É longo e ornamentado o caminho de Mark Lanegan pela música. Desde o peso árido e decididamente badass dos seus Screaming Trees, passando pelos palcos mais orelhudos onde brilharam os seus filhos conjuntos com os Queens of The Stone Age e obviamente olhando para uma carreira a solo tão cosmopolita como agreste e primitiva, o cantor transpira rock, história e carisma em todo o seu ADN. Armado com a sua caneta e papel, e uma voz ecoante, marcante e factualmente dotada para cuspir todo o tipo de enredos e aforismos, Lanegan é um artista que precisa de pouco para criar uma ambiência. Relativamente imutável no seu canto característico, é tipicamente a paisagem musical à volta que vai oscilando de género e estilo e se acomoda junto dele para muitas vezes oníricos efeitos. O túnel musical está assegurado no timbre vocal, e o ritmo e a densidade raramente deixam de fazer parte da equação que nos põe meios bêbedos, meio aluados, a ouvir por dentro, o ressoar das suas histórias.

Contudo agora em Gargoyle, vemos um arejo e uma cor que nascem e morrem no espectro de Lanegan e que igualmente se celebram para lá fronteiras, levando a música do artista a novos locais que aqui iluminam o seu já familiar negrume cavernoso. Este é um dos discos mais luminosos e espaçosos que a sua discografia já viu, mas esta luz vem de uma lua cheia solitária numa noite quente e aromada que nem por isso agoira leveza e positividade. “Nocturne”, o single de avanço, explica precisamente isso logo no início do disco, com os crescendos dramáticos de guitarra em forma de onda a puxar para a frente confissões de saudade de alguém perdido misturadas com imagens drogadas e veias perfuradas. Tudo num toque cinematográfico que vê os elementos electrónicos dos sintetizadores a elevar tudo numa trama de suspense e tensão onde o mistério é a chave.

Nesse sentido, a faixa de abertura “Death’s Head Tattoo” consegue certamente fixar o tom com a drum machine a criar um beat gingão que encontra um baixo noir a propulsionar a canção verticalmente sem nunca olhar para trás enquanto nós vamos simplesmente ondulando na sensualidade voluptuosa do instrumental à medida que Lanegan nos arranha com as suas palavras que contrapõem o beat urbano que virá a ser praticamente transversal ao disco.

A perseguição e fuga, e a confusão entre os dois, são as três mudanças nas quais se alicerça uma primeira parte do disco, esboçada em cinematográficos e sempre barrocos sintetizadores sequenciados que largam gotas de melodia poeirenta e carnal. A constância do ritmo, muito reminescente do post-punk e new wave decidadamente 80’s, soam como um homem numa grande cidade e movem-se ao ritmo de um pulsar de coração que anseia. “Honey just gets me stoned, just gets me stoned“, canta em contraste veloz e maior que vida Lanegan em “Beehive”, um super sónico hino que encontra tanto a velocidade do krautrock como a cascata de melodia do shoegaze para criar um dos momentos mais épicos e lascivos do disco.

Outro destaque, a líquida e aluada “Sister”, reminescente dos devaneios mais melosos dos The Brian Jonestown Massacre, vem inaugurar a era onde o ritmo pré-programado vai sendo progressivamente mais substituído pela melodia vocal e a ambiência mais sacra. Longos acordes de orgão florescem como raios de luz pelas vitrines e Lanegan torna-se mais quente e menos rugoso. A new wave que traz consigo as vastas paisagens de esperança ondulante e as canções-hino, prosperam numa placidez pós-incêndio. À volta de Lanegan flutuam cinzas que a aurora perfura e belos dedilhares casam-se com toques de slide guitar enquanto o cantor nos encanta com genuína beleza construída pelas suas imagens sempre fatais. O toque quase jungle do ritmo em “Drunk On Destruction” quase nos engana, mas a serenidade envelhecida da canção simplesmente pede que nos recostemos pelas tintas aéreas que pintam esta tela.

De todo em todo, Lanegan fez algo que sempre tem vindo a fazer: discos transversalmente épicos e badass no seu tom e entrega e, nesse sentido, Gargoyle é um trabalho cheio de brilhantes canções que se dão, que pedem para serem apreciadas em silêncio. Talvez mais do que em discos anteriores, vemos o cantor mais exposto e efectivamente na linha da frente não só no seu tom e estética mas na clareza com que nos mostra as músicas que escreveu. Somos convidados a explorar cada textura e as sensuais nuances que passam de tema em tema, com o ritmo do disco, descobrindo segredos e dinâmicas que os transformam em longevidade e que nos permitem entrar neles reparando nos seus detalhes. Gargoyle sabe a um momento clássico na discografia de Mark Lanegan e é outro vívido testamento comprovativo de uma vida dedicada à canção com amor e vivência. É também um lindo sabor para se encontrar e que voa à parte dos nossos dias.