Sines é desde 1999 porto de desembarque de exploradores e mercadores sonoros. O festival, que abraça as mais variadas espécie de artesãos de melodias das mais multifacetadas estirpes estilísticas sempre com o denominador comum da world music a marcar o ritmo condutor da dança, anunciou já os primeiros nomes que vão invadir as muralhas e as imediações do castelo da pequena cidade do Alentejo Litoral no ano em que se celebra a sua 20ª edição.

Já se pode tornar a abrir o mapa e assinalar as latitudes, longitudes e geografias que começam a dirigir-se ao mercado de trocas de cancioneiros de Sines. As rotas começam a ser trilhadas desde o Sudão aos EUA, da Finlândia e Turquia, com passagem pela África do Sul.

Alsarah & The  Nubatones

Aos doze anos, Alsarah e os seus pais, ambos activistas pelos direitos humanos, tinham já feito um percurso transglobal por três países de forma a sobreviver à instabilidade política e à guerra. Nascida no Sudão, Alsarah fugiu do país para se refugiar no Iémen, de onde foi obrigada a fugir de novo poucos anos mais tarde para os Estados Unido, fixando-se em Boston com o estatuto de refugiada. Apesar das constantes mudanças, o amor pela música nunca a largou, e os seus estudos em etnomusicologia na universidade fê-la adquirir um conhecimento profundo sobre as raízes da música da região onde nasceu e dessa forma a (re)descobrir a sua própria identidade, perdida e achada algures entre o Sudão e o Iémen.

Depois de ter entregue uma tese académica sobre o zär – a música tradicial sudanesa -, Alsahra fundou em 2010 a sua banda, composta por músicos com quem partilhava não só uma afinidade sonora, como também o mesmo passado migratório. Nasciam assim os Alsarah & The Nubatones, que se auto-classificam como mensageiros de um east african retro pop. Um álbum a solo e três registos de estúdio com os Nubatones cantados em árabe, com parentesco endereçado a várias regiões do continente africano, revelam a crueza poderosa mas simultaneamente melódica da voz de Alsarah, numa conjugação perfeita com a riqueza de um legado musical assente numa percussão suave e, regra geral, num único oud, pejado pelas tradições de todo o norte e leste de África, com foco especial nas da região de Núbia, entre o Sudão e o Egipto.

Antibalas

A temperatura sobe consideravelmente com o afrobeat dançável com as suas intrínsecas fusões com jazz e funk dos norte-americanos Antibalas, que já espraiaram o calor da sua percussão vibrante, dos baixos ritmados e da sua trupe de trompetes, trombones e congas por editoras como a Ninja Tune e a ANTI-.

Com a ambiência musical dos clubes afro da década de 70 – e das bandas sonoras de filmes e séries policiais da mesma década -, bem vincada nos devaneios instrumentais da sua orquestra, os Antibalas incluem nas suas construções sonoras, quase sempre com a improvisação como ponto de partida, uma latinidade visitada, a espaços, por vocais de herança africana, que outras vezes dão espaço a um cerimonial quasi-declamatório e interventivo. O que não surpreende, já que a banda teve os seus inícios em Harlem, Nova Iorque, intimamente ligados a noites de poesia organizadas pelos pubs do bairro.

Os Antibalas compõem-se actualmente de 21 membros, e para além da considerável lista de EPs e participações em colectâneas, editaram já seis discos, o último dos quais, Where the Gods Are in Peace, no ano passado, via Daptone, que expõe a orquestra a uma maior tendência psicadélica que no passado.

BaBa ZuLa

Em 2017, a Turquia invadiu o Castelo de Sines com a sensualidade western de líricas interventivas forjada com elementos tradicionais de Gaye Su Akyol. Os BaBa ZuLa encarregam-se este ano de trazer a cena undergrund e cosmopolita de Istambul através dos véus em que se enrola uma percussão tipicamente turca, conhecida como turkish roll – uma particularidade sonora tornada popular na música ocidental pelos canadianos The Tea Party -, e já levam mais de 20 anos de canções encerradas em verdadeiros embalos psicadélicos, sendo hoje considerado um dos colectivos mais vibrantes e imprevisíveis do país, como confirma a extravagância com que se apresentam em palco.

Engatilhados com progressões e escalas de guitarra exóticas, ouds dançantes e teclados cheios numa abordagem única e pouco convencional a um rock de sentido muito lato, com as suas fusões e mesclas de vários estilos e tendências, onde não faltam instrumentais próximos do rap oitentista dos Public Enemy, temas mais chegados ao reggae, líricas em castelhano e fusões com elementos electrónicos, estão nove registos de estúdio, tendo o último – XX -, sido lançado no ano passado.

Kimmo Pohjonen

O finlandês Kimmo Pohjonen devora um mundo de estilos com o seu acordeão especialmente adaptado para receber degenerações electrónicas, uma abordagem avant-garde e inovadora a um instrumento que transforma numa arma de arremesso amotinadora. Por vezes, fonte de energia nervosa e empolgada, outras vezes submerso numa negritude experimental feroz e selvagem a roçar o bizarro, Kimmo tem levado a sua música numa viagem a bordo de uma montanha-russa vertiginosa que, em tempos e álbuns mais recentes, o tem conduzido numa exploração mais ávida a um universo edificado em orquestrações do que em relação aos seus primeiros registos.

Colaborações estreitas e recorrentes com os Kronos Quartet desde 2003 – com quem anda frequentemente em digressão – e com membros dos King Crimson, fazem de Kimmo Pohjonen um verdadeiro cidadão global que não confina a sua visão artística a um par de géneros, tendo até iniciado o seu percurso musical na folk, um género que ajudou a revolucionar. Algo que não passou despercebido a David Bowie, fã confesso que lhe endereçou um convite para fazer parte do Meltdown Festival, em Londres, em 2012. O seu último registo discográfico, Sensitive Skin,  foi editado em 2015, sendo Kluster, de 2002, ainda hoje um dos álbuns mais marcantes do artista.

Ladysmith Black Mambazo

Da África do Sul chega aquele que é, provavelmente, um dos grupo de músicos mais emblemáticos deste primeiro lote de confirmações do FMM. Os Ladysmith Black Mambazo, grupo vocal que se tornou mundialmente conhecido através da sua participação no álbum Graceland, de 1986, de Paul Simon, e posteriormente integrados na respectiva digressão, estão no activo desde a década de 60 e arrecadaram já quatro Grammy Awards – e foram nomeados para outros tantos. Uma pequena distinção, se se considerar a enorme dimensão que atingiram na sua terra natal e a projecção que conseguiram a nível mundial, não só através da genuinidade e honestidade da sua música, como também do seu papel enquanto academia ambulante, com a qual percorrem o mundo a ensinar outros povos sobre a cultura sul africana.

Mensageiros das tradições musicais da África literalmente mais a sul e da música coral dos mineiros e camponeses zulu, os Ladysmith Black Mambazo espelham, sem instrumentos e unicamente com as suas vozes, a identidade de um povo e são um marco indissociável da era moderna, tendo inclusive acompanhado Nelson Mandela à cerimónia da entrega do Prémio Nobel da Paz. Joseph Shabalala, fundador do grupo, retirou-se em 2014, tendo passado o testemunho aos seus filhos Thulani, Sibongiseni e Thamsanqa, que com outros seis elementos, irão levar Sines até aos primórdios da humanidade.

O FFM Sines – Festival Músicas do Mundo realiza-se de 19 a 28 de Julho e, como tem sido habitual nos últimos anos, desdobra-se com uma programação que se desenrola também em Porto Covo.