Quatro meses volvidos sobre a sua passagem pelo palco secundário do NOS Alive, os Spoon apresentaram-se com pompa e circunstância em ambos os Coliseus que se preencheram de grandes êxitos e um Hot Thoughts a provar que findos 9 discos, Britt Daniel e companhia continuam a ser um reduto precioso da cena independente proveniente de terras texanas. Nesta noite, na Invicta, como na restante tour que levaria no dia seguinte os Spoon à capital, os italianos sediados em Londres Husky Loops abriram a noite.

Desde o primeiro momento em que Pietro Garrone se agarra à bateria e começa a desfiar “The Man”, tema do EP de estreia homónimo editado este ano, que é perceptível que a série de loops que seriam disferidos ao longo do concerto, não são vindos de um mero botão de repetição. Esta é uma autêntica máquina de fazer ritmos, acompanhada com o poderio virtuoso de Tommasso no baixo e da agressividade sonora de Pier Forni na guitarra. “Tempo”, “Fading Out” ou “Fighting Myself” são outros dos temas saídos de Husky Loops e que insiste em não deixar o motor esmorecer enquanto houver matéria para carburar.

Uma coisa é certa: O loops no nome não engana. A mestria na forma de entrelaçar construções sonoras repetidas por entre cargas explosivas de puro garage rock, contrastam com uma atitude jovial que derramam nos instrumentos, na forma como encaram um palco e tornam coesa uma série de influências no som que produzem. Mesmo num palco maior que eles, com público a menos para eles, os Husky Loops encaixam inspirações vorazes de Death From Above 1979 ou Royal Blood, lado a lado com o tom jazzístico e exploratório dos BADBADBNOTGOOD.

Não se estranha a forma como a sala ficou mais bem composta quando os Spoon se preparavam para entrar. Não se estranha tão pouco que a banda viesse com a intenção de agraciar a sua longa tour promocional de Hot Thoughts com um concerto certeiro a ponto de despejar certezas do patamar a que a banda tem vindo a ascender ao longo da sua carreira.

Britt Daniel é um icónico líder sem demasiados brilhantismos egocêntricos que se deixa homogeneizar com os seus companheiros. Talvez seja exagerado, mas Britt tem o seu ar de crooner sorrateiro pronto a arrancar movimentos que nem um Mick Jagger com uns uivos à la James Dean Bradfield ou Springsteen. O último disco dos Spoon é uma prova desse estatuto que Daniel tem vindo a acumular ao longo da carreira, e Hot Thoughts é o ponto alto da sua carreira no papel de performer. A cumplicidade cultivada com Alex Fischel é visível na forma como desfilam alguns dos seus melhores momentos musicais e como os tornam tão harmoniosamente coesos. Exemplo perfeito? A forma como a banda consegue passar de uma balada inspiradora como “Inside Out” – com momentos profundamente harmónicos e texturados – para a veia venenosa funk de “I Turn My Camera On”.

A aliança entre uma banda rock com inspirações alternativas e independentes denuncia-se no duelo de guitarra de clássicos como Girls Can Tell de 2001 e Ga Ga Ga Ga Ga de 2007 até à espacialidade dos synths de They Want My Soul, antecessor de Hot Thoughts lançado em 2014. A revisitação a estes discos faz-se com “Don’t You Eva”, “Everything Hits At Once” e “Do You”. O som dos Spoon atravessa uma diversidade de texturas, como na flutuante “I Ain’t the One”, com um extenso início protagonizado por um solitário Fischel, e que passa também pelo pop funk sensual de “Can I Sit Next To You”. Como destino, a banda chega a um longo outro em “My Mathematical Mind”, com Britt a ser maestro no comando.

 

Para o grand finale, uma sequência de três temas de Hot Thoughts, um disco rock que não renega a guitarra como elemento, mas que a usa como um complemento. É essa coesão que o torna tão especial, tão musicalmente interessante e tão promíscuo. As nuances eletrónicas – como Beck usa no seu Colors – são dispostas em camadas em “WhisperI’lllistentohearit” e no clássico instantâneo “Hot Thoughts”, a que se junta a negritude atmosférica de “Pink Up”. O remate ficaria entregue ao rock n’roll rebelde e vicioso de “Rent I Pay” de They Want My Soul. Uma segunda volta segura dos norte-americanos Spoon em 2017 a Portugal complementada na perfeição com uma “nota artística” para os Husky Loops.