Como qualquer um de nós que tenha limitado a sua existência por demasiado tempo a um mesmo local bem sabe, uma mudança geográfica é a única coisa que, não raras vezes, faz sentido para que tudo o resto na nossa vida desbloqueie e se ponha em andamento. Apesar de em muitos sentidos o impacto da deslocação de Gutemburgo para Montreal protagonizada por Anton Ekman e Viktor Hansson, a dupla que compõe os Holy Family, ter sido de alguma forma refrigerada pelas semelhanças climatéricas, decerto não o foi em termos culturais, arquitectónicos, linguísticos e claro, musicais. Foi precisamente essa vivência em dois locais distintos do planeta que apadrinhou e possibilitou o delinear dos contornos que o álbum de estreia Can’t Dance, Won’t Steal, Need Some Help, a ser lançado dia 21 de Julho, acabou por assumir.

Essa ambivalência transatlântica, soberbamente traduzida em som pela banda, fica desta forma eternizada em 10 faixas, 5 das quais compostas em Montreal, as restante 5 em Gotemburgo. Duas realidades contrastantes articuladas em disco que são o culminar das experiências de vida de Anton e Viktor tanto no local onde cresceram, como no local que escolheram adoptar.

Escrito num pequeno apartamento em Montreal, cidade onde a banda reside presentemente, o tema “East Coast Nerves” deixa transparecer os ritmos mecânicos assimilados por Viktor quando trabalhava nas docas de Gutemburgo. Por outro lado, “Youth Cult”, de semblante bastante mais minimalista, reflete as ambiências acomodadas na banda após a mudança de local, ao passo que “Keep Up” nos atira para a sede insaciável de uma cidade em romantizar o dia-a-dia da classe trabalhadora da cidade sueca, brilhantemente compensada pela atmosfera edificante da cidade canadiana com “Trail Of Songs”.

Para escuta, fica este “My Kayfabe Babe”, a revelar um pouco do que aí vem.