Como será estarmos um período de tempo sem nos reconhecermos? Ter a possibilidade de sermos alguma coisa que gostaríamos de ser mas sem nunca termos tido essa oportunidade. Pensem em Uma Temporada Fora de Mim como um disco para isso mesmo. Hélio Flanders assim o fez. Não se separou dos Vanguart mas abriu caminho para um projecto a solo. Entre os salões de dança argentinos e uma sala branca com um piano como o “Imagine” de John Lennon. De resto, o falecido “Beatle” e a sua parceira Yoko Ono serviram de inspiração à procura de novas sonoridades. Mas melhor será dizer que soa a um encontro entre o trabalho a solo de Damon Albarn com John Lennon numa casa de férias de Astor Piazzolla. Como o próprio diz, este álbum é um “disco low-fi com tecnologia hi-fi”, importante para não criar barreiras entre o ouvinte e ele. E foi quase tudo aos primeiros takes.

Podemos começar desde logo com a formação que Hélio apresenta: um piano, instrumentos de cordas, precursão e bandoneón. Esta é a banda-base. As cordas são um elemento fundamental para a ambiência sonora: são instrumentos claramente graves – um contrabaixo e um violoncelo –, e mostrarão, ao longo do disco, uma escuridão e peso seus característicos. O bandoneón, por sua vez, um instrumento típico argentino e com parecenças ao acordeão, traz uma sensualidade sul-americana, provinda da Argentina. A voz, esta, já vem dos tempos de Vanguart mas com uma maior exploração e um maior âmbito. Traz à memória um Jeff Buckley brasileiro.

Falando do álbum, abrimo-lo com uma introdução ao que se pode esperar ao longo do mesmo. O título homónimo do disco mostra logo toda uma envolvência pesada e carregada de sentimento, uma quase-tragédia que chega a alguns rasgos de luz mais para o fim. Lembra uma viagem de barco no meio de uma tempestade que sobrevive no término de tudo.

Eu não vim nessa terra
Pra não morrer de amor

Sofrer faz parte da jornada. Começa-se já a perceber que o violoncelo vai trazer algumas melodias e terá uma resposta do bandoneón. Quase como um jogo, uma luta que acontece lá no fundo. O curioso também é a presença de dois elementos de contraste dentro da mesma secção de cordas: um violoncelista clássico – Bruno Serroni que tem uma carreira a solo e foi baixista de bandas como os Pullovers ou de Thiago Pethit – e um contrabaixista de tango – Ignacio Varchausky que fundou a Orquestra El Arranque. São estas características que vão trazer também algum impacto ao álbum. Martin Sued no bandoneón e Leo Mattos na precursão compõe o resto da banda.

Falar num viagem de barco não é totalmente em vão. E percebe-se com “Onde a Terra Acaba”. Uma grandiosidade que serve como um grito de salvamento para “algo (que) se perdeu”. As mulheres desta letra estão à procura de algo e têm as suas características para esconder essa procura. Assim como em “Major Luciana”. Há um diálogo entre duas pessoas, algo teatral. Uma traição num casal como tema. Não brinquem com ela, porque com Luciana “ninguém mente”.

Nesta Temporada, há sempre vontade de voltar atrás. Ou de olhar para trás e tentar perceber o que aconteceu e a razão de ter acontecido. Ao mesmo tempo que, depois de tomada essa decisão, haja que “esperar”. “Um Grito” é essa espera. É esse rearview mirror do sucedido durante a viagem. E como voltar para a frente? É trazer algo cru, quase religioso mas pagão ao mesmo tempo. Ou trazer “Pronto Per Il Mondo” como um sonho para o ponto central da viagem. É um cruzamento para o resto do álbum. Ou se segue ou se muda de direção.

Ou se acorda e se pergunta “De Onde Você Vem?”. Uma revisão do que se passou e do que se pretende. Musicalmente, soa menos argentino com o que se tem passado no resto do álbum, mas soa a uma valsa. Agitada, por sinal. Mas está lá o espírito que nos vem sendo familiar. A família também acaba por ser uma referência. O tempo, a passagem do mesmo, a separação, um efeito déjà-vu que nos vai atormentando à medida que crescemos e percebemos que “em cada rua que eu passo / pareço já ter vivido ali em todo o lugar”. Esta música também é uma conquista pessoal de Hélio por ter a hipótese de cantar com Cida Moreira. A cantora de São Paulo está aqui em “Dentro do Tempo Que Eu Sou”. E traz uma vivência e experiência à canção e que ajuda a torná-la num dos momentos mais belos do disco. É grande, harmonioso, vem do interior e sai cá para fora com uma força imensa.

Nada vai durar para sempre
Tenho tanta pressa em te ver
Nada vai durar para sempre
Mas talvez eu e você

E não, mesmo com esta linha, é mais enorme que o clássico “Live Forever” dos Oasis.

Se já houver um conhecimento prévio de Hélio, certamente se lembra de “Romeo” nos tempos idos com Thiago Pethit. A versão toma aqui uma nova roupagem, mais madura e de encontro ao resto do disco. Mesmo tendo toda uma estrutura pop mas com umas luzes dançáveis de Uma Temporada Fora de Mim.

Talvez aquela viagem que se falou tenha chegado ao fim. E fala-se do coração também. Do coração que ficou longe mas sempre perto. Principalmente daqueles que Hélio cita no fim da canção: “Ao músculo que nem uma vez descansa”. Assim como abriu o disco a introduzir o que iria acontecer, o término dá-se com uma nostálgica “Cuyaba Tango”. E deixa saudade e vontade de ter mais. Mas a Temporada acabou. Talvez.

A coesão é algo que faz parte deste disco. Ao longo de todo o caminho percebe-se o processo de onde partiu e a partir de onde acabou. O mesmo, visualmente. Graças ao trabalho fotográfico de Daryan Dornelles – com fotos muito escuras, pouca luz e desfoque pelo movimento que traz da própria música –, e ao design do Estúdio Claraboia – com as letras a fazerem uma espécie de puzzle gráfico que nos “obriga” a estar atentos. É muito recomendável poderem apreciar, com todos os sentidos, esta magnífica primeira aventura em disco e a solo de Hélio Flanders.