Depois de uma convivência próxima e demorada com Ziggy Stardust, Alynda Segarra criou uma personagem a que deu vida no disco The Navigator dos Hurray for the Riff Raff. O resultado dessa relação com a personagem de Bowie não é apenas a ideia de um disco conceptual, mas o conjunto de referências a que a música da banda se abriu. As raízes culturais porto-riquenhas são evidentes, mas há também o punk que marcou a adolescência de Segarra, quer seja na música quer seja na componente política e reivindicativa que as letras adquiriram.

“Living in the City” é o vídeo novo dos Hurray For The Riff Raff, que se junta aos já lançados para “The Navigator”, “Rican Beach” e “Hungry Ghost” – e já tínhamos dado destaque à canção “Pa’lante”. Lançado em Março deste ano, The Navigator representa um momento crucial na carreira da banda, mas sobretudo na de Segarra. Depois de um conjunto de discos marcados pela influência da folk americana, particularmente apurada no penúltimo, Small Town Heroes, que lhe valeu aclamação crítica de todos os quadrantes, Segarra criou um disco conceptual que gira em torno da personagem Navita Milagros Negrón (um heterónimo, se alguma vez houve propriedade no uso da palavra).

O vídeo de “Living the City” acompanha Segarra e o grupo de que ela faz parte, The Mariposas, enquanto progridem pelas ruas de Nova Iorque até ao telhado de um edifício onde acabam a dançar. A política não está só nas letras das canções, está na ideia visual que é trabalhada no vídeo: as ruas sujas de Nova Iorque, com as paredes graffitadas e os edifícios antigos que nos habituámos a ver na ficção americana (e que já deixaram saudades a alguns artistas locais) são aqui tão importantes quanto a música. Recuperam, aliás, a conversa sobre a limpeza digital das ruas de Paris no filme O Fabuloso Destino de Amélie (Jeunet, 2001).

Há uns anos, a conversa sobre paredes sujas parecia coisa pueril de puristas intelectuais, mais preocupados
com a arte cinematográfica do que com a realidade. Mas hoje, nas grandes cidades mundiais, e em Lisboa e Porto, o problema da gentrificação é bem real. Segarra, que viu o bairro nativo, o Bronx, mudar radicalmente num curto espaço de tempo, reage aqui contra a aniquilação das referências, sobretudo étnicas. A relevância desta mudança de estilo é tão mais pertinente quanto os Hurray For The Riff Raff passam de um estilo tipicamente americano para um estilo que não só é um agregado de várias coisas, como os ritmos latinos, mas é sobretudo crítico das posições políticas recentes. Com certeza que a reacção a Trump, à campanha tanto quanto à eleição, não pode ser ignorada. Mas essa reacção política interessa sobretudo na medida em que provoca uma alteração pessoal e é essa, mais do tudo o resto, que torna este disco, e especificamente esta canção, em algo de muito especial.

Os Hurray For The Riff Raff desenganam quem acredita que há uma distância entre política e vida real. O mais interessante, no entanto, como demonstrado neste disco, é que ser político pode resultar de um acto introspectivo. Talvez a maior dificuldade em perceber estes tempos políticos atormentados esteja na dificuldade que temos em compreender que a defesa de certas políticas põe em causa a sobrevivência de pessoas que vivem ao nosso lado. Tem tanto de reconfortante como de perturbador perceber isto com uma canção (ou com um disco): por um lado, a música mostra que tem relevância; por outro, é preocupante que tenhamos de chegar ao ponto de ter de fazer discos sobre isto para sermos ouvidos.