Assaltos, ultra violência, corridas ilegais, pilhagens, tiroteios, movimentos paramilitares. Não satisfeitos? Tensões permanentes, carjackings, infra-estruturas colectivas e estruturas sociais em colapso, uso indiscriminado do CCTV, privatização da polícia, os desaparecidos da torre Grenfell, sem-abrigo deslocados para campos de refugiados, ocupações em massa.

Mas há mais – estado de emergência e leis marciais em catadupa, narrativas baseadas em tipificações sociais discriminatórias e transmitidas a cada hora pela comunicação social, ataques racistas e xenófobos, desordem geral, intervenções militares em larga escala, hiperinflação, emergências alimentares permanentes, desemprego acima dos 70%, relocalização instantânea e desregulada do capital, Verões e Invernos extremos, dívidas asfixiantes, “desaparecimento” de políticos inconvenientes, multinacionais e governo a mesma cara e os mesmos interesses, desmembramentos nacionais, cidades estilhaçadas e controladas por facções, satélites armados, caos, cicatrizes permanentes.

Estamos a escrever o futuro? Não! Já está escrito. Data – 28 de Setembro de 2017. Autor – Gaika. Co-autores – 8o8INK, Flohio, Gloria. Título – The Spectacular Empire. Data de apresentação – 12 de Janeiro de 2018, ZDB.

Quem já teve oportunidade de ver um concerto de Gaika – recordemos a vinda ao Musicbox, coincidindo com a primeira noite Dentro da Caixa (curadoria da Rimas & Batidas) -, ou um dos mais interessantes concertos do Milhões de Festa 2016, reconhece no primeiro assombro a energia e pertinência da verve infligida pelo músico de Brixton. Acresce que a cada novo passo, a cada nova colaboração, a narrativa criada adensa-se, torna-se mais intricada e revela-se impiedosa.

O interesse em assistir a The Spectacular Empire cresce na exacta medida em que a matriz de curador é assumida sem artifícios por Gaika. Saber como a partir do manifesto publicado na revista Dazed consegue transportar para os palcos o imaginário descrito e que está subjacente ao concerto. Uma certeza – o ano a começar da melhor maneira para o 59 da Rua da Barroca. E um conselho – sobreviver pode ser uma arte.