Oportunidade enriquecedora é conhecer um artista. Não apenas sabê-lo de nome ou seus trabalhos e acervo, mas percorrer sua história, entender suas referências, o que o move a criar e a resistir entre as flores e os espinhos da vida em si e do atual cenário musical brasileiro, vasto de incríveis e multifacetados artistas que se doam pela arte. Nesta missão, a Tracker Magazine se encontrou com Eduardo Praça na última semana no Le Jazz Petit, um bar bistrô aconchegante e boémio na zona oeste de São Paulo, que recebeu a proposta de braços abertos também para uma sessão de fotos.

Quem é Eduardo Praça? Não há intenções de perguntas objetivas com retóricas esmiuçadas. Há mais por se observar e apreciar do artista, como resultado de uma conversa despretensiosa e agradável após o lançamento de Rio do Tempo (2017), seu primeiro trabalho em carreira solo com o nome de Apeles. Paulistano, por volta dos seus 15 anos Eduardo começou a tocar com colegas de escola no circuito punk rock. “Em um desse shows conheci Jair Naves. Fui para o Ludovic com 16 anos”. Após alguns anos ininterruptos das atividades da banda com forte referência no underground nacional, houve uma pausa de 7 anos marcada pelo retorno do grupo em 2015, num show em Belo Horizonte.

Já com a banda Quarto Negro foram dois álbuns lançados – Desconocidos de 2012 e Amor Violento de 2015 -, até o encerramento das atividades em 2016. “A Ludovic tinha acabado, fui morar nos Estados Unidos e comecei um projeto sozinho de forma despretensiosa produzindo músicas em casa. Desse momento em diante fui aos poucos convidando o pessoal para começarmos a banda. Eu não me sentia – ainda não me sinto – confortável com meu próprio nome, daí veio o nome Quarto Negro como uma ideia de imagem sonora para o estilo de música que estava gravando”.

Uma linha do tempo traçada desde 2003, trouxe Praça a um novo projeto em 2016, que nasceu no período onde já era sabido que o Quarto Negro estava próximo do fim. “Estava compondo muito, um período de transição de vida, sem muito planejamento. As duas músicas do EP Obsessivo são dessa mesma época, e há ali já um pouco da sonoridade de Rio do Tempo. Rio do Tempo era a fase que eu estava passando e sabia que não seria como Quarto Negro. Foi então que surgiu Apeles, como um alter-ego, um personagem para o disco.”

Apeles foi o irmão da poetisa portuguesa Florbela Espanca, e Praça relata ter um vínculo literário com a escolha do nome. Florbela é sua poetisa favorita, portanto também é uma homenagem. Há componentes na história desta relação fraternal que especulam um envolvimento romântico e obsessivo. O momento de Apeles para Rio do Tempo retrata essa intensidade de emoções. “O nome é simples, de certa forma intrigante, não é comum. Eu gosto da ideia de fugir um pouco de quem eu sou e, esteticamente, houve um encaixe.”

Como um personagem, são momentos da vida em que não é preciso se apegar para sempre. Praça exemplifica a lógica dos personagens com as várias facetas de David Bowie e suas impressões que cada disco trazia em relação ao seus alter-egos, assim como a possibilidade de se desprender deles a qualquer momento. Sobre ter um segundo personagem no processo criativo de composição: “Se tudo mudar, porque não? Muito da graciosidade na música e na poesia estão relacionadas com a atmosfera que a gente pode criar, para que as pessoas imaginem.”

Frente a este multiverso, Eduardo traz um olhar desmistificado sobre o artista, pontuando que é enriquecedor ser um instrumento de atuação em várias frentes além do universo puramente musical. “Eu gosto de trabalhar em todo o tipo de coisa que exorcize os sentimentos”. Uma das letras das músicas foi adaptada de uma poesia e Praça também já escreveu um conto, ainda não publicado. Já compôs trilhas para curta metragens e está atualmente trabalhando em uma nova produção para seu primeiro longa.

Apeles by Roseli Vaz

Apeles by Roseli Vaz

Eduardo cresceu ouvindo The Beatles, The Kinks, The Small Faces, artistas que fazem parte dos grandes influenciadores em sua trajetória como artista. A música britânica é uma referência não só musical para Apeles, mas compõe um conjunto de elementos de sonoridade, poesia e estética elegantes, verdadeiras e até mesmo irónicas.  Outros nomes importantes como Leonard Cohen e Bob Dylan complementam ricamente o acervo de guias importantes, assim como Richard Hawley, Burt Bacharach, Frank Sinatra e também algo da música electrónica dos anos 80.

Rio do Tempo foi gravado em Minas Gerais por Leonardo Marques, uma escolha certeira para a produção do álbum. Músico e produtor, Leonardo é integrante da banda Transmissor, possui uma história importante como guitarrista dos Diesel (que posteriormente viriam a ser Udora) e mantém o estúdio Ilha do Corvo em Belo Horizonte, além da editora indie La Femme Qui Roule. A primeira música de Apeles “Demônio Bom” foi mixada por Leo, o que previu a produção de Rio Tempo por excelentes mãos. “Leo tem um talento muito refinado, ele te deixa muito confortável e tira coisas muito boas dos artistas. A Ilha do Corvo é uma caverna artística”.

Para compor a banda de gravação do álbum, Eduardo contou com uma trupe de músicos mineiros de peso, como Rodrigo Garcia e Jennifer Souza (Transmissor), Gustavo Teixeira e Danuza Paz. Sobre como foi contar com outras pessoas participando de um projeto próprio, Eduardo afirma que “O maior desafio de fazer um disco solo é não deixar que seja muito centralizado em você e em suas limitações, mas ainda assim manter o controle estético e sonoro.

Para as gravações, Eduardo toca em momentos diferentes os instrumentos guitarra, violão, baixo, piano e sintetizadores, além de cantar. Também contou com a participação de Gabriel Souza (Atalhos) nas baterias e Hélio Flanders (Vanguart) para cantar a intensa “Clérigo”, quarta canção do álbum. Eduardo aponta Flanders como um dos principais artistas contemporâneos inspiradores para se sair da zona de conforto, por transitar entre vários projetos e ser muito dedicado aos estudos da música e literatura.

Apeles by Roseli Vaz

Apeles by Roseli Vaz

O trocadilho com o nome da última canção do álbum, “E Eu Anseio Pela Colisão Dos Mundos”, traz a pergunta sobre os próximos passos… com mais ou menos ansiedade. “Eu componho muito, por mais que sejam apenas ideias estou sempre gravando (home studio). É uma constante luta para não atropelar os passos, quero respeitar um tempo maior entre esse disco e o próximo. Quero que este seja absorvido de forma adequada e me renovar nesse processo.”

Eduardo Praça completou este mês 31 anos e se apresenta como Apeles, com Rio do Tempo no Teatro da Rotina, em São Paulo. Todas as fotos, da sessão fotográfica exclusiva para a Tracker Magazine, na galeria aqui.

About The Author

Related Posts