Corria o ano de 2012 quando um grupo de amigos – Dave Bayley, Drew MacFarlane, Edmund Irwin-Singer e Joe Seaward – da cidade de Oxford decidiram dedicar-se à música e assim nasceram os Glass Animals. Nesse mesmo ano, foi lançado o EP Leaflings, o que captou o interesse de Paul Epworth (Adele, Florence and the Machine, Foster The People) que, ao reconhecer o tremendo potencial da banda numa actuação num bar em Londres, rapidamente lhes ofereceu um contrato discográfico para que fossem a primeira banda a emergir na Wolf Tone, a editora cujo o produtor inglês tinha acabado de criar.

A parceria entre os Glass Animals e Paul Epworth culminou em 2014 com o lançamento do álbum ZABA, disco cuja criação Epworth teve um papel fulcral:

Ele é um excelente produtor, é alguém que sabe fazer com que os artistas consigam sentir-se descontraídos durante o processo de gravação, mas, ao mesmo tempo, consegue tirar-nos da nossa zona de conforto de modo a que não estejamos sempre a remoer nas mesmas ideias e sim a experimentar coisas novas – mesmo que por vezes não resultem,

confessou Dave Bailey numa das primeiras entrevistas enquanto vocalista da banda.

De facto, regista-se uma tremenda evolução entre os temas de Leaflings e ZABA quando postos lado a lado: a sonoridade, o ambiente, o fluxo, a ambição… No espaço de dois anos, o grupo de amigos de Oxford abandonou o objectivo de ‘fazer música por ser divertido’ e alistaram-se enquanto ‘músicos a tempo inteiro’: Dave Bailey desistiu do curso de Medicina para se dedicar de corpo e alma aos Glass Animals, por exemplo.

Descrever a música do quarteto britânico não é tarefa simples, se é que chega mesmo a ser possível: o seu único disco de originais segue uma temática ‘tropical’, utilizando samples de vento a colidir em árvores ou até mesmo do chiar de coelhos – evidenciado nos temas “Pools” e “Hazey” – que acompanham sonoridades tão distintas como hip-hop, R&B e pop-psicadélico para criar todo um mundo de diferentes tons electrónicos e de beats. A riqueza na sonoridade dos Glass Animals chega até a ofuscar a parte lírica das canções, cujo os constituintes são tão subjectivos que a mensagem de cada uma fica à interpretação do ouvinte.  Por se tratar de um concept album, ZABA funciona como um todo, onde todas as faixas simbolizam a peça de um puzzle; a atmosfera afrodisíaca do disco é conectada de tema em tema através de interlúdios bem conseguidos e que fluem com a maior das naturalidades, reforçando a ideia de que se trata de uma experiência única, que exige ser vivenciada do início ao fim. Contudo, e após várias audições, deparamo-nos com o maior problema do disco: alguns dos temas não conseguem reunir o esplendor das favoritas do público, como “Gooey” ou “Black Mambo”, e tornam-se repetitivas e até mesmo um pouco enfadonhas; são músicas como “Toes”, “Wyrd” e “JDNT” que privam ZABA de ser um álbum a roçar o perfeito.

Com a chegada de 2016 e a entrada no belo mês de Agosto, os Glass Animals estão prestes a lançar o seu segundo disco de originais, de nome How To Be A Human Being. Nele, a banda tanto pode repetir a trajectória de um novo concept album – sobre a essência do ser humano, como antevê o título do álbum e as letras das mais recentes canções – ou aventurar-se em algo novo. Daquilo que nos têm apresentado do seu próximo longa-duração, a ser lançado no dia 26 deste mês, é difícil adivinhar qual o caminho que escolheram; muito mais fácil, é ficar deslumbrado com “Life Itself” e “Youth”. Ambas retêm a misticidade com que têm encantado os fãs desde 2012, embora sejam temas muito mais arrojados e interessantes do que aqueles que lhes sucedem. Nesta segunda volta, os Glass Animals ‘corrigiram’ um dos seus ‘calcanhares de Aquiles’, nomeadamente a secção lírica; ao contrário das mensagens que ficavam no ar em ZABA, as letras dos dois primeiros avanços de How To Be A Human Being deixaram de ser tão subjectivas, o que suscita a possibilidade do ouvinte se rever naquilo que Dave Bailey nos dita, de criarmos um elo de ligação para com as canções.

How To Be A Human Being aparenta não ser apenas um título que nos liga, a nós humanos disfuncionais com os nossos problemas e medos, mas sim algo muito maior: aquilo que faz de nós pessoas. No lançamento do vídeo para “Youth”, Dave Bailey revelou que a ideia para a canção surgiu de uma conversa com uma mulher que lhe: “contou uma história sobre o seu filho que era absolutamente desoladora! Aquilo que me contou era do mais triste que podia haver, mas a forma como falava, de forma calma, esperançosa e optimista, fazia com que ambos nos sentíssemos felizes e tristes ao mesmo tempo. Nesta música, tento recriar o misto de sensações que senti naquele dia“. A complexidade da mentalidade humana parece ser o próximo tema a ser abordado pelos Glass Animals em disco e, por ser um tema que nos diz tanto, pode acabar por se tornar um verdadeiro sucesso para os rapazes de Oxford.

‘Sucesso’ é uma palavra que não lhes é totalmente estranha: desde o lançamento de ZABA que os Glass Animals já tocaram em quatro continentes, tendo esgotado o Musicbox, em Lisboa, num dos dias do Jameson Urban Routes em 2014. Mesmo não alcançando a proeza de outras bandas britânicas como Alt-j, Arctic Monkeys ou The Vaccines, que alcançaram glória mundial logo no seu primeiro disco, o destino dos Glass Animals prevê-se risonho com o lançamento de How To Be A Human Being. Tendo como base a quantidade de reproduções de músicas que têm no Spotify – “Gooey” já ultrapassou os 50 milhões – e a sonoridade contagiante de “Life Itself” e “Youth”, a segunda tentativa em conquistarem o globo pode ser a definitiva. Entre 2012 a 2014, podiam ser apelidados de ‘uma bela descoberta‘. 2015 ditou-os como sendo uma ‘bandas mais in do momento‘. Nos próximos anos, têm tudo para serem ‘um dos próximos fenómenos da nova música alternativa‘. Será que esta profecia se realizará? Apenas o tempo poderá responder… felizmente que para artistas como os Glass Animals, temos todo o tempo do mundo.