Os Föllakzoid não fazem música para que redactores tenham o trabalho de tentar (d)escrever como é aquela música que quase exclui a(s) palavra(s). O que o trio chileno trouxe ao Musicbox no último sábado é música para perder a lucidez e que é mais bem assimilada em estado ébrio, mas não necessariamente embriagado… Mesmo assim, a Tracker sente o dever de vos informar sobre o que aconteceu naquele concerto.

Música estranha num estranho sábado

Meia-noite de um sábado e estranhamente a boémia rua rosada do Cais do Sodré estava relativamente vazia e menos frequentada que em muitas noites de meio de semana. Uma anormalidade da qual o clube lisboeta era uma amostra, significando que a estranha música dos Föllakzoid foi recebida por poucas, mas fiéis, dezenas de jovens apreciadores da originalidade psicadélica dos chilenos. E os Föllakzoid justificaram a ida ao Musicbox, num concerto da digressão que promove o álbum III, editado no ano passado.

Num início animado pela bateria que ecoou na sala, manejada com robustas macetas de bombo (em vez de vulgares baquetas), a telúrica “Earth”, de III empolgou rapidamente a plateia ao longo do tempo de uma esparsamente cantada sonata quase tribal de mais que 10 minutos, tocada numa versão ainda mais potente que a original de estúdio que. Soou mais metálica, mais industrial, no fundo mais antropizada, entre o baixo muito grave e a guitarra em efeitos bastante pitch, como máquinas processando matérias-primas em fábricas ou partindo pedra metálica em explorações mineiras que se desdobraram em muitas variações harmónicas e tonais, enquanto a bateria transitava das bombadas para o dançável protagonismo do splash dos pratos, sempre no sentido do transe e nunca próximas de monotonia.

FÖLLAKZOID @ Musicbox

FÖLLAKZOID @ Musicbox

Após curta pausa para sentir os primeiros aplausos do público que rapidamente tinha começado a mexer-se na plateia, então sim começou verdadeiramente o concerto numa espécie de retoma para acentuar o transe. “Electric”, tema que abre o último disco, é estruturalmente parecido com “Earth”, também com um acelerado ritmo upbeat e com uma letra que ocupa só uma pequena parte da música. Tocada em intensidade crescente com a guitarra em ecoantes solos etéreos, o seu ritmo constante acentuou a trip que em medley, sem pausa, abrandou para algo mais lento que o quase transe dos dois primeiros temas, num post-rock quase ortodoxo e que de facto foi “9” (de II, o álbum de 2013) numa entrega mais lenta que a versão de estúdio; psicadelismo também esporadicamente cantado, com certeza não destoaria no Lisbon Psych Fest ou no Reverence Valada e agradou tanto que foi mesmo o mais aplaudido do concerto.

Até ao deserto de destino

Na pausa entre canções, o guitarrista Domingo – o mais activo e relaxado no palco -, cumprimentou a plateia em ‘portunhol’ e aproveitou para pedir “Um gin tonic, por favor”, corrigindo trocistamente para “Três!” a pedido dos outros dois Föllakzoid, num instante que logicamente arrancou gargalhadas e sorrisos ao público, no qual estava outro músico, Filho da Mãe, e o staff do vizinho Sabotage Club – mais uma bizarria do último sábado. E foi em rock abundantemente psicadélico que os chilenos avançaram no alinhamento, anunciando “99”, a canção mais ortodoxa da noite; um stoner rock do deserto, de astral yankee inspirado não no chileno Atacama, mas sim no montanhoso Mojave, empurrado por batida poderosa e feito de riffs e mais riffs parecendo dirigidos a aliens e OVNIs.

E mais uma vez sem pausa transitaram para o estilo inicial de quase transe – fundindo “Earth” e “Electric” -, que recordou os portugueses Blasted Mechanism; numa repetição de compassos em ritmo constante, os Föllakzoid mantiveram grande parte do público dançando num estado próximo de transe até ao fim, tendo concluído o concerto sem encore, numa automotora de uma mão cheia de temas. Foi uma noite estranha, feita de insólitos e equívocos propensos a dúvidas, mas que confirmou uma certeza: os Föllakzoid são uma bela banda de palco.