Sete de Maio de 2016. Chovia a ‘potes’ pelas ruas da capital durante todo o dia. Como “um concerto molhado é um concerto abençoado” previa-se que a noite dos First Breath After Coma no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém tinha tudo para correr bem. Ironicamente, a chuva acalmou instantes antes de a banda subir a palco mas o voodoo estava feito e ninguém saiu de lá desiludido. Apresentando o mais recente disco Drifter – fruto de uma campanha de crowdfunding – o quinteto de Leiria mostrou o quanto amadureceu desde os tempos de The Misadventures Of Antony Knivet; aliás, deste primeiro, só mesmo “Shoes For a Man With No Feet” e “Escape” se fizeram ouvir.

Para dar as entradas, nada melhor do que com o novo single “Salty Eyes”, conquistando desde logo a extensa plateia. Cedo revelaram o seu à vontade por pisar um dos mais importantes palcos em Portugal, não acusando a típica pressão e receio demonstrados por inúmeros jovens artistas que ali tocam. “Gold Morning Days” e “Shoes For a Man With No Feet” atraíram fortes e calorosos aplausos do público, recebendo em troca sorrisos e olhares de felicidade com que se comprometiam a levar em frente aquela noite a todo o gás, evidentes nas primeiras palavras de agradecimento aos presentes: “Queríamos agradecer a todos os que vieram e por nos estarem a fazer sentir em casa. Muito, muito obrigado. E agora, gostaríamos de apresentar o primeiro convidado da noite: o André Barros”.

Recriando o piano de “Nagmani”, André Barros contribuiu a dar vida naquele que é o tema mais experimental de Drifter. Apesar de ter assinalado um belo momento, a presença de André Barros com a banda soube a pouco e não nos importaríamos nada que tivesse durado mais tempo ou que fizesse mais companhia aos rapazes de Leiria em cima do palco. De seguida, talvez, o melhor momento da noite: as duas “Tierra Del Fuego”: “La Mar” e “Nisshin Maru”. Durante o seu conjunto de dez minutos de duração, os First Breath After Coma levaram o Centro Cultural de Belém a viajar pelos mundos de Sigur Rós, numa experiência que teve tanto de bonito como de mágico. A ajudar à ‘festa’, o jogo de luzes que os acompanhou durante todo o concerto deve ter sido dos mais vistosos e atraentes que aquela sala já alguma vez proporcionara. Terminada a dupla de canções, e antes de Noiserv dizer olá, informaram que fora “um documentário sobre a caça de baleias no Chile está por de trás da criação destas músicas. Informações curiosas, não sei“.

David Santos pode-se gabar que as dimensões que o seu projecto Noiserv está a ganhar por Portugal e pela Europa fora são comparativas com as de um tamanho de uma baleia. Dados que o confirmam? As palmas e os gritos que marcaram a sua subida ao palco para tocar e (en)cantar com “Umbrae”, segundo single extraído do novo disco. Mesmo estando um pouco desenquadrado do seu habitat natural – de pé e guitarra em punho -,  não foi por isso que deixou de causar mossa e de provocar peles de galinha àqueles que eram arrebatados pelo seu vozeirão e pelas três guitarras que criavam umas melodias bem prováveis de causar inveja à referência número um dos First Breath After Coma: Explosions In The Sky. Aproximando-se dos cinquenta minutos de duração, “Seven Seas” foi a escolhida para dar como encerrada a actuação antes do encore e ainda bem que o houve visto que este tema foi o mais fraco de toda a noite e só deixou os presentes sedentes por um final ’em condições’.

E foi mesmo isso que tiveram através da já velinha mas sempre festejada “Escape”, havendo um ou outro batuque de pés vindos da plateia. “Obrigado por terem tornado esta noite possível. Obrigado por terem comprado e ouvido o disco, um disco que é tanto nosso como vosso. E já agora, obrigado aos nossos pais que vieram de Leiria só para nos verem. Um até já, um até logo!” despediram-se antes de soltarem uma poderosa “Blup”, encerrando assim uma excelente actuação que deixou o auditório inteiro a bater palmas de pé e a pedir por mais o que, infelizmente, não aconteceu.

A noite de ontem serviu de jeito de consagração para a nova etapa dos First Breath After Coma: de uma banda que tocava versões adaptadas de M83 e da banda que lhes deu nome, para uma que enche e honra o palco do Centro Cultural de Belém. Horas depois do concerto, as ruas de Lisboa voltaram a ficar inundadas de chuva. Quer-nos parecer que até o próprio São Pedro quis fazer questão de marcar presença e achamos que não saiu de lá desiludido. Pelo menos nós, não.

As imagens de Pedro Gomes Almeida aqui:

First Breath After Coma @ CCB