Na última quinta-feira, no ‘aquário’ da Galeria Zé dos Bois, mergulhava um público que, sem o encher, sugeria que a protagonista da noite é já bastante apreciada por uma certa elite do showbiz. Geneva Jacuzzi era aguardada por bailarinas burlescas, cantoras, apresentadores de TV, publicitários e outros artistas e agentes culturais, evidenciando o interesse que o projecto (alter ego) Jacuzzi da norte-americana Geneva Garvin tem despertado entre os próprios pares da artista que não pode ser reduzida à condição de apenas cantora.

O extro subjugou o intro

E o que esperavam dezenas de pessoas na ZdB? Mais que um concerto, uma performance multidisciplinar e multimédia ancorada ao recente álbum Technophelia fiel a um conceito DYI techno-punk ou wave, algures entre o espiritismo pagão de Ariel Pink e o provocador libertinismo de Peaches, e o lirismo visual de Nite Jewel, veiculado no elegante e gracioso corpo de Geneva. E foi mesmo o que Jacuzzi concretizou em Lisboa, sozinha no palco e cantando sobre o set gravado. Pouco após as 23:30, vestindo um hábito (hood) de duende ou de feiticeira, de capuz ocultando a cabeça, a pequena Geneva concluiu a decoração do palco espalhando luzes de árvore do Natal por todo o pavimento e pelo suporte de microfone antes de retornar ao camarim. Depois, foi ligada a projecção vídeo com o seu nome diante de caleidoscópicos fundos que se sucediam ao som da ambiental intro “Technophelia”. Só passado um minuto entrou de vez Geneva em palco com as luzes apagadas, sucedendo-se poses junto ao microfone e ainda usando a mística indumentária diante da própria imagem da ‘feiticeira Geneva‘ já videoprojectada.

As luzes foram então acesas para o arranque de “I’m A TV”, single de Technophelia e típica cold wave de inspiração germânica, roboticamente declamada de dentro do capuz e pontuada por uns gemidos para estabelecer um facilitista erotismo hedonista. Numa ostensiva subjugação dos conteúdos introvertidos aos extrovertidos, “God Maker” não é muito diferente da canção anterior e a maior distinção na interpretação daquele electro midtempo filiado na eurodisco dos 80s foi mesmo Geneva dançando calmamente – tal como grande parte do público -, enquanto cobria o palco com um aleatório percurso.

Na pausa entre canções, com o público aplaudindo descontraidamente, a americana descalçou-se, mas musicalmente nada se alterou a partir daquele instante: da electrónica fria de “One Colored Room” e “Ark Of The Zombies”, temas curtos como todos os anteriores, a nota mais digna de registo foi mesmo Geneva ter-se abeirado do limite do palco para ‘enfrentar’ a plateia – timidamente, porque continuou coberta pela capa.

Ânimos que se exaltaram – pacificamente!

Como se tivesse ocorrido um clique emocional, “Squid Hunter” marcou uma ruptura que gerou ânimos exaltados. Of beat minimal e uma estrutura mais próxima do electroclash, espevitada por urros de feras oceânicas (orcas, por exemplo), foi pretexto para Geneva berrar histericamente e correr sem rumo por todo o palco em grande contraste com a harmonia emocional até à canção anterior. E a metamorfose continuou para “Aerosol Can”, antes da qual Jacuzzi se desfez do capuz e tirou da cabeça a peruca alaranjada que aquele escondera até àquela pausa, deixando solto o natural cabelo escuro da pequena americana. A disposição estava mesmo mais alegre e entusiasmante, e no calor do momento “Cannibal Babies” – onde sobressai a drástica expressão “eat your sex” – o hábito foi renegado, ficando a elegantíssima silhueta de Geneva revelada por um catsuit negro sem mangas, burlescamente completado por duas luvas também negras de manga comprida que a libertou para continuar os muito graciosos movimentos ao ponto de num dado instante daquele eurodisco 80s ao jeito de Actually Huyzenga ter gritado “Bite me!”

Entre o público, os ânimos estavam igualmente mais libertos, já com muitas mulheres e alguns hipsters que dançavam na mesma onda de Geneva. Já se pressentia o fim do concerto e após a angustiada “Casket”, o final chegou mesmo com “Macho Island”, que apesar da letra algo demencial, tem uma música que deixou uma vibração positiva aquando do “That’s the end of the show” com que Geneva casualmente encerrou a sua actuação.

O fundo musical continuou e o nome permaneceu projectado no vídeo animando o público que não parou de bater palmas e suplicar por um encore, mas segundos depois Geneva saltou do palco e desfilou pela plateia confirmando que seriam mesmo só os 45 minutos do alinhamento pré-gravado, sem margem para improvisar encore. Tudo muito competente e elegante, conseguindo o objectivo de entreter e relaxar, porque o paradigma hedonista é o de a forma vencer o conteúdo.