Gwenno - Y Dydd Olaf
80%Overall Score

Y Dydd Olaf (O Último Dia), um álbum conceptual inspirado num romance de ficção científica cantado em galês, é o bombom maravilhoso com que Gwenno Saunders, antiga vocalista das Pipettes decidiu presentear os ouvintes mais afoitos e desejosos de uma pop eletrónica retrofuturista. Convenhamos, o que há para não gostar num álbum que combina uma base literária, sobretudo de um género tão fértil em imagens, imaginário e ideias como a ficção científica, com a voz doce e etérea de Gwenno e o embalo onírico de um som simultaneamente evocativo e novo?

Como se não bastasse, há também um pendor político, o que torna o álbum relevante não apenas em sonoridade mas também em significado. Trata-se, segundo as palavras da própria numa entrevista ao site The Quietus, de “feminismo electro-pop” e de um apelo à revolução que está nos nossos corações. O romance de 1976 de Owain Owain é sobre um futuro distópico em que o domínio pertence aos robôs e o álbum, mesmo que não compreendamos o que é dito, é tremendamente evocativo em termos de imagens. O mundo que cria é tangível, um futuro retro com muito estilo, com o encanto e deslumbramento de olhos arregalados que a ficção científica tem tendência a suscitar. E criar essa sensação num álbum não é coisa pouca. Gwenno consegue transmitir a sensação de narrativa e de significado até a quem não fala galês e faz uma coisa importantíssima: desperta a vontade de pesquisar, perceber e ler – sobre o álbum, sobre o autor, sobre o romance e (porque não?) ler o próprio romance. E quem não for apreciador de ficção científica, esse género tão subvalorizado e tão rico, pode simplesmente curtir com gosto este álbum delicioso.

Levados pelos sintetizadores e pelos ambientes eletrónicos, descobrimos um álbum em que todos os temas são igualmente consistentes e fortes, vanguardistas e extremamente orelhudos. Tudo faz sentido, o alinhamento é impecável e sentimo-nos imersos num filme, numa narrativa que podemos não compreender mas que tornamos nossa, preenchendo as lacunas com as nossas próprias imagens e sensações. É música que se ouve e que se sente, que faz cócegas na imaginação e que nos torna recetivos a uma pop eletrónica diferente, ao antigo e ao novo. Tornamos-nos recetivos à língua galesa, à experiência libertadora que é ouvir a melodia de palavras que não conhecemos e à experiência política de ver um álbum numa língua que não a inglesa, uma expressão em simultâneo de nacionalismo e de universalidade.

Y Dydd Olaf será um último dia, sim, na medida em que todos os novos dias são precedidos por um derradeiro. É o primeiro álbum a solo de Gwenno e a criação de um admirável mundo novo de sonoridades futuristas e nostálgicas, com a força de uma voz que canta na língua de uma “minoria” num elogio da especificidade e da diversidade que, a não vivermos numa realidade distópica, certamente tocará os ouvidos, a imaginação e os corações mais ou menos revolucionários de turbas de melómanos.

Luisa Ferreira