Hildur Guðnadóttir entra pé ante pé com a suavidade de quem atravessa as brumas para Avalon, as muralhas de Asgard ou o palco de um teatro romano depois de uma batalha de sangue. De joelhos no chão, dá início ao ritual como quem fala com os deuses antigos, como quem vibra em mantras, e o estado alfa é o único em que é permitido coexistir com este estado de alma que aqui se vive. A voz que vem dela não é dela, é a voz da história das lendas nórdicas, da cristianização forçada do Artesão dos Céus… Hildur oferece-nos “Heyr Himnasmiður”, poema religioso islandês de Kolbeinn Tumason com mais de 700 anos, poema de submissão às forças supremas escrito no leito da morte do poeta e musicado por Þorkell Sigurbjörnsson no século passado.

O feitiço está lançado e as teias mágicas que se tecem entre o violoncelo e a voz de Hildur Guðnadóttir não são visíveis, mas a metamorfose da mulher doce com o instrumento que parece sair do seu corpo como um terceiro braço ou uma terceira visão é sublime e sucede-se em ondas melódicas e ressonâncias… mesmo em frente ao nosso olhar. Raros são os momentos onde nos é permitido assistir à extracção de essências divinas na primeira pessoa. Será isto a Alquimia?

Hildur é a feiticeira que todas as mulheres islandesas parecem ser, Hildur é uma menina que canta canções de embalar e de morte e o seu violoncelo é tanto uma varinha de condão como um machado que dilacera. Sente-se o cheiro a sangue e a materiais delicados em cada uma das suas composições. Saman, que ela apresenta neste palco do Maria Matos feito aldeia junto ao mar gelado do norte, é feito disto, de peças como “Heima”, “Strokur”, “Frá” e “Bær”, peças de arte sacra e fragmentos de uma aurora primitiva com vocalizações de sereias processadas em computadores e largadas ao vento em catedrais vazias onde tudo é frio, onde tudo é divino.

Hauschka vem e senta-se. O esqueleto do seu piano é projectado ao fundo feito horizonte onde a vista se vai perder em movimentações rápidas e no binómio construção/desconstrução. Para já, é momento de cruzar mundos, deixar a religiosidade pagã de Hildur penetrar nas teclas do piano do alemão e forçar a mente a largar o mundo espiritual, puro e incorpóreo para onde foi levado com a graciosidade da sedução e encantamento da islandesa. O violoncelo ganha corpo físico através dos cabos e fios que o ligam, neste momento, ao piano de Hauschka. O etéreo ligado às máquinas… morte ao vaporoso, que venha a brutalidade da arquitectura perdida. Momento sem descrição. Ela sai com a mesma graciosidade de quem acabou de desmaterializar.

Hauschka assume o poder. As cidades são abandonadas, os edifícios ganham cores negras e cinzentas tocadas por verdes e outras cores nas trepadeiras que engolem memórias. Os nossos olhos desabam e desaguam sem misericórdia no que se passa na tela ao fundo. Hauschka cola e descola fitas, tira e joga à carica, os guizos saltam nas cordas do piano, há isqueiros, ebows e o que parece, na falta de definição, dois chopsticks. Mas não é importante… importante é a velocidade trágica a que Hauschka nos conduz às Abandoned City‘s do disco que nos vem apresentar. Seja a “Craco”, no sul de Itália ou a “Elizabeth Bay” e os seus diamantes-fantasma na Namíbia.

“Craco” faz dançar. Não só os olhos que continuamente são pregados ao filme na tela de fundo, mas também a pulsação cardíaca que se torna desenfreada. O misto de velocidade, mestria e peso esquizofrénico com que Hauschka instiga todo o paisagismo tecno-industrial disfarçado de classicismo contemporâneo da composição arrasta consigo um remoinho de cimentos e sentimentos; é o movimento mecânico da saída dos operários da fábrica Lumière, é um relógio sem hora marcada, são todos os interiores de todas as máquinas do mundo em cacofonia simultânea.  Não se conta o tempo por esta máquina de baralhar electrónica com clássicos ao piano. Aqui e ali de aromas russos, talvez, aqui e ali com a marca registada da precisão alemã.

“Elizabeth Bay”, quem és tu, meu amor?! Falas-me de África, mas tresandas a Hiroshima e ao pesado silêncio nuclear… não há ninguém para chorar a tua morte! Deixaram-te sozinha entre a falência dos muros e dos sentidos. Quem és tu, “Elizabeth Bay”? Cheiras a mirra da Namíbia, mas falas-me de histórias de Treblinka e Dachau, do primeiro momento depois da saída do último preso, do último cadáver ser levado. O momento primordial de toda a solidão, o momento primordial do peso na alma da história. O mundo não é assim como me contas, pois não, “Elizabeth Bay”? Trágico e maravilhoso no silêncio de tudo!

Hauschka termina… chama Hildur… ela não responde… já estará em Thule a fiar linho numa casa de pedra com vista para o mar escuro?! Hauschka continua sozinho e oferece uma voltinha rápida com aromas cubanos e sul-americanos à estranha cidade fantasma chinesa de “Thames Town”.

Cai o pano que não existe e erguem-se as mãos em agradecimento a uma noite violenta, mística e épica.

PS: Querida, Elizabeth Bay, Hildur afinal não se desmaterializou para Thule nem Reykjavik… estava lá fora a vender discos!