Dando pitada de country ou folk a um timbre que, em muitos momentos, recorda Lana del Rey, Holly Macve chega com sabor doce e maduro. A voz baloiça na corrente da melodia, meio inquieta, com piano a aparecer no horizonte dos sons já de Inverno, no bonito vídeo de “Corner of My Mind”, realizado por Lauren Joy Kennett e pela própria Holly.

Observamo-la, assim, deambulando por várias paisagens de natureza, ou simplesmente parada com o contraste do preto e branco e o seu semblante de diva antiga. Sabemos que não houve grande planeamento para a filmagem e montagem do pequeno filme, com pouco mais de cinco minutos, e que capta antes a essência da sua voz e dos seus traços e de toda a envolvência, desde o espaço da floresta à montanha, ao lago ou à ruína, com jeitos poéticos e modestos que em todos os sentidos funcionam. O tom da imagem é meio sombrio, por vezes, mas arrefece imediatamente com a melodia de fundo da canção cujo compasso não nos deixa cair no vácuo.

Toda a captação de imagens rapinou ao condado de West Workshire, em Inglaterra, na localidade de Holme Moss perto da zona onde Holly vive, que partilha os postais mais deslumbrantes. Já em 2015 tinha surgido uma versão demo da música, mas este vídeo vem confirmar, em absoluto, uma posição de destaque. O vídeo sucede à sua actuação no Festival SXSW onde recebeu o aval de Bob Boilen e da NPR, e serve igualmente de ponto de partida para a sua digressão a acontecer nos Estados Unidos da América. Em Setembro, estará também pela Alemanha.

Holly encontra-se actualmente a preparar o seu LP, a ser lançado pela Bella Union, editora que cuidou de álbuns dos Fleet Foxes, Explosions in the Sky ou Beach House, tendo assinado com o grupo em 2015, e atraído vários artistas, como John Grant ou Benjamin Clementine, que a convidaram para uma tournée conjunta. Macve não encontra descanso, tendo ainda actuado com Yael Naim em Paris, e estado em digressão com os Villagers. É obra.

Ainda que, por enquanto, não tenhamos muita matéria-prima à disposição, parece que o que recebemos é suficiente, estando a qualidade a superar a quantidade. Temos “We Don’t Know Where We’re Going”, faixa lançada por Melanie Safka em 1972 que Holly gravou com Chris Blakey, figura que actua na produção também com Nick Cave. 

As cartas estão lançadas e Holly, que ainda tem só 20 anos de idade, está já a dar que falar. Temos tempo e ela, certamente, também, assim o esperamos. A irlandesa, estabelecida em Inglaterra, costumava actuar em bares onde o público-alvo eram jovens embriagados, com ruído de fundo de conversas infindáveis, que imediatamente criavam silêncio para a ouvir cantar. Esse é um dom de poucos e deve ser louvado. São já muitas as referências, agora é ir aguardando e confiar que Macve saberá criar, com tempo e espaço, a sua própria assinatura.