Heaven's Gate - Transmuting
80%Overall Score

Se o shoegaze for, à boa maneira de Burroughs, aquilo que nos faz fixar a biqueira do sapato durante oito horas sob o calor de Tânger, o powergaze dos Heaven’s Gate será aquilo que nos faz pegar nas tralhas e viver até aos 80’s. Depois de High Riser, o EP de estreia, a banda nova-iorquina surge com Transmuting, o seu primeiro álbum, editado em Setembro de 2013 sob o selo da Inflated Records, cuja sonoridade nos faz lembrar Siouxie & The Banshees (e cuja “Stargazer” poderia ter dado o nome ao sítio em que se mexem os Heaven’s Gate), de Grace Slick de vez em quando, dos primeiros voos de Throwing Muses, até mesmo Killing Joke (do mais velhinho, mas é verdade). O mais interessante será que, mesmo assim, Transmuting tem algo de novo. Provavelmente o equilíbrio entre melodias que encontrariam espaço, sem problema, na gaveta pós-punk e uma saturação sonora que encontra espaço na gaveta algo-século-XXI; provavelmente a energia contagiante que perpassa o álbum; provavelmente, nada disso.

As primeiras sete músicas sucedem-se na perfeição, atacando-nos imediatamente: “Roll The Dice”, vence-nos ao fim do primeiro minuto, quando nos mostra que não estamos apenas diante de mais uma banda indie; “Drone”, a segunda faixa, não perdoa – dançável, envolvente e hipnótica, a trazer o cansaço das melhores noites na Rua da Madalena ou da Rua de São Paulo; “Fight”, a faixa seguinte, mantém a mesma energia mas atira-nos para a sedução (nem é essa a palavra, mas é a mais bonita); “Clean”, a quinta faixa, desperta as melhores viagens e, uma vez mais, as melhores noites; “Lex Vision” descola com um toque mais dreamy, rapidamente envolvido na progressão ascendente que nos mantém sem muito tempo para repousar; “I’m Forgetting” enrola-nos no trabalho matemático da secção rítmica com a densa malha sonora das guitarras do refrão; “Screams” volta a apostar na velocidade, na energia.

É a partir de “Always” que, com as devidas ressalvas, o álbum perde um pouco de força e se aproxima daquilo que seria “mais uma banda indie”, não oferecendo tanto como o que precedeu mas, ainda assim, mantendo-se eficiente e com um toque de originalidade tal que o impede de se tornar totalmente previsível. Depois de terminar, aquilo que se pode dizer de Transmuting é que é um álbum de elevação, de subida. E a vontade de dançar mantém-se. Se isto é powergaze, que venha mais.