álbum dos leirienses Few Fingers, Burning Hands, para quase 100 pessoas, naquele que foi um dos espectáculos mais ‘boa onda’ deste mês. E a onda nunca seria má, porque para cumprir a primeira parte do evento foi convidada uma das artistas ‘melhor onda’ da actual pop nacional, Débora Umbelino, a jovem cândida dos sete instrumentos do projecto Surma.

Surma, uma nação mais alegre que o Butão?

Na Tracker, há quem sinta que já deve a Surma um artigo só sobre ela quando a própria ainda nem um EP conseguiu lançar. E é mesmo não conseguir, porque as canções são já suficientes. O experimentalista talento sobra e a atitude de Débora abre qualquer porta como abriu sorrisos no Sábado. De facto, beat após beat, loop após loop, solo após solo, o simpático sorrir da pequena leiriense resiste à tensão antes dos concertos, insiste enquanto ela do it yourself nos palcos e persiste após o desgaste de cada solitária prestação, sugerindo que aquela alma está mesmo na savana da nação Surma, ainda mais alegre que o feliz Butão. E a música, tantas vezes onírica, ajuda: com o franzino corpo comicamente ‘protegendo’ o tigre pintado na traseira do palco, a one-woman-band foi produzindo, gravando e sobrepondo sucessivos loops de baixo, de teclado, de guitarra, de voz, de sintetizador, de percussão nas guitarras, até obter a estrutura de cada canção, sobre a qual cantou (ou não) e tocou os instrumentos protagonistas de cada uma.

O alinhamento foi quase o habitual: a hipnótica “Sicut Erat” (com a voz sussurrada e o dedilhar da guitarra introduzindo o público em Surma), após a qual agradeceu imediatamente o convite aos Few Fingers e a paciência aos técnicos; “Bíða”, cuja batida lembra o início de “Ideoteque” dos Radiohead, seguida pela ‘teclada’ interpretação de “Just So” de Agnes Obel; no momento habitual de “Maasai”, Surma apresentou uma nova canção ainda inacabada, na qual sobrepôs loops em camadas até obter uma dançável estrutura midtempo que foi cama para o baixo tocado com alguns efeitos de pedais e para os versos murmurados para o micro abafado por um pano; “Lo-Fi” foi sendo montada, desde o loop das chapadas na guitarra até ao loop da mesma guitarra dedilhada, antes do dançável instrumental gravoso e urbano de “Wanna Be Basquiat”, que foi dramatizado ainda mais pelo distorcido baixo quase malhado cheio de feeling, que arrebatou os presentes; o fade out final foi a bucólica “Maasai”, uma balada cujas arrastadas notas do órgão e voz replicando Julee Cruise criam um ambiente digno de David Lynch, musicalmente parecido também com The Knife ou Todd Terje. Talvez o melhor concerto de Surma a que a Tracker assistiu.

O talento para soar melhor que o disco

Em palco, os Few Fingers foram um quarteto, que é o duo liderado por Nuno Rancho, que (en)canta e toca guitarra acústica, com André Pereira e a sua steel guitar de colo, mais uma secção rítmica de bateria e baixo. Uma formação surpreendentemente mais country-folk que a industrial Leiria de onde a banda veio, mas que prometeu um concerto capaz de emocionar logo na primeira prestação, ao oferecer uma “With No Stop And No Borders” inspiradamente mais intensa que a versão do disco, pela belíssima voz de Nuno no início soando a Thom Yorke na ‘shoegazer’ juventude dos Radiohead, pela melodia reptiliana e pelo rural perfume da steel guitar, tão relaxantes apesar da emocionada interpretação. Com passagem por “Ignore”, canção parecida com a anterior e que também soou mais intensa que no disco, os Few Fingers avançaram para o segundo single do álbum, “Our Own Holidays”, balada tão pop que poderia ter sido composta, por exemplo, pelos Best Youth e que várias pessoas na sala dançaram, embaladas por tanta ligeireza.

Num alinhamento diferente do do disco e com a steel guitar trocada por uma bela guitarra eléctrica em padrão amadeirado – porque André é mesmo country(side), tanto que a tocou com um dedal metálico -, a batida lenta mas robusta de “Bruises (Light Us A Candle)” manteve o público se meneando quase dengosamente, visivelmente satisfeito, num ambiente casual que o muito country primeiro single do álbum, “From Pale To Red” (de regresso à steel guitar), intensificou: naqueles minutos, um africano surpreendeu uma desconhecida, com um amistoso brinde, enquanto Débora ‘Surma’ fotografava o tecto da Casa Independente. E para açucarar ainda mais o concerto foi com outro single, mas dos Fleet Foxes – “Tiger Mountain Peasant Song” -, que a banda prosseguiu, numa versão tão fiel à original que Nuno pareceu ter nasalado um pouco o timbre da voz, para soar mais a Robin Pecknold, vocalista dos norte-americanos.

A confirmação do sucesso

“O roadie não pôde vir hoje” foi a fleumática piada que, a propósito de uma mais demorada afinação de guitarra, iniciou a segunda parte do concerto, introduzindo casualmente “High Garden”, que foi recebida por um público descontraído e conversador, mas em número crescente e atento ao desempenho da banda que estava tocando com alma, música lenta mas intensa, com peso na cadência da bateria e na voz de Nuno, que aproveitou a apresentação da seguinte “Waters Broke” para anunciar o DJ set dos próprios Few Fingers após o concerto. E aquela canção foi um dos picos da noite, porque aquela melodiosa balada foi das que mais fez brilhar a voz de Nuno, tão bela, delicada, emocionante porque emocionada, num momento que enterneceu os vários casais que ainda estavam com passionais expressões de Valentine’s – e que terminou com um apoteótico aplauso da plateia, antes do que acabou por sero encore.

Após a entrada de mais cerca de 15 pessoas, com o salão já cheio, foram anunciadas as derradeiras duas canções, a primeira das quais “Forward March”, talvez o tema mais enérgico do disco, num country-rock que pôs muitas pessoas dançando e foi fortemente aplaudido após o fim. Foi um Nuno muito satisfeito que agradeceu ao público que escolheu ver os Few Fingers e apresentou “Damn You (The Piano Song)” – sem piano, gracejou ele. Balada com início lento, quase sem bateria, desenvolveu para uma melodia que inspirou duas jovens aparentes bailarinas na traseira da plateia a esboçarem uma coreografia; porém, uma brusca aceleração do ritmo e do tom, para um bombado uptempo, obrigou-as a adaptar os movimentos, em mais um estético momento daquilo que foi um muito bom concerto de um muito bom espectáculo.

Curiosamente, recuando ao início do texto, o DJ set foi iniciado com os Radiohead, de Thom Yorke, sugerindo que a banda britânica é uma influência entre várias bandas americanas, como os tributados Fleet Foxes, The Shins e talvez Band of Horses. Uma banda cujos concertos a Tracker recomenda!

Em baixo as fotogalerias de Ana Santos para Few Fingers e Surma.

Surma @ Casa Independente

Few Fingers @ Casa Independente