Por vezes levantam-se questões tão pessoais como irremediavelmente analisadoras de realidades gerais através de momentos estanques no tempo e no espaço. E entre este momento (este o da escrita) e o outro (o do palco) sobram pontos de interrogação.

O momento concreto do concerto será, à partida, a transmissão dos momentos antecessores de criação com tudo aquilo que a capacidade de transposição ou de improvisação e transformação do objecto artístico por parte do elemento performativo prova ser capaz. Independentemente do objecto que se transmite todo ele, desde que apresentável em palco, passa a sofrer de variantes que não existiam no momento criativo tão simplesmente porque as variáveis da equação passam a conter elementos novos: espaço, público, dia, estado de humor. A fórmula mágica deixa de ser entre os elementos envolvidos no processo criativo e acrescenta factores, uns mais variáveis do que outros… e não é isso mesmo que torna esse momento uma sequência de tempo inesquecível ou irrepetível?! Devia ser!

Existem concertos que deviam vir com, pelo menos, uma tira de papel com algumas instruções, só para não cair no exagero de pedir a oferta do livro de “Como Levar Com Certas Pauladas E Os Melhores Métodos Comportamentais Em Concertos Para Os Quais Não Estamos Preparados”. No domingo, ao final da tarde na ZDB, o livro começava assim: «Suster a respiração em 3…2…1…Agora!!!» e alguns exemplares deviam ter sido distribuídos porque sobrou a sensação que o pessoal comprou bilhete para um comboio que passeava mais lento e este TGV trucidou as fotos que se queria tirar da paisagem.

Os Girl Band não são, com certeza, o auge da simplicidade. Longe estão do conceito de melodia. O horizonte estético alinha-se entre o Woooow!!! e o Watafaaaak! e entre o caos, a experimentação, a raiva, a violência, a juventude, a necessidade da extrapolação de barreiras e de alguma forma uma recuperação de um algo que será um rock sem o ser, mas com os elementos todos que o definem. E aqui entramos na necessidade das instruções e nas suas consequências pela falta dela. A banda chega montada nos seus sorrisos irlandeses e, sem muitas merdas, Dara, Duggan, Fox e Faulkner enchem o espaço de som. Alto, rouco, afiado, “Paul” diz boa noite em dialectos noise, em batidas que pediam o suor automático de quem recebia a mensagem. A batida é alta, é tribalizada, os óbvios ecos de Mark E. Smith dos The Fall na voz de Dara Kiely e em formato grito cambaleante são um apelo ao caos. Em troca, do público, recebe-se a contemplação e uma acalmia absolutamente desadequada ao tsunami que em 6 minutos se levantou e que caiu em cima de cabeças aparentemente desprevenidas e que prossegue o rasto de destruição com “De Bom Bom”, single de 2014. “De Bom Bom”, visto com os olhos a meio metro da guitarra de Alan Duggan, é verdadeiramente impressionante e deixa outra questão no ar, a da definição de virtuosismo. Se isto não é virtuosismo, então o que será?! Todas as voltas e reviravoltas que Duggan deixa nas suas cordas são de quem desenvolve por si uma técnica e uma abordagem absolutamente própria ao instrumento. Não se estranha que no final de “De Bom Bom” as cordas estejam partidas… estranha-se é que não se desintegrem ao final de cada tema.

A demolição segue dentro de momentos!

“The Final Riddler”, “Baloo” e “Pears For Lunch” abrem a tríade do regresso. Cada uma delas sendo uma unidade de destruição em formatos muito específicos e de identidade própria. “Baloo” varia entre uma dança selvática assente numa bateria maravilhosamente simples, em loops de guitarra circulares com apontamentos de peso e algo que paira no ar à espera de cair com estrondo em cima do público como se este fosse Nagasaki e a eles nada restasse senão “being nuked“. “Riddler” é rápida na velocidade e na duração e remete sem apelo nem agravo aos tempos áureos do hard-core, do industrial de guitarras e do punk e traz à memória o projecto de Jello Biaffra com elementos dos Ministry, que pontualmente editaram ao longo da década de 90 com o nome de Lard. Extremo, rápido, bruto e a pedir um bom mosh pit… não há, há apenas contemplação e um ligeiro movimento hipnótico de quem ainda não está a conseguir reagir. “Pears For Lunch” é o momento mais Sonic Youth da noite, as guitarras cortam o ar como se fossem motos-serras e embrulham a voz cambaleante de Dara. Avançamos para “In Plastic”, em registo mais lento, em barreiras de ruído sem par e aproximando Dara de Cobain, num arrastar muito próximo ao de Kurt e dos Nirvana. Podíamos estar diante de Thurston Moore a infiltrar guitarras em In Uteronoisy e doloroso.

Daqui em diante entramos nas fases “Importante” e “Excepcional” da Escala de Richter do final de tarde. “Why Do The Hide Bodies Under My Garage”, a cover de Blawan, abre o dancefloor! O ar é rarefeito neste planeta onde acabamos de entrar, o beat sobe direito do sétimo círculo do Inferno de Dante, aqui no Vale do Flegetonte as vozes gritam violência, as guitarras esmagam-te contra o ar e pedem que os corpos se entreguem perdidos aos movimentos rápidos em que “The Cha Cha Cha”, 30 segundos de velocidade crua que caiem inanimados e em sangue nos braços de “Fucking Butter”, transformou a demência clubbing de “Hide Bodies”. Maníaco, demoníaco e quase tortuoso, “Fucking Butter” eleva a cartilha demente de Black Francis e de Cobain a um novo estado novo… é dada a ordem  para dançar, moshar, abrir um pit ou a lei marcial será imposta! Surreal que no meio de toda a brutalidade sonora se erga uma voz a gritar desesperadamente “NUTELLA!!!NUTELLA!!! NUTELLA!!! NUTELLA!!!”… olha que docinho irreal, surreal, fulcral na história de quem assiste. Daqui saltamos sem ar para respirar – tinha dado jeito o alerta e o livro de instruções nesta altura – para “Lawman”, ali onde os These New Puritans se podiam ter inspirado nos Jesus Lizard e onde o tsunami já não responde pelo nome e reside a força de “Lawman”. Uma marcha de glória sónica entre a contenção e o minimalismo do tecno que cospe na cara do grunge como se fosse a mais rebelde encarnação de um demónio negro de um subguetto noise de Detroit ou Mike Patton te esmurrasse os ouvidos com livros sobre ditadores mortos e sanguinários. Dança ou morre, man, dança ou morre!

E no final estava tudo morto porque não dançaram, não abriram um pit e todos os stagedivings do mundo foram dados como desaparecidos … foi preciso chamar um “The Witch Dr.” para fechar a noite! Mais uma vez lancinante e com o peso do industrial das baterias galopantes de Ministry. E nem um corpo se mexeu mais que num esvoaçante embalo psicadélico.

Dara, Duggan, Fox e Faulkner saem de palco com o mesmo sorriso irlandês e sem grande merda ter acontecido fora do palco… E aqui somos obrigados a voltar à questão inicial! A fórmula mágica esbarrou num publicou gelado, observante e inamovível no seu passeio de domingo ao fim do dia! O que poderia e deveria e que tinha na receita todos os ingredientes para a fórmula ter sido mágica terminou como uma volta num carrossel pouco mágico de uma força visceral da natureza, como se tivéssemos assistido sentados no sofá a um documentário sobre tufões ou tremores de terra a comer as pipocas que sobraram da noite de eleições. Não deveriam as artes de palco ser um intercâmbio energético e simbiótico entre criador e público? Deveriam, e é isso que faz noites históricas! Podia ter sido? Podia? Mas não foi, porque as pipocas estavam moles!

Antes da tempestade vem sempre a bonança, não é?!  Não! Antes da tempestade vieram os Cave Story. E pedindo desculpas avançadas pelo preconceito e garantindo que já se tirou o disco da gaveta, os miúdos das Caldas afinal são bons! Muito bons! Mas quem é que lhes meteu uma etiqueta a dizer “psicadélico”? Sabem tanto a LSD como os Pavement, os The Feelies ou os Superchunk. Ou seja, NADA! E soam tão bem em palco. Nove músicas, guitarras de cabelos nos olhos, Primaveras sónicas e Outonos subtilmente delineados a post-punk em doses bem disfarçadas mas de escola noisy north-american geekness. Três músicas novas porque já estão fartos de tocar as mesmas e os pontos altos de Spider Tracks, “Buzzard Feed”, Southern Hpe”, “Richman” e a cair o pano a peladinha fantástica de “Fantasy Football”, dão o pontapé de saída para uma conquista… a minha!