Lisboa e o rio ali ao pé mas podia não ser. Podia ser um bloco de gelo em lento derreter nas costas islandesas ou no nevoeiro cerrado de muitas noites algures no Alaska. Mas não… Foi Leiria-Lisboa em várias velocidades de sonho.

“Intro (Andro)” e arrancaram-nos do coma. Atirados a um cenário idílico de um misto de electrónicas, vocalizações e pássaros cinematográficos que se fundiram com as paredes de uma cave no Cais do Sodré! Um rasgo de bateria marca o início de “Almadraba”. Uma disputa com a estridência imprevisível de um tema longe da linearidade e previsibilidade do que poderia ser a simplicidade de uma construção evidente de uma formação aparentemente clássica nas suas guitarras, baixo, bateria e teclados.

Visivelmente bem-dispostos, o quinteto de Leiria lança um “Boa noite Lisboa, é bom estar de volta” e arranca com “Dead Men (Experimental)”. E a partir daqui começa a manipulação instrumental, com a entrada do tema marcado por um Pau-de-Chuva subtil mas que em união com o magnetismo de uma guitarra distorcida ao limite e em desafio com o arco de violino nas cordas de uma segunda guitarra, resultam num crescendo de harmonias que nos remetem às paisagens sonoras de Sigur Rós.

Após uma breve apresentação dos temas tocados anteriormente, uma alusão ao disco de estreia The Misadventures Of Anthony Knivet. Aproveita-se e faz-se a ponte para lançar o próximo tema, uma nova faixa chamada “Mermaids”. Estas sereias são um arrepio na alma, um orgasmo mental e uma possessão profana de maresia que mecanicamente e ao ritmo da voz e da bateria rebenta numa conjugação harmónica animal de baixo vs. guitarra que resulta numa apoteose a três vozes, embalando de forma hipnótica o público e puxando-o de seguida à terra com um final seco, cru e a bruto. “Shoes For Men With No Feet” funde-se com “Skáphos” e arrasta o público para uma projecção alienígena que se transforma numa primeira respiração depois de um coma!!!

Uma mutação acontece na passagem entre temas, o real e o novo real transformam-se em momentos de harmonias e jogos oníricos. Teclados regressados da década de 80 acordam o público do sonho dogmático de David Hume em “Knivet” e um triângulo de vozes canta “Keep It Up, Keep It Up”. É uma dança de luzes e distorções, é uma catarse de emoções e sensações incontroláveis! Dança-se fora do palco. O murro no estômago de “Punch The Air” é um transporte interdimensional para outros universos paralelos. Batida robótica e uma marcha quase militar de instrumentos num uno em que o próprio público entra, numa simbiose energética com a banda. Ao som de “Wait”, poderosa cover de M83, dança-se mais. Arriscada manobra esta cover, não é fácil mexer com a magia de M83. Resultado? Cresce a euforia num forte jogo de luzes e dinâmicas sonoras. Em “Escape”, o primeiro single da banda, existe uma distinção entre os universos ritmo/paisagem electrónica e o universo guitarras/harmonias vocais. Numa primeira parte, é notório um duelo entre os dois universos que termina num tratado de paz progressivo e lento em que todos os elementos da banda se encontram numa outra galáxia. Hipnose e despertar abrupto! De volta a Leiria e nós ao coma.