As luzes avermelhadas na comprida sala da Casa Independente aquecem quem vai chegando da rua chuvosa. Encostados às ombreiras das portas e das janelas, aguardam calmamente que Hannah Epperson entre em palco. Dois pares de pés ocupam agora o tapete bem caseiro, onde se estende o composto estandarte de pedais e a bateria… os de Hannah estão descalços. Do lado direito, encostado à parede, o violino já parece querer saltar da sua caixa.

A figura da jovem,  leve e sorridente, coloca-se à vontade pelo espaço, elogiando desde logo a hospitalidade dos anfitriões e o ambiente daquela casa peculiar. É por ocasião do lançamento do seu primeiro álbum Upsweep que se encontra em terras portuguesas. Apesar da sua juventude pessoal e musical, o trabalho de Hannah revela-se de grande sensibilidade e destreza, predominando os movimentos sonoros prateados e bucólicos com nuances a Norberto Lobo. Faz-se acompanhar por Jason Burger, percussionista, baterista e produtor musical, com uma experiência bem consistente e uma aparência bem mais jovial. Calmo, concentrado e claramente satisfeito por partilhar o palco com a jovem autora de Unsweep, segue as suas pistas e encontra harmonicamente as melodias. A percussão surge como uma segunda voz cúmplice na composição sonora do concerto, espalhando guizos, deslizando os pratos ou agitando os shekerés trazidos da tradição africana. 

O novo álbum é uma peça bilateral, um conjunto de 12 músicas que se dobram a meio para apresentar duas faces seguindo, literalmente, a estrutura do vinil. São o verso uma da outra, como duas pessoas que experienciam a mesma realidade do seu modo próprio. Assim, conhecemos para cada música a versão de Amélia e de Iris, que ajudam Hannah a reconciliar as diferentes vozes que a compõem, tão diversas são as suas influências, de Este a Oeste. 

No entanto, a escolha para aquela noite pendeu para um dos lados aproximando-se de Iris, mais melancólica e aguçada pelo violino do que a sua inversa, enquanto apresentava a maioria das canções. As melodias iam fluindo e estendendo-se pelo espaço como um lençol de água, fino e translúcido. O violino não escondia o seu protagonismo, ajudando a voz que dava sinais de delicadeza fragilizada. Nem por isso as vocais se desviaram para o tom errado, surgindo pontuais mas decididas e penetrantes, como se viessem do mar e ondulassem até à superfície naturalmente. “Iodine”, a última música do álbum, ecoou iminentemente marítima, através dos dedilhados como gotas. Vimos como ela representa um todo enquanto artista, um complexo sonoro que vem do seu íntimo e, por isso, consegue manter um nível de equilíbrio muito admirável. Num momento particularmente carregado, Hannah dedicou a canção “Brother” ao seu irmão, e aos irmãos e mães e pais de todos quantos ali a partilhavam com ela.

Com a sua já reconhecida admiração por lagartas e borboletas, ela fala de transformação, de metamorfose, de Kafka e deste mundo louco e então, introduz um dos temas mais esperados debruçados sobre “Story (Amelia)”. Este fascínio pela confluência de realidades, da forma como o mundo tem a sua própria grande dinâmica de evolução, de se transformar às vezes de maneira bizarra e, principalmente, as formas ricas e tão pessoais das paisagens que cria através destes conjuntos de sons, mostram uma artista disponível, que se preocupa em criar empatia com o mundo, com o público, com os instrumentos e os companheiros. Com certeza, uma experiência sensível reminiscente e com um tom de promessa para a música.

As fotos do concerto da Casa Independente em Lisboa pela Ana Santos e as do concerto dos Maus Hábitos no Porto pela Bruna Gomes.

Hannah Epperson: As passagens por Lisboa e Porto em imagens