O tempo desenrola-se na desmontagem do próprio tempo. Nas descobertas diárias do que se faz com o tempo, de como se desmontam crenças e dogmas para descobrir novamente novos caminhos e novas fés, novos deuses, novos parâmetros, novas intemporalidades menos que seculares, porque aqui já não se acredita na sustentabilidade do eterno. Já nos desmontaram o tempo para ele valer pouco e desintegrar-se ao premir de um botão. “TIME will destroy itself in 3… 2… 1…”.  Adeus ao “Para Sempre” e o abraço da morte ao perpétuo ou, na melhor das hipóteses, resiste um mutável constante. Hauschka é isto… o eterno mutável que se degladia contra o abraço da morte com constantes reinvenções e beijos de vida.

Três meses depois do serão no Teatro Maria Matos, reencontramos-nos com o alemão solitário e sorridente que faz questão de se justificar, de explicar de que matéria são feitos os seus sonhos ímpares ao piano e as histórias que o mesmo piano preparado se prepara para contar e como o tempo desaparece quando toca. O tempo, sempre o tempo.

Em Fevereiro, o palco de Hauschka era sedado primeiramente pela magia sagrada de Hildur Guðnadóttir, deixando as ondas cerebrais das entidades receptoras em estado alfa, prontas a receber de forma singular a música de Hauschka. Desta vez não há preparação, condicionante suprema para a assimilação de forma distinta do que aí vinha. Curiosa a sensação de estar dentro de um espelho a olhar duas realidades díspares que se desenrolam de forma paralela com os mesmos intervenientes, mas com percursos, reacções e conclusões diferentes. Os actores são Hauschka e o piano e os seus brinquedos, “Craco” e “Elizabeth Bay” os temas, os mesmos dois temas tocados no Teatro Maria Matos. Troca-se a ordem e “Elizabeth Day” abre a noite.

As cidades perdidas de Hauschka não oferecem viagens ao passado como no concerto passado. Não há memórias, há futuros; há uma elevação cósmica, mas não espiritual; não há construções de betão, mas há mastodontes intergalácticos de matérias por descobrir e plasma atemporal que cruzam universos e dimensões. “Elizabeth Bay” alonga-se, Hauschka esquece-se da Terra que deixou para trás e, acompanhado de seres robóticos minúsculos que vão e vêm constantemente num jogo de escondidas, constroem e desconstroem o piano e as suas palavras. Hauschka é meio Deus, meio mutante híbrido na engrenagem da máquina que nos trouxe os astronautas antigos, que nos trouxe as sementes do cosmos que nos pariram à sua imagem. Visto de tão perto as mãos dele são irreais, são elementos de outros espaços a recordar caixas de músicas infernais que tocam tangos do inferno, flamencos post-mortem intercalados em interespaços de noise clássico libidinoso. Esta não é a Elizabeth do Maria Matos, esta não é a baía de “Abandoned Cities”.  É o eterno mutável em quase nada de tempo passado.

Mas “Craco” é sempre “Craco”, por mais distante ou estreito o túnel do tempo em que se faça a viagem. Mas “Craco” também é não o mesmo “Craco”, é outra cidade que reconhecemos como se a tivéssemos visto numa regressão ao futuro, mas não a conhecemos para caminhar as suas ruas vazias de olhos fechados. Mentira, de olhos fechados caminha-se sim, mas inseguros da próxima incerta mudança de rumo. Nesta “Craco” não se dança. Ou dança-se! Mas na direcção lenta de um buraco negro. O imenso desconhecido visto do imenso salão-mor da imensa nave-mãe em solidão absoluta enquanto o negro se infiltra definitivamente nos nossos olhos e a desmaterialização é um qualquer instante súbito por marcar no tempo. Tudo ao som do que em tempos em outras Terras poderia ser um cravo. Mas “Craco”… “Craco” é sempre “Craco”.

Sai de palco, entra em palco, conta a história de um encore de 2 horas de Prince e avisa que não vai fazer o mesmo. Sai de palco, entra em palco, recheia o piano de bolas de ping pong e afirma que o seu sonho é um dia encher o piano de bolas até não caber mais nenhuma. Hoje são só umas dezenas de bolas a saltar, enquanto nos oferece o último momento da noite. Falhou a capacidade de reconhecimento da identidade da experiência. Talvez tenha sido apenas isso, uma experiência, um improviso, um momento de sorriso no tempo. Volker Bertelmann é um mago disto mesmo. Do desabrigo à passagem de cronos, do desapego ao deserto do espaço, da envolvência do lapso construtivo de imaginação… sem nomes nem memórias. Apenas a sustentável presença do raro que é ainda existir a possibilidade de existir obra que ultrapassa o tempo que nos desmontaram. Sim, desmente-se o parágrafo inicial e que bonito que é a mutabilidade da palavra, o desenvolvimento da ideia e a rareza da arte que perdura. A intemporalidade do “Para Sempre” no toque de um ebow na corda de um piano como se um fio de laser energético codificado abrisse as portas para os segredos escondidos do cosmos e a máquina voadora derivasse sozinha em direcção ao nada que decifra a essência do tudo. E o tempo desenrola-se na desmontagem do próprio tempo.