Braga já não sabe viver sem o Festival Semibreve, o nosso festival predilecto de música electrónica e artes digitais. À 6a edição constatámos o óbvio: a sua crescente popularidade faz duvidar que o possamos, ainda, tratar como um pequeno óptimo segredo e confirma-se, pelo esgotar prematuro dos passes gerais a par da afluência de um público jovem, eclético e oriundo de outras cidades – até além-fronteiras -, o seu enorme poder de atracção. Aqui, há espaço para o som e a imagem e para experimentações órfãs de contexto. É um fim-de-semana à margem do habitual, com outras regras e expectativas nas quais se cimenta o Semibreve como uma referência no circuito dos festivais de culto e, para nós, um dos melhores do ano. Mais uma vez, o programa mostra-se-nos como multidisciplinar e transversal a vários pontos da cidade; no entanto, a sua principal atracção reside, invariavelmente, nos espectáculos da sala principal do Theatro Circo, um espaço histórico da cidade de Braga, construído no início do séc. XIX, que retém o seu charme clássico mesmo após a remodelação há cerca de uma década. É uma sala ampla com palco à italiana, distintamente decorada em predominantes tons de dourado e vermelho e com um magnífico lustre pendente acima da plateia. Dada a sua história, é especialmente simbólica a ocupação deste espaço e o diálogo subtil com a sua imponência austera através da imposição de uma arte que se sustenta no experimental e na quebra dos cânones.

Foi, ao longo dos três dias de festival, palco de momentos especiais. Relembramos Kara-Lis Coverdale, figura extraordinariamente alta e de cabelos igualmente compridos – a lembrar um viking, disseram alguns -, que se separava do público por meio de uma tela através da qual se entrevia apenas a artista, algumas plantas e a mesa sobre a qual se dispunha a parafernália electrónica onde se projectou o projecto visual de MFO. Kara-Lis passou a maior parte da sua vida próxima de órgãos de igrejas, disciplinada pela educação musical formal no Royal Conservatory de Toronto e a música religiosa; indicações que de nada nos serviram quando uma série de sons se aproximaram de nós, cada vez mais tensos, ainda desagregados, como forças ingovernáveis de pura violência no domínio das possibilidades da abstracção. As imagens complementam a música e sugerem fragmentos de algo maior, alguns padrões que prontamente se refazem e desaparecem. Pelo meio, em momentos, evocam-se impressões de música sacra, vozes, talvez, pouco nítidas e apenas em passagem, à semelhança do que ouvimos em Love Streams, do canadiano Tim Hecker, álbum no qual Kara-Lis também participou.

No Domingo, último dia do festival, a Casa Rolão recebeu a sua conversa com um jornalista da revista Wire, ao qual resumiu a grande parte da sua carreira, incluindo influências, motivações, e as várias colaborações que já encetou na sua ainda curta carreira. Colocou a electrónica como plataforma de diálogo entre o físico e o mental,e, mais uma vez, mencionou a violência como uma componente central, mas não necessariamente evidente, da sua música. Do público, surge uma pergunta em inglês fluente: “O que modelarias electronicamente caso tivesses a possibilidade?” Kara-Lis reconhece uma boa pergunta e toma o seu tempo a reflectir. “Não sei – e digo-te a resposta mais tarde. Mas o silêncio, silêncio completo, é algo que me fascina.” Estranhamos a menção de uma resposta adiada, mas tudo fez sentido quando vimos a pessoa curiosa do público a dar o último concerto do festival – era tão somente Paul Jebanasam, autor de um dos mais impressionantes discos deste ano.

Continuum, um registo pleno em referências ao universo físico que habitamos – vejamos o nome da sua primeira faixa ‘depart as | air dx stop ∂ρ/∂ /dt somewhere = +∇⋅(ρ sigma*(y waiting -x) v)=0 ∂ρ/dy/dt for = you x dim’; a linguagem matemática é uma restrição simbólica e ,simultaneamente, a única ponte palpável que, nesta música, estabelecemos para a nossa realidade. Tudo foi improvisado dentro de uma estrutura muito específica e familiar a quem ouviu o disco. A música – o som, melhor dizendo -, vive uma constante transformação, proveniente de algo que nos é desconhecido; poderoso e encorpado, é uma orquestra de white-noise almejando à energia pura, possível banda-sonora para o descontrolo do big bang e capaz de uma extraordinária intensidade emocional – só assim se denuncia a intervenção humana por detrás disto tudo e se separa de um simples acaso sónico. Aos comandos da viagem estiveram Jebanasam e Tarik Barri, este último artista visual que, de todo o festival, foi o que mais aproveitou a sua intervenção: as imagens, também elas intensamente abstractas, sugeriam a narrativa energética e multicolor, profundamente casada com a música. Absolutamente inenarrável e um dos melhores momentos deste Semibreve.

Christina Vantzou w/ Harawi Ensemble @ Semibreve

Christina Vantzou w/ Harawi Ensemble @ Semibreve

Tentar catalogar estes momentos, enquadrá-los nos cânones da crítica musical, será uma tarefa inglória. Rashad Becker e Moritz von Oswald, por exemplo, o primeiro controlando a electrónica, o segundo sentado a um piano preparado, propuseram-se a pequenos ensaios musicais, ideias quebradas à partida e orientadas pelo mais básico objectivo de justapor sons; como exemplo do que se ouviu, tome-se o primeiro registo de Becker, Traditional Music Of Notional Species Vol. I,  mas agora em dueto com um piano desorientado, embriagado com o álcool do demónio. A dada altura, a bizarria do espectáculo sugeriu um cabaré apocalíptico com os dois músicos a braços com infrutíferas tentativas de se lançarem a baladas de jazz hipoteticamente compostas por Captain Beefheart, ele mesmo; Tyondai Braxton, o músico que se lhe seguiu em palco, aproveitando a toada dos anteriores, convidou-nos a um mundo caótico e igualmente ingovernável. A projecção que nos trouxe era singular, com transições frenéticas entre várias ideias visuais; acometeu-nos compará-las com uma VHS depois de uma passagem acidental pelo micro-ondas. Todo o seu espectáculo foi criado in loco, com Tyondai a mexer freneticamente os cabos de uma mesa de mistura, e o resultado foi música a bpms frenéticos e um zapping endiabrado por diferentes texturas e padrões que levaria qualquer sinesteta a um overload sensorial. Ultrapassada a estranheza inicial, e justamente quando nos entranhávamos na sua proposta, um qualquer problema técnico – daqueles manhosos, difíceis de topar quando se dão -, impediu-o de continuar o concerto. Sentiu-se o peso a cair-lhe dos ombros quando a plateia, regozijada com a pequena amostra a que teve direito, o aplaudiu efusivamente. E mesmo quando as propostas têm um travo mais reconhecível, como no caso do concerto de Christina Vantzou, tudo corre bem e alinha, em termos de aprazível experiência com o restante cartaz; esta em particular, decorreu na Capela Imaculada do Seminário Menor, moderníssimo espaço religioso que impressiona tanto pela sua dimensão como pelos detalhes arquitectónicos. Apoiada pelo Harawi Ensemble, um conjunto de quatro músicos encarregues de harpa, dois violinos, e violoncelo, encantou a sala por meio da música ambient, introspectiva e dada à contemplação da música.

Nas duas primeiras noites, depois do derradeiro cair do pano e quando o Theatro Circo fechava a sua Sala Principal, a música passava ora para o Pequeno Auditório, onde actuaram Ron Morelli e Jonathan Uriel Saldanha em espectáculos extra-sensoriais, ora se deslocava uns metros e para se materializar no gnration. Este, um edifício bem mais moderno, é fruto de uma outra remodelação, desta feita à antiga sede da GNR, e tem-se assumido assertivamente como uma das referências para a música alternativa no norte do país. O acesso era livre, excepto para a zona dos concertos, e as noites beneficiaram desse novo público – visivelmente mais jovem -, que pôde desfrutar do bar e das várias instalações artísticas ali estacionadas. Mais próximo da música de dança, pôde ouvir-se Andy Stott e Laurel Halo, ambos devotos ao techno, o primeiro decidido a trabalhar apenas com o seu axioma – a batida -, reorganizando e multiplicando as suas várias iterações com pouquíssimos adornos mais, enquanto que Halo se dedicou a algo como uma jornada pelos vários subgéneros e movimentos alusivos; Ron Morelli, desta vez em formato DJ Set, prestou homenagem à electrónica com raízes profundas no industrial e no post-punk, e Nidia Minaj fez por esgotar completamente as baterias possíveis à hora que se deu o seu concerto. A blackbox do gnration, pouquíssimo iluminada, apenas denunciou o local pela paisagem que se entrevia pelas janelas abertas da sala; na mesma noite, pudemos estar na mais popular pista de dança americana, como num esconso e ilegal encontro nos subúrbios de Berlim.

Foram três dias que passaram demasiado rápido, onde Braga parece uma outra cidade – subitamente uma autêntica capital da música electrónica e das artes digitais, capaz de trazer a si músicos de vozes e expressões absolutamente únicas. A atenção que recebe além-fronteiras e da crítica especializada não é, de todo, um acaso: o trabalho que aqui se faz é meritório e um exemplo dentro do nosso país. O Semibreve é um dos melhores fins de semana do ano: que assim o seja, por mais uma série deles.

Semibreve '16, dia

Semibreve ’16. dia 1