A vida vai correndo, mais ou menos tranquila, e os dramas e dilemas de ontem já são hoje notícias passadas, longínquas no tempo, no espaço e distantes do coração. O mediatismo atira para a ordem do dia assuntos que pelo choque garantem audiência, mais que incitar a uma genuína tentativa de mudança, e assiste-se a uma revolta de sofá, calma e silenciosa, indignada mas inerte que em pouco tempo desagua em nada. E cai no vazio, cai no esquecimento, com pequenos vislumbres de memória aqui e ali que algum dia foi uma questão verdadeiramente crítica.

Ghostpoet pode ter perdido, para alguns, o timing; para outros, este é o momento perfeito, aquele em que as atenções já se viraram para o próximo-acontecimento-do-dia, para se despertarem consciências; não através de uma saturação contraproducente e normalizadora mas pelo resgate, do fundo da pilha de infindáveis dossiês de problemáticas globais, da questão da imigração e dos refugiados.

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Obaro Ejimiwe regressa, desta forma artisticamente pungente, aos temas originais depois de Shedding Skin, o seu último lançamento, registar já praticamente dois anos. Se em finais de abril, Ghospoet abria eventualmente caminho para um novo álbum – que não se sabe se se virá a confirmar -, com música nova, agora chega o respectivo vídeo, que condensa na história de um único indivíduo o drama de tantos milhões. E tal como na vida real tantas vezes se acontece, não tem um final feliz. Ghostpoet continua a transpor e a dissolver fronteiras, não só em termos temáticos como sonoros, e desconhece-se ainda se “Immigrant Boogie” fará parte de um longa-duração ou se será penas um one off-single.

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